|
Não esqueça de acessar nosso livro de visitas e deixar
sua opinião!
URUTU
de
LUIZ POETA (Luiz Gilberto de Barros)
Conto
premiado no Concurso Literário Professor Horácio Pacheco,
componente
da Antologia de Poesias, Crônicas e Contos da Academia
Niteroiense de Letras
em 03 dezembro de 2008
A maria-fumaça partiu sonolentamente,
arrastando-se , soltando fungados abafados até sumir na
primeira curva quilômetro adentro, margeada pelo verde da
Mata Atlântica.
De uma das janelas de madeira, a mãozinha
pálida de Angélica era um lenço miúdo e frágil acenando a
esmo.
Depois, o silêncio, o ermo se instalando gradativo... no
coração.
Um pio de juriti, mugido longe de vaca
desgarrada, tiro de bala de caça no meio da mata, latido de
cão lebreiro e o talo de bambu pingando água mineral nas
pedras da lagoinha.
A bota esmagou folhas secas no primeiro
passo, até que o caboclo sumiu no mato denso.
O sol perfurava os cipós entrelaçados e
alumiava de manso, acordando os insetos rasteiros de uma
inércia de sombras geladas. Ele andava sem pressa. No ombro,
a espingarda, o embornal nas costas suadas, o facão e o
punhal atados à coxa.
Pensava em Angélica... cantando cantiga de
roça, o riso fácil e brejeiro por trás daquele silêncio tão
bonito... esfregando roupa no riacho, cintura apertada no
vestido de chita, cabelo vazando loirinho do lenço
encarnado...
Eram estalos de folhas sob suas botas.
Preás, lagartos e serpentes rasteiras mexiam
no capim-navalha, mas o pé pisava fundo e rasteiro no sabugo
de manga jogado a esmo pelos macacos.
Angélica na cabeça.
O rosto avermelhado nas bochechas e o
narizinho de porcelana,as argolas vermelhas nas orelhas
combinando com o lenço, descalça, o vento soprando livre e
gelado, descobrindo as pernas delas... branquinhas...
Sonambulando o dia, ele seguia no sem-destino
dos fatos, a mão arrancando as folha de goiabeira, os olhos
sobre o tiziu pretinho saltando no arame farpado.
Então, o apito longe, mexendo com o
abandono.
Nunca mais Angélica tirando o esmalte,
lixando a unha, ouvindo estação da cidade no radinho...
- Frita esse bagrinho, Anja ! Fresquinho !
Peguei na curva do rio, embaixo
da sombra do pé-de-jaca.
Ela ia largando o bordado - sempre rindo
Angélica - às vezes meio maluca correndo atrás de mim, mas
boa na cozinha e sensual no amor.
Também... quem mandou provar da caninha da
fazenda ? Eta cachacinha sem-vergonha, sô !
Ela não gostava mesmo era do bafo do álcool,
dissera várias vezes a ele, fazendo dengo.
Mas ele queria amor, afagos, carinhos, quis deitar com ela
sujo de rua, suado,
seboso...
- Ocê nunca me bateu... era Angélica...a mão
alisando a face vermelha
de espanto e medo.
E Anja fugiu. Dormiu no mato; ele, no tapete
de palha...vomitado.
Dia seguinte, ela voltou, picada por
muriçoca, riscada de murubu, inchada
de bofetada.
O homem se desculpou, pediu, implorou,
chorou... ela não disse nada, apenas arrumou as roupinhas
delicadas em uma mala rota...profundissimamente silenciosa,
os olhos mirando o nada.
Meio-dia. Inexorável, o trem gemendo no
trilho - menos que no peito dele, respirando arrependimento
e mudos monossílabos sem perspectiva de palavras... Angélica
embora.
Aí... a urutu !
Aquele chocalho ele conhecia. Urutu das
grandes, prima da cascavel... mexendo nas folhas secas da
jabuticabeira.
O caboclo estacou mirando o réptil. Belo
espécime... seduzindo, hipnotizando, deslizando na terra
preta, sonolentamente... a língua dividida no meio, a cabeça
levantada a meio metro e recuando... como um elástico
prestes a arrebentar-se... apavorante...
Outro apito. Talvez outro trem. Por uns
segundos, ele esqueceu-se da víbora, demarcando o território
num último aviso.
Num átimo, pensava em Angélica mexendo no violão,
tocando guarânia,
esfregando o lençol, cozinhando galinha-d'angola com batada
inglesa, sempre cantando, assobiando cantiga de roda...
Angélica nunca mais, amor nunca mais... vida... nunca
mais.
E a urutu ameaçava, esperando apenas um
movimento para o golpe fatal,
o vôo repentino inevitável, as presas de três centímetros
aparecendo palidamente molhadas pelo veneno pingando gotas
mortais na boca amarela, escamosa...
os olhos hipnoticamente diabólicos percorrendo a anatomia da
presa, aguardando um pequeno movimento...
Também ? Que importava agora uma picada ?
Sem Angélica, nada mais interessava.
Seria morte certa, gradativa, de tédio, solidão,
tristeza...abandono.
Todavia, a vida respirava em volta. O vento
no capim, os zumbidos dos insetos nas flores perfumando o
ar, a água escorrendo do olho-d'água.
A mão foi descendo cínica, milimetricamente
rumo à faca na coxa, a cobra movendo-se magnética,
expectante, perigosamente muda...
o chocalho parara.
Os dátilos atingiram o cabo da arma, esta
foi sendo levantada quase que imperceptivelmente, como um
ponteiro de horas,a urutu preparando-se para o impulso
fatídico, sinuosamente bela...
A faca foi finalmente segura, agora era ser
mais rápido que o relâmpago -
era como matar uma mosca com um tapa, num milésimo de
segundo.
E Angélica ? Onde Angélica ? ...olhando a
ravina ? Vendo a pequenina choupana no vale, deserta,
calada, triste... sozinha ?
Um estalo de mato perto.
A serpente mexeu-se perigosamente.
Num canto do olho, o animal, no outro, o
ruído; as pupilas movimentando-se tímidas e preocupadas com
o inusitado rumor.
Mas não tardou a repentina imagem saindo de
dentro da lágrima: era ela, vivinha, o mesmo vestido rodado,
a mala apertada contra o peito,presa por aqueles bracinhos
de porcelana, os cabelos dourando a tarde, soltos no vento
frio da capoeira... Anja ! Angélica !
E a cobra ?
Foi uma fração.
A lâmina riscou o ar simultânea ao bote.
Cabeça prum lado, corpo pro outro,
o punhal cravado no tronco da jabuticabeira,
urutu dividida no rio de sangue riscando o caminho, o veneno
escorrendo gosmento das mandíbulas abertas.
O jagunço sentou-se num toco de galho de
jatobá, a respiração afundando
no peito, os olhos apunhalando - como pétala - a pálida
mulher estática mas firme - mulher do mato não desmaia à
toa.
Ela olhava a serpente entre admirada e apavorada, serenando
aos poucos, a pele amorenando com suavidade sob a sombra das
árvores.
- Por que voltou ?
Ela mudou de conversa.
- Quase que ela lhe pica.
- Era picar e matar.
- Ocê num viu ?
- Como ia ver ? ...só via teu corpo, tua mão
sumindo na curva...
acenando adeus.
- Mas eu voltei.
Ele não acreditava no que ouvia.
- Voltou ?
- Voltei.
- Pra ficar ?
- Pra ficar.
Ele estava perplexo.
- Mas eu te bati, eu... bebi e...
- Não vai bater mais.
Pausa.
...e nem beber mais.
O jagunço levantou-se aos prantos,os olhos
embotados de uma ternura indizível.
- Eu te juro, nunca mais vou beber, nunca
mais vou brigar contigo,
nunca mais vou te bater... nunca mais.
- Ocê jura ?
- Por essa luz que me alumia. Quero ser
picado por cem urutu se um dia te puser a mão outra vez.
- Então, vão bora.
- E a urutu ?
- Traz o couro, vai dar um bom cinto.
Ele limpou a lâmina do punhal na folha de
bananeira, após cortar o couro
do réptil.
Abraçou a mulher e seguiu com ela rumando pela trilhazinha
que dava até a cabana.
- Por que voltou ?
- A ponte quebrou.
Não falaram mais nada. Não carecia.
A noite desceu serenamente escurecendo a
casa.
Na janela do quarto de casal, apenas luzinha
de lampião... bem fraca.
Comente
volta
|
|
|
|
Stammtisch na História

Conheça a história da tradição em Blumenau
e no mundo. |
|
|
|

Receitas Maravilhosas
da Culinária Germânica, regional e internacional
Clique para ver!
|
|
|
|
|
|