DAIANE CAPELO
GAIVOTA
14.08.04 – 2º dia da Olimpíada de Atenas
Amanhã Daiane vai voar. Olha que já teve gente
querendo voar neste mundo: desde Ícaro até Nádia
Comanecci, passando por Santos Dumont, sempre teve
gente querendo desafiar a lei da gravidade, e sempre
eles nos enterneceram e nos deixaram imagens lindas,
até mesmo quando a gente considera o terno ângulo
desabado do chapéu do nosso aviador do 14 BIS. Nádia
Comanecci, então, foi alguém inesquecível: lá se vão
26 anos desde que, como uma borboleta, ela voou por
uma Olimpíada e deixou o mundo de boca aberta,
aquela frágil menina que vinha da terra do Drácula,
e que desmascarou a Transilvânia como terra de filme
de terror. Depois de Nádia Comanecci deixamos de
temer o Drácula; fizeram-se até comédias sobre
aquele sujeito tão trapalhão que não viu aquela
borboleta esvoaçante a crescer no seu território.
Mas
amanhã será Daiane quem irá voar. Ela vem ensaiando
vôos impossíveis faz tempo, já tem até revoada
chamada “dos Santos” pelo mundo de lá de fora, e
nunca ninguém voou como ela. E Daiane não é alguém
da Transilvânia: Daiane nasceu no Sul do Brasil, no
Estado do Rio Grande, terra de heróis inesquecíveis,
e quem um dia poderá esquecer Daiane? Ela não só
voa: ela pensa, e os seus minguados 45 quilos que a
transformam em beija-flor são densos não só de
beleza, mas de consciência social, de consciência
política. Menina da terra onde um dia viveu o
Negrinho do Pastoreio, ela sabe bem dos problemas
étnicos: sua sobrinhazinha de quatro anos é chamada
de feia na escolinha, porque é negra como ela, e
Daiane é muito consciente de tudo – sabe, com todas
as letras, que as criancinhas de quatro anos ainda
não sabem discriminar, que há gente grande ensinando
os pequeninos, e ela sabe ter pena pela maldade que
se reproduz.
O
Rio Grande do Sul é terra de resistências: tem um
passado repleto de heróis, e Daiane é como eles –
ela nos faz lembrar de Sepé Tiaraju, que defendeu as
reduções jesuíticas até se tornar lenda, índio a
lutar pela terra com um crescente lunar na testa a
brilhar como o sol. Daiane não se limita a brilhar
através de um crescente – ela é como um passarinho
de luz, a tornar linda a etnia que talvez se
sentisse feia, como uma incorporação de Steve Biko
no Terceiro Milênio. E ela voa.
E
amanhã Daiane vai voar. Será seu primeiro vôo na
Olimpíada de Atenas, e fico aqui a pensar como
escreveria sobre ela aquele branco de Cruz Alta que
levou o Rio Grande do Sul para o mundo: que diria
Érico Veríssimo sobre o passarinho que é Daiane, a
voar e a competir junto aos deuses do Olimpo?
Ninguém entendeu das gentes gaúchas como aquele
branco de Cruz Alta – por que teve ele que partir
tão cedo sem conhecer Daiane para poder escrever
sobre ela? Como ele não está, tento eu escrever
alguma coisa – mas como se escrever sobre a
personificação da beleza, da leveza e da magia,
quando uma menina como Daiane dos Santos resolve
virar gaivota e já não obedece às leis da natureza?
Ah! Querido Mestre, como me sinto incapaz de contar
o que vejo, o que meu coração sente! Daiane voa como
nunca ninguém voou – não tem as penas de Ícaro, não
tem o 14 BIS, não tem que voar para fugir de
Drácula. Ela é como um certo Fernão que o mundo
conhece há poucas décadas, um Fernão que poderia ser
pássaro bobo a arrastar as penas nas areias da
praia, mas que se negou à natureza e acabou voando
tão alto quanto nunca nenhuma gaivota jamais voara.
Eu diria que Daiane é irmã-gêmea do tal Fernão. Que
ela não é dos Santos. Que ela é Daiane Capelo
Gaivota.
E
amanhã ela vai voar. Das suas eternidades, galerias
de heróis vão estar a aplaudi-la, tão linda, tão
leve, tão densa! E eu, aqui na minha humildade, vou
chorar de emoção porque uma pequena brasileira teve
a coragem da perfeição e saiu voando. Não acredito
que ela possa ter algum azar e quebrar alguma asa,
mas a gente nunca sabe. Então, para o caso do
não-esperado, Daiane, eu já lhe digo: não importa o
que vai acontecer até o final da Olimpíada! Importa
é que amanhã você vai voar como nunca ninguém voou,
e as suas asas baterão dentro do meu coração como se
fossem asas de colibri. Porque ver você voar,
Daiane, é como descobrir o Amor. E não bastam os
olhos para vê-la de verdade – a gente só acredita
que uma Daiane dos Santos existe mesmo se olhar para
ela com todo o poder do coração.
Urda Alice Klueger
Escritora
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