NO TRAPICHE –
Aniversário
(Para Jorge Gustavo Barbosa de Oliveira)
Tempo de lua nova em plena Primavera; terá sido lua nova
quando meu amor nasceu? É que hoje é dia de aniversário
dele, mas sei tão pouco dos astros para saber lá do
passado, daquele tempo em que o meu marinheiro adentrou
a este mundo, decerto com cachinhos negros e úmidos na
sua cabecinha de anjo. Como teria sido? Seria tempo de
mormaços, como agora, ou de muitas águas ou fragrâncias,
também como agora? A Primavera é sempre tão
surpreendente! Tudo acontece na Primavera, inclusive
nascerem neste mundo meninos que se criam para serem
amados incondicionalmente pela vida afora, não importa
quanto tempo permaneçam no mar.
É o que penso hoje, escorada na amurada deste trapiche
onde o calor incipiente deste tempo de lua nova faz com
que os meninos daqui do entorno procurem a água e
mergulhem como flechas na área profunda do mar onde os
navios ancoram, sumindo lá embaixo por longos momentos,
a ponto de me deixarem preocupada com a segurança deles.
Um dia esse homem que eu amo tanto também foi menino, e
eu, menina também, e como agora eu me escorava na
beirada deste trapiche, com meu vestidinho de chita
desbotada, um pé descalço esfregando o outro num começo
de calor, como agora, e aquele menino que depois viria a
ser o meu noivo também mergulhava na água profunda com a
velocidade de flecha, e para me encantar, mandava para
cima borbulhas de ar que me faziam gritar de
preocupação, pois temia que pudessem ser borbulhas da
morte. Tanto gritava que sempre alguém vinha ver o que
acontecia, e às vezes vinham velhos pescadores ou
mulheres das salgas que diziam coisas assim:
- Que é isto, menina? Por que ficar assustando os
outros?
Eu não assuntava aquilo – é que no meu coração aquele
menino já mandava desde sempre, e mesmo pequena como eu
era, tinha um medo insano de que algum mal pudesse vir a
acontecer a ele. E então, enquanto as mulheres das
salgas e os velhos pescadores me admoestavam, meu menino
subia à tona como um pequeno golfinho, os cabelos negros
colados às frontes, e ria e se deliciava com a frescura
da água, e mergulhava de costas como só os meninos sabem
fazer, rindo e sumindo de novo no escuro do mar tão logo
se abastecia de um profundo hausto de ar, e eu ficava
aqui no trapiche com o coração na mão, pois ele me doía
na alma por causa do meu medo. Eram, então, tempos como
o de agora, de mormaços e águas e fragrâncias, e decerto
havia luas novas, como a de hoje, e outras luas
atravessando a baía e deixando rastros de prata, e
lembro como também houve aniversários. Num deles o meu
amor ganhou de um tio um pequeno samburá que um menino
podia usar para carregar o produto da sua pescaria de
menino; outro houve em que o senhor meu sogro deu ao
filho um canivete cheio de possibilidades, com muitas
lâminas, puas e furadores – ele já era crescido, então,
e aquele canivete era uma grande riqueza para alguém que
estava ficando adulto.
Tal foi no tempo em que, corações aos solavancos, nós
nos olhávamos sem jeito e sem graça, pois a infância
estava acabando e a realidade do amor nos surgia como a
grande magia que era, e foi meio desconcertado que ele
me mostrou as dezessete pontas do canivete.
Enquanto não se foi, nunca mais ele se separou daquele
canivete. Tinha-o no bolso da capa de oleado quando
partiu naquele navio que parece que nunca mais quer
voltar, e talvez, se a sorte ajudou, ainda esteja com
ele.
Então, aqui encostada na amurada deste trapiche perto do
qual estou passando toda a minha vida, fico pensando se
lá longe, nos grandes mares desconhecidos, o meu amor
ainda tem no bolso aquele canivete de 17 pontas que
ganhou num antigo aniversário quando o amor estava a nos
enlaçar, pelo menos para mim, para sempre. Não tenho
como saber – como saber de algo que se passa num navio
tão distante que sequer se sabe onde está?
Sabendo ou não, queria tanto que ele soubesse que eu me
lembro, e que neste dia de aniversário, de primavera e
de lua nova, as recordações são tantas que me sinto como
um odre repleto de tantos sentimentos que é como se
transbordasse. Então, através da imensidão do céu de lua
nova e de fragrâncias e de mormaço eu envio uma mensagem
que tenho esperança que chegue até aquele navio onde
está aquele homem que um dia nasceu na Primavera:
- Feliz aniversário, meu amor!
Será que minha mensagem terá alguma chance de chegar até
onde ele está?
Blumenau, 24 de outubro de 2009.
Urda Alice Klueger
Escritora
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