A ÍNDIA DA
GUATEMALA
Em
2003 fui ao 3º Fórum Social Mundial de Porto Alegre,
onde muitas coisas aconteceram. Foram tantas, que
poderia escrever um livro inteiro a respeito, mas
vou me limitar a contar uma história que lá vi, de
uma índia guatemalteca, que muito me impressionou.
Tinha eu ido a uma oficina chamada “Mujeres
Solidárias”, onde mulheres argentinas iriam contar
de como haviam se unido para conseguir ao menos que
seus filhos comessem, quando a grande crise deles
começou. Cheguei cedo, tomei assento, e fiquei a
observar as lindas jovens argentinas que tinham
arregaçado as mangas e ido à luta quando seu país
“fizera água”, em dezembro de 2001. Era visível que
todas aquelas moças vinham de família rica, o que
lhes dera boas pernas, boas maneiras, gosto para se
vestir bem, que tinham comido muito bem na infância,
embora uma ou outra, agora, estivesse magra em
excesso. Todas tinham aspecto europeu, e quando
entrou uma índia no recinto, chamou a maior atenção.
A índia era idosa, baixinha, atarracada, e usava uma
roupa bordada que eu era incapaz de reconhecer como
sendo de algum lugar determinado. Sucintamente, as
argentinas contaram das providências que tinham
tomado para garantirem a comida dos filhos, como
trabalharem de enxada na mão em terrenos baldios,
transformando-os em hortas comunitárias, como
criaram refeitórios coletivos para que as crianças
de cada bairro pudessem comer. Pensei que falariam
mais – na verdade, tinham vindo para ouvir e
aprender.
Então, diversas outras representantes de outros
países falaram de trabalhos parecidos que faziam em
grupos de mulheres solidárias, e falaram duas
bascas, uma brasileira de Maceió, uma venezuelana,
etc. Todos estavam sentadas em círculo, e a estranha
índia como que se excluíra, estava lá num cantinho
da sala, com sua inegável cara americana e suas
flores bordadas no vestido, como se tivesse algum
receio de tantas mulheres com caras européias.
A coordenadora dos trabalhos, então, chamou a índia
para falar. Não guardei o nome dela, mas
apresentaram-na como uma grande personalidade,
alguém que como que caíra do céu para participar
daquela discussão. E então a índia falou.
Ela era baixinha e atarracada, já disse. Quando
abriu a boca, porém, agigantou-se na sala, deixou
pequeninas aquelas lindas moças de longas pernas
européias.
Ela contou do que ocorrera na Guatemala depois da
guerra: restaram milhares e milhares de mulheres
viúvas e crianças órfãs, e as mulheres guatemaltecas
eram preparadas apenas para servirem aos maridos:
não aprendiam a ler e nem a ter nenhuma profissão.
Até hoje, 70% das mulheres guatemaltecas maiores de
35 anos ainda são analfabetas. A guerra deixou-as
desamparadas, e como as argentinas, quando elas
viram suas crianças com fome, reagiram. Basicamente,
fizeram a mesma coisa: providenciaram comida,
profissionalizaram-se, aprenderam a ler, não só nas
cartilhas escolares, mas também nas amplas páginas
da História e do Capitalismo, e descobriram muitas
coisas que antes não sabiam.
Então houve um momento em que o básico estava
garantido, e elas já sabiam que suas crianças não
mais morreriam de fome. Que fizeram, então? Pela sua
tradição, havia que ter os corpos dos seus maridos
nos cemitérios, para que pudessem fazer-lhes
visitas, e levarem seus filhos a visitarem os pais.
Ora, os homens haviam morrido em grandes batalhas, e
haviam sido enterrados às centenas em valas comuns.
Achei tétrico o que ela contou, mas há coisas que a
gente deve contar adiante: as mulheres guatemaltecas
abriram as valas comuns, e cada uma acabou por achar
o seu homem. Não me perguntem como os reconheceram;
talvez o clima de lá seja diferente e tenha
conservado os corpos, não sei. O que sei é que cada
uma levou o seu marido para o cemitério da sua
cidade, da sua aldeia, cada uma obedeceu à tradição
do seu povo.
Depois de contar isto, aquela mulher ergueu a cabeça
e cruzou as mãos, numa atitude que dizia: “Missão
cumprida”. Elas podem, agora, por todo o sempre,
visitar seus maridos, assim como seus filhos podem
visitar os pais. Mulheres são capazes de coisas que
a gente nem imagina!
Blumenau, 30 de Janeiro de 2003.
Urda Alice Klueger
Escritora
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