TRAVO DE
AMARGOR
Agora faz pouco mais de 13 meses desde que Atahualpa
e eu viemos morar neste pequeno paraíso. Algumas
coisas mudaram, desde então: nossa casinha, que era
verde, foi pintada de branco e rosa; coloquei
algumas grades e portões; plantei um minúsculo
jardim com as plantas das quais o meu cachorro
gosta, e que cresceu tão bem que já é tempo de
reformá-lo. Além da flora, criou-se aqui uma fauna
inesperada e que me enche de orgulho: são 11 as
crianças que brincam, atualmente, na minha varanda,
embora duas delas comecem a passar pelas mudanças de
hormônios da préadolescência e já não brinquem
tanto. Atahualpa ama cada uma daquelas crianças, e
quando elas resolvem brincar de pet-shop, ele se
deleita dentre elas, sendo penteado e acarinhado, e
brincando de correr atrás dos seus bichos de
pelúcia.
Quando elas se forem, aquelas crianças que abandonam
as bonecas para começar a pensar em namorados,
haverá por aqui a Aline, da casa da frente, uma
menina que está perto de dois anos e que fala com
sotaque baiano, a maior graça, e as outras SEIS!!! –
que nasceram num espaço de apenas cinco meses nestas
duas ruazinhas de dez casinhas de cada lado! Todas
são meninas e há um parzinho de gêmeas – logo a
Marcela, a mais velhinha de todas, chegará ao
primeiro aniversário, e eu me lembro que ela nasceu
a 30.11 – como agora já e setembro, penso que em
mais duas primaveras essas menininhas todas, decerto
capitaneadas pela Aline, estarão correndo pelas
ruazinhas acima e abaixo, e virão brincar no
parquinho que é do lado da minha casa, e decerto
também na minha varada!
São tempos idílicos da minha vida, tempos tão bons
que não queria que terminassem nunca, embora saiba
que tenho um limite para viver aqui: em algo como
vinte anos terei que sair daqui, ou tangida pela
Louca da Foice, ou para envelhecer com serenidade em
uma casa de repouso.
Por ora, no entanto, não quereria que nada se
alterasse muito, a não ser que o ciclo da vida
continuasse acontecendo, como este de meninas que
chegam e que se vão, tão linda é a harmonia deste
lugar, tão linda é a paisagem, tão inebriante o olor
de vida das tantas plantas que se esforçam na
reprodução, nestas dias de ânsia de primavera,
quando minha casinha e toda a região ficam plenas de
cheiro de flor.
O sinal dos tempos acaba de aparecer aqui pertinho,
no entanto. É onde havia um terreno baldio, uma
pequenina fábrica abandonada e a casinha de um
homem. Doutos engenheiros entenderam o valor deste
lugar único, e decidiram que era tempo de construir
dois grandes edifícios, muito perto daqui.
- É para gente de classe média alta –
confidenciou-me uma vizinha bem informada, impando
de orgulho. Céus, se ela soubesse quantas baixarias
acontecem na classe média alta, como em qualquer
outra – já vivi em ambientes de tal fauna, sei bem
as humilhações que se pode sofrer nas unhas da tal
classe média alta, principalmente quando se valoriza
pouco coisas como unhas bem pintadas, por exemplo.
Mas o que me incomoda mais, neste momento, não é
isto. O que me incomoda serão as torres subindo na
paisagem, cortando a beleza distante dos nossos
morros e o nosso vale com as noites cheias de
perfume, e as coisa estão acontecendo com uma
rapidez impressionante. Há uma semana atrás tudo
ainda estava como era – de um dia para o outro veio
um trator e arrasou com tudo: o terreno baldio, a
pequena fábrica abandonada, a casinha do homem – um
impressionante e grande homogêneo terreno vazio
nasceu em apenas um dia, e agora fazem uma cerca.
Antes que a cerca seja concluída, tenho andado por
lá com Atahualpa, e é então que o meu coração dói
mais que tudo: no lugar onde havia a casinha do
homem, ficaram dois cachorros. Eu própria não sei
mais dizer exatamente onde era a casinha, mas os
cachorros sabem exatamente o lugar do seu antigo
lar, e lá estão cuidando dele. Passamos lá, eu e
Atahualpa, e eles vêem e nos farejam, e depois
voltam para um lar que agora é apenas imaginário, e
de lá não arredam pé. Meu coração fica partido
quando os vejo ali, naquele lugar sem mais nenhuma
esperança. Onde comem, onde bebem? Há um poluído
ribeiro próximo, será que...? Mas quanto resistirão?
Até vir a próxima chuva, ou o próximo trator?
O amor e a fidelidade nos seus pequenos corações
caninos têm seus dias contados. Onde está aquele
dono que não os levou junto? Não sabia que ali já
não haveria futuro para eles além da chuva e das
pedradas? Por que não considerou aquela fidelidade
de toda a sua vida?
É duro, é triste. Este perfume de primavera, neste
ano, está com o maior travo de amargor.
Blumenau, 05 de setembro de 2010.
Urda Alice Klueger
Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia
pela UFPR.
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