Blumenau Convention & Visitors Bureau

Fundação Catarinense de Cultura

Instituto Cultural Brasil Alemanha (ICBA)

Tempo

Deutsche Welle

Outros Links

     

O que é isso?

 

Quem Somos?

Do Leitor

Agende-se

Cadastre seu Grupo

Blog

  Blumenau,    

 

 

 

Não esqueça de acessar nosso livro de visitas e deixar sua opinião!

 

                                  

NO TRAPICHE – Aniversário

(Para Jorge Gustavo Barbosa de Oliveira)

Tempo de lua nova em plena Primavera; terá sido lua nova quando meu amor nasceu? É que hoje é dia de aniversário dele, mas sei tão pouco dos astros para saber lá do passado, daquele tempo em que o meu marinheiro adentrou a este mundo, decerto com cachinhos negros e úmidos na sua cabecinha de anjo. Como teria sido? Seria tempo de mormaços, como agora, ou de muitas águas ou fragrâncias, também como agora? A Primavera é sempre tão surpreendente! Tudo acontece na Primavera, inclusive nascerem neste mundo meninos que se criam para serem amados incondicionalmente pela vida afora, não importa quanto tempo permaneçam no mar.
É o que penso hoje, escorada na amurada deste trapiche onde o calor incipiente deste tempo de lua nova faz com que os meninos daqui do entorno procurem a água e mergulhem como flechas na área profunda do mar onde os navios ancoram, sumindo lá embaixo por longos momentos, a ponto de me deixarem preocupada com a segurança deles. Um dia esse homem que eu amo tanto também foi menino, e eu, menina também, e como agora eu me escorava na beirada deste trapiche, com meu vestidinho de chita desbotada, um pé descalço esfregando o outro num começo de calor, como agora, e aquele menino que depois viria a ser o meu noivo também mergulhava na água profunda com a velocidade de flecha, e para me encantar, mandava para cima borbulhas de ar que me faziam gritar de preocupação, pois temia que pudessem ser borbulhas da morte. Tanto gritava que sempre alguém vinha ver o que acontecia, e às vezes vinham velhos pescadores ou mulheres das salgas que diziam coisas assim:
- Que é isto, menina? Por que ficar assustando os outros?
Eu não assuntava aquilo – é que no meu coração aquele menino já mandava desde sempre, e mesmo pequena como eu era, tinha um medo insano de que algum mal pudesse vir a acontecer a ele. E então, enquanto as mulheres das salgas e os velhos pescadores me admoestavam, meu menino subia à tona como um pequeno golfinho, os cabelos negros colados às frontes, e ria e se deliciava com a frescura da água, e mergulhava de costas como só os meninos sabem fazer, rindo e sumindo de novo no escuro do mar tão logo se abastecia de um profundo hausto de ar, e eu ficava aqui no trapiche com o coração na mão, pois ele me doía na alma por causa do meu medo. Eram, então, tempos como o de agora, de mormaços e águas e fragrâncias, e decerto havia luas novas, como a de hoje, e outras luas atravessando a baía e deixando rastros de prata, e lembro como também houve aniversários. Num deles o meu amor ganhou de um tio um pequeno samburá que um menino podia usar para carregar o produto da sua pescaria de menino; outro houve em que o senhor meu sogro deu ao filho um canivete cheio de possibilidades, com muitas lâminas, puas e furadores – ele já era crescido, então, e aquele canivete era uma grande riqueza para alguém que estava ficando adulto.
Tal foi no tempo em que, corações aos solavancos, nós nos olhávamos sem jeito e sem graça, pois a infância estava acabando e a realidade do amor nos surgia como a grande magia que era, e foi meio desconcertado que ele me mostrou as dezessete pontas do canivete.
Enquanto não se foi, nunca mais ele se separou daquele canivete. Tinha-o no bolso da capa de oleado quando partiu naquele navio que parece que nunca mais quer voltar, e talvez, se a sorte ajudou, ainda esteja com ele.
Então, aqui encostada na amurada deste trapiche perto do qual estou passando toda a minha vida, fico pensando se lá longe, nos grandes mares desconhecidos, o meu amor ainda tem no bolso aquele canivete de 17 pontas que ganhou num antigo aniversário quando o amor estava a nos enlaçar, pelo menos para mim, para sempre. Não tenho como saber – como saber de algo que se passa num navio tão distante que sequer se sabe onde está?
Sabendo ou não, queria tanto que ele soubesse que eu me lembro, e que neste dia de aniversário, de primavera e de lua nova, as recordações são tantas que me sinto como um odre repleto de tantos sentimentos que é como se transbordasse. Então, através da imensidão do céu de lua nova e de fragrâncias e de mormaço eu envio uma mensagem que tenho esperança que chegue até aquele navio onde está aquele homem que um dia nasceu na Primavera:
- Feliz aniversário, meu amor!
Será que minha mensagem terá alguma chance de chegar até onde ele está?

Blumenau, 24 de outubro de 2009.

Urda Alice Klueger
Escritora

 

Comente

 

volta

 

 

Gostou desta página? Então deixe seu recado no nosso livro de visitas! Assinar...


espaço dedicado a exposição das obras dos nosso colegas autores.

 

 

 

Stammtisch na História

Conheça a história da tradição em Blumenau

e no mundo.

 

Receitas Maravilhosas

da Culinária Germânica, regional e internacional

 

Clique para ver!