OS CAMPOS DE
ÉRICO VERÍSSIMO IV
(Para Jorge Gustavo Barbosa de Oliveira)
E então, num dia, numa tarde, eu estive lá,
dentre eles, neles, e caminhei por eles num dos que
foi um dos grandes encantamentos da minha vida, e
era como caminhar pelo país das fadas, pois aqueles
eram os mágicos campos de Érico Veríssimo, e eu
esperara desde os 12 anos para um dia conseguir
chegar lá, sem nunca crer muito que tal fosse
possível, pois como pode acreditar em campos pessoas
como eu, que passam suas vidas dentro de um Vale?
Fui, no entanto, no último inverno, e fazia uma
temperatura de 1,5 graus Centígrados, e a verdura
daqueles campos que deviam ter amanhecido cobertos
de geada era uma coisa tão impressionante, como se
de esmeraldas fossem feitos e como se nunca tivessem
sido tocados pelo gelo, que fiquei meio em dúvida se
eles eram de verdade, mesmo, ou se, quem sabe, eu
divagava, caminhava por campos imaginários, somente
sonhados pela mente de um escritor único...
Uma estrada atravessava os campos, e fui caminhando
pela beirada dela, bem longe, bem longe, não tão
longe quanto meu coração pedia, pois queria, além do
espaço, atravessar o tempo, e encontrar, de repente,
na beirada da estrada, andando comigo, o padre que
possuía um punhal que era como que um estigma, e que
criou um menino que ficaria para todo o sempre com o
nome de Pedro Missioneiro... Pois é, depois da
destruição das Missões, Pedro Missioneiro muito
errou por muitos campos, à deriva, na espera do seu
destino, e como ali eram os campos de Érico
Veríssimo, com toda a certeza ele andara por ali
também, e o que me faltava era a possibilidade de
atravessar o tempo, tão poucos séculos, para
caminhar por ali com a candura daquele Pedro gerado
por uma índia nas antigas Missões, e que, com
certeza, era antepassado de tantas daquelas gentes
que viviam naquela cidade rodeada dos campos, e no
entorno da cidade que era também rodeado pelos
campos...
Eu mal acreditava que estava ali mesmo, onde tanta
coisa tinha acontecido na História e no meu
imaginário que vinha desde a infância, que daqueles
campos se alevantara tamanha onda de energia quando
um menino chamado Érico Veríssimo aprendera o
be-a-bá e deixara de só imaginar, para começar a
escrever o fantástico mundo que legou a mim e a
tantos pelo mundo afora, e que lá no escondido do
meu Vale eu fora atingida por aquela onda, e nunca
mais, depois, pudera ser como antes!
A emoção me fechava a garganta, e eu pensava se lá
do alto do gelado céu azul daquele dia Érico
Veríssimo estaria podendo ver que os campos dele,
agora, tinham muitas coisas novas, como aquela
comprida fita que se desenrolava no meio do verde e
que era uma ferrovia, e que atravessando aquela fita
havia outra, que era uma fita de asfalto e que
levava a outra coisa nova naqueles campos chamada
universidade – que diriam os padres das Missões se
soubessem que o saber, um dia, já não seria
teocrático? Pois os padres das Missões muitas coisas
também sabiam e ensinavam, e um lugar especializado
no ensinar e aprender não era uma idéia nova
naqueles campos - mas agora a ciência tomara o lugar
da teocracia. Só que na hora não refleti muito
nisto, não – o encantamento que me possuía me fazia
como que flutuar entre Pedro Missioneiro e uma
legião de outros personagens que dele descendiam ou
não, subindo e descendo coxilhas vestidas de verde,
e era tão fantástica aquela realidade de estar, de
verdade, um dia, andando pelos campos de Érico
Veríssimo, que fui colhendo um matinho cá, um
galhinho lá, flores inesperadas dentro daquela
vegetação de inverno, desde delicadas camélias até
hirsutas flores de espinhos, todas tão lindas, tão
etéreas, mesmo as hirsutas, que segurá-las era como
ter as mãos levitando. No alto de uma coxilha, já
quase ao pôr do sol, parei para conversar com um
homem velhinho que guiava uma pequena carroça com
uma pequena carga – quem seria ele, na verdade? Qual
seu parentesco com Pedro Missioneiro? Não sei, mas
sei que ele era de verdade e estava ali, e me
perguntou:
- Por que você está colhendo esse mato?
E eu entendi que ele não tinha consciência de ser o
personagem que era, mas mesmo assim lhe expliquei:
- São flores dos campos de Érico Veríssimo!
Era complicado, para ele, entender aquilo, mas ele
me olhou com bondade, como decerto olham até hoje os
descendentes de Ana Terra.
Então, voltei para o meu Vale e trouxe aquelas
flores. Arranjei-as dentro de um frasco de vidro,
colei nele uma etiqueta onde está escrito “Flores
dos campos de Érico Veríssimo” – e como sabia que as
flores acabariam ficando secas e parecendo não ter
importância, colei ao redor do frasco pequenas
borboletas emprestadas de Quintana, para que ficasse
sempre muito clara a magia que emana dali. Eu me
emociono até às lágrimas, quando olho para elas.
Aquelas flores são a certeza de que não sonhei, e
que um dia, de verdade, andei até muito, muito
longe, pelos reais campos de Érico Veríssimo!
Blumenau, 12 de Janeiro de 2008.
Urda Alice Klueger
Escritora
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