O OLVIDO DO
COLORIDO DO NATAL
Sei que foi no ano passado, primeiro semestre – não dá
para me enganar porque foi quando meu cachorrinho ainda
era um filhote, eu tinha que viajar e deixei-o, horas
antes, num hotelzinho de cachorros, que o perdeu antes
que eu tomasse o rumo da estrada. Foi uma coisa
horrível: o coração me disse na hora que algo estava
ocorrendo, e o hotelzinho deixou até de atender o meu
telefone, e sequer se preocupou com o sumiço do meu
bichinho. Fui eu quem descobriu a falta dele, e quem o
procurou ruas afora, gritando seu nome enquanto chorava
inconsolavelmente, e se o descobri de novo, foi graças a
uns pequenos seres maravilhosos chamados crianças, que
me orientaram na procura daquele cachorrinho preto que
todas elas tinham visto passar pelas ruas onde moravam.
Eu teria que viajar de manhã bem cedo e estava
desesperada, sem saber o que fazer com meu cachorrinho,
até que meu primo Germano Gieland me disse ao telefone:
- Eu cuido dele. Pode trazê-lo para cá.
Foi o fim da estada de Atahualpa em hoteizinhos, e o
começo de uma nova família para ele, família da qual ele
gosta tanto que penso que às vezes gosta até mais do que
gosta de mim, tanto se afeiçoou ao Mário Henrique, à
Hana, à Bruna, à Rosiani, ao cachorro Capitão...
Mas não era isto o que eu ia contar. Queria falar era
daquela viagem que começara tão conturbada. Eu ia até o
sul do Estado, a uma cidade chamada Forquilhinha, onde
havia um delicioso colégio de freiras chamado Colégio
Sagrada Família, onde até dormi, e onde cheguei a
conhecer uma freira que, indubitavelmente, passara pela
graça de um milagre. Só que fui para a estrada longa
muito triste, tão abalada ficara com a quase perda do
meu bichinho, e já andara, creio, uns 300 km quando
parei para almoçar num lugar que vendia muitas coisas
lindas. Fiquei pensando que talvez faria bem ao meu
coração comprar algumas coisas daquelas, e pensei que
haveria o primeiro Natal com o meu cachorro, e comprei
algumas coisas muito coloridas, que agora estão
empilhadas aqui do meu lado: três jogos de toalhas de
banho que até parecem voar na lindeza das suas cores, e
um edredom vermelho e amarelo, com frisos e listrinhas,
todo macio e fofo – coisas para esperar para usar na
época de Natal.
E então veio novembro de 2008 e a Tragédia das Águas,
que tirou tudo dos eixos na minha vida e na de tantos,
sem contar os tantos que perderam a própria vida, e fugi
de casa como já contei em tantos outros textos, e ainda
vivo a amargura que o poder público faz a tantos que
ficaram sem eira, sem beira, depois que suas casas e
terrenos sumiram em segundos, e ainda me pergunto, como
tantos se perguntam, onde ficou o dinheiro das tantas
doações e o que veio do governo federal para resolver os
problemas desta minha cidade quase devastada, onde se
maquia violentamente a área central, para que o turista
não veja, não saiba da verdade...
Faz um ano, agora, que aconteceu a grande Tragédia.
Estamos de novo em novembro, e faz pouco mais de três
meses que vim morar nesta casinha livre de barrancos e
de ribeirões, onde meu cachorro tem até direito a um
jardinzinho. Foi na mudança... sim, foi na mudança que
encontrei aqueles jogos de toalhas e o edredom colorido,
coisas das quais esquecera completamente diante das
amarguras que viraram nosso mundo de cabeça para baixo
no ano passado, um ano onde sequer as cigarras cantaram,
um ano onde só houve o Natal falsificado que se fez para
o turista ver.
Coincide com este final de semana que estou vivendo o
aniversário daquela Tragédia que mudou tanto as nossas
vidas, e então fui buscar no armário as coisas coloridas
que comprei para o Natal passado, e estou aqui a
olhá-las. Eram coisas para o Natal, e se alguém que
gosta do Natal como eu esqueceu inteiramente da
existência delas, então é porque estava muito mais
ferida e angustiada do que pensava.
Faz uma semana, fui visitar um dos “abrigos provisórios”
onde os trabalhadores desta cidade estão alojados em
condições inumanas, e então, no outro dia, chorei muito,
muito, de dores engolidas, sufocadas, pois era
necessário fazer a vida continuar, e há um ano atrás
viver era tão difícil que até as belas coisas compradas
para o Natal eu olvidei totalmente, apaguei da minha
mente.
Há que se ser muito insensível para se esquecer do que
aconteceu faz um ano.
Blumenau, 22 de novembro de 2009.
Urda Alice Klueger
Escritora
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