AS CORRECAS DA
MINHA VIDA
O inverno
em que eu tinha três anos foi um inverno encantado
pelas correcas. Eu morava numa casa que tinha sótão,
e naquele inverno, um casal de correcas fez seu
ninho e teve filhotes no beiral do telhado do sótão
da minha casa, e aquilo foi a coisa mais fascinante
que eu já tinha vivido. Minha irmã Mariana, que já
estava com dez anos e era mais alta, espiava as
correcas, mas claro que não me queria mexendo lá:
uma criança de três anos tem as mãos desajeitadas –
se ela me permitisse mexer nas correquinhas, de
certo que elas não teriam sobrevivido. Dizia-me,
então, que se eu tocasse nas correcas, elas
morreriam, e eu me conformava em não vê-las, mas
como elas mexiam com o meu coração!
Aquele
foi um inverno de muitos dias de chuva, e nos dias
de chuva não dá para brincar no jardim. Minha mãe,
então, permitia-me brincar no sótão, mesmo com o
medo que tinha de que eu caísse da escada, e como
eram maravilhosos aqueles dias de chuva! Eu me
deixava ficar à janela, ouvindo, acima e perto de
mim, o pio das correquinhas novas no seu ninho, e
vendo o ir e vir incessante dos pais delas pela
chuva, a buscar o alimento com que elas sobreviviam.
Podia ficar horas espiando o ir e vir das correcas
adultas que acertavam sempre, direitinho, o cantinho
do telhado onde estavam os seus bebês, e ouvi-los
todos a piar de alegria quando estavam juntos. Eram
momentos de magia, como estavam cheios de magia os
dias de chuva, com o seu plúmbeo e misterioso céu
que se desfazia em água. Um grande assombro de tanto
mistério e beleza tomava conta de mim, então, e mais
que nunca eu desejava ver as correquinhas que me
assombravam com o milagre das suas vidas.
Aqueles
momentos do inverno de 1955 foram tão fortes para
mim, que mais tarde fiz um personagem de um dos meus
livros revivê-los: está no livro “Cruzeiros do Sul”,
e, lá por volta de 1750, meu personagem Maneca
revive o meu encanto com as correcas da minha
infância.
Bem, no
último final de semana, houve em Blumenau a “Feira
da Amizade”. Para quem não é daqui, explico: a Feira
da Amizade é um grande evento das entidades
assistenciais da cidade, que se reúnem nos pavilhões
da PROEB, e tudo fazem para angariar fundos para as
suas entidades. Fica mais fácil ainda se eu disser
que os pavilhões da PROEB são os mesmos da
Oktoberfest. Eu trabalhei lá, numa barraca, e num
momento de folga saí a dar uma volta pela feira, a
ver o artesanato e outras coisas que estavam à
venda. Acompanhava-me o meu amigo Almir.
Abundavam
o bordado, o crochê, e todas essas coisas que as
mulheres de Blumenau fazem tão bem, apesar de não o
fazerem tão elegante e finamente quanto o fazem as
mulheres do Ceará. Andamos e vimos tudo o que havia,
e de repente achei a coisa mais bonita da feira:
casinhas de passarinho, maravilhosas casinhas de
passarinho feitas de casca de árvore! Eu já tinha
visto, em Olinda-PE, usarem casca de árvore para
esculpirem minúsculas ruas inteiras de casario
colonial, e tinha me encantado com a idéia dos
pernambucanos, mas nunca tinha visto usarem cascas
de árvore para artesanato no Sul do Brasil. Eram
maravilhosas as casinhas de passarinho, e ficou bem
evidente a minha empolgação por elas. Voltei, então,
ao meu posto na minha barraca, e meia hora depois me
surpreendo: meu amigo Almir havia comprado uma das
casinhas, e estava me dando de presente! É claro que
fiquei superfeliz, e passei a imaginá-la na minha
sala, num canto perto de um quadro de Tadeu
Bittencourt, tendo no seu poleiro um passarinho
feito por Conning Baumgarten, artista de São
Francisco do Sul especializado em fazer passarinhos,
quando outra amiga me abre novas perspectivas: seu
pendurasse a casinha na minha varanda, talvez alguma
correca viesse fazer ninho nela!
Que
enxurrada de lembrança aquela observação me trouxe!
De repente, estavam de volta as correcas da minha
infância e toda a sua magia, e a perspectiva de que
elas pudessem voltar me encheu de alegria!
Vou pendurar a casinha de passarinho na minha
varanda, e vou colocar alpiste nela para servir de
chamariz, e talvez alguma correca me escolha.
Não pude
ver as correquinhas da minha infância, mas como irei
curtir as que vierem na minha vida adulta, quando já
estou com um pé na velhice! Estou sonhando um monte
com elas, e tudo graças a Almir, que me deu a
casinha de passarinho!
Obrigada, meu amigo!
Blumenau,
07 de julho de 1996.
Urda
Alice Klueger
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