O NATAL DEPOIS DO
NATAL QUE NÃO HOUVE
Faz um ano, agora. Foi o ano em que não houve Natal, a
não ser aquele maquiado, para o turista ver. Assustada
com tudo o que acontecera, eu estava vivendo em poucos
metros quadrados, no depósito de livros de uma editora,
sem fogão, sem geladeira, sem chuveiro... SEM JANELA!
Sentia-me uma privilegiada, no entanto, pela privacidade
que tinha, pelos banhos de balde, pelo ventilador, por
ter dinheiro para o restaurante e a padaria, pelo acesso
em tempo integral a um computador e à Internet, depois
que ela voltou a funcionar. Quando me cansava de
trabalhar ao computador, esticava um colchonete de
camping dentre as caixas de livros e dormia, sob os
cuidados do meu cachorro, que nem adulto ainda não era.
Era bem diferente a situação das pessoas que estavam no
abrigo público mais próximo, no entanto. Além de todos
os desconfortos da falta de privacidade, havia as
lembranças e a grande falta de perspectivas. Suas casas
tinham explodido em um segundo, conforme me contou o
artista plástico Tadeu Bittencourt que acontecera com a
casa dele e conforme eu própria vira explodir as casas
dianteiras do lugar onde morava – e as casas escorreram
morros abaixo junto com os morros derretidos, e assim
como as casas, sumiram também os terrenos, e já não
havia para onde voltar.
Naquele angustiante tempo de Natal, eu costumava tirar
um tempinho para ir lá no abrigo fazer companhia àquela
gente – não havia muito o que fazer, mas eu sentava lá e
eles me contavam das suas vidas, e acho que isto era o
melhor que eu conseguia fazer. Lembro muito de um senhor
já idoso chamado seu Jacinto, que me contava de como
trabalhara a vida inteira, de como criara os quatro
filhos, de como fizera a casa dos seus sonhos, de como
comprara redes espreguiçadeiras para a larga varanda de
54 metros quadrados onde recebia os filhos nos dias de
festa, e de como ele e a mulher se deitavam nas redes,
na hora do por do sol, e ficavam olhando a paisagem e se
certificando da sua felicidade...
Tudo aquilo sumira num segundo, e seu Jacinto era apenas
um entre tantos, entre tantos, naquele abrigo e em
tantos outros... Sou pródiga em primos, amigos,
afilhados – poderia ter passado a noite de Natal em
diversos lugares, mas achei que naquele ano, o ano
passado, deveria estar com aquela gente naquele momento
mágico que marca o meu ano. Foi bom. A cientista social
Luzia e um lindo soldado de 18 anos se desdobraram na
cozinha e usaram das muitas doações que a generosidade
de todo o país mandara para a nossa cidade para fazerem
uma ceia condigna, com quatro grandes perus recheados e
mesa decorada com folhas das árvores circundantes. Eu
fiquei ali ouvindo as histórias daquela gente até a
madrugada, e o Natal se foi.
Faz um ano, agora. Choveu dinheiro de todos os lados
para resolver a situação de toda aquela gente que estava
desabrigada faz um ano. Veio dinheiro de doações (tenho
os números das contas bancárias das quais nunca ninguém
jamais viu um extratozinho que fosse) e tenho cópias dos
documentos de repasses de verbas milionárias que o
Governo Federal fez para o governo do Estado de Santa
Catarina – sempre há aqueles espíritos de porco que
dizem que o governo do Estado não distribuiu o dinheiro,
mas então, como é que os demais municípios atingidos
pela catástrofe estão fazendo as obras e as casas
necessárias? Sei que choveu dinheiro, mas os
desabrigados de Blumenau, um ano depois, continuam nos
tais abrigos provisórios. Indagorinha estive num deles
para fazer uma visitinha ao seu Jacinto e sua mulher, e
vi bem como é: a prefeitura alugou grandes galpões
(claro, houve também o escândalo dos galpões
superfaturados – não é exagero meu, saiu em todos os
jornais, inclusive os da situação), e lá se vive, eu
diria, mais que precariamente. Vou tentar contar um
pouquinho:
O galpão onde fui é alto, com teto de zinco. Imaginem o
calor que fica sob aquele zinco nos 40 graus que faz
nesta cidade – forno puro! Sob aquele zinco, tabiques de
madeira à meia altura dividem famílias em cubículos,
onde elas se amontoam, cada um ouvindo tudo o que se
passa por detrás de todos os tabiques, enquanto aquele
dinheirão todo... cadê o dinheiro da reconstrução?
Seu Jacinto me falou dos três containers que servem de
banheiro para aquela gente toda – quantas pessoas? 150?
200? Disseram-me que há abrigo com mais de 450
pessoas...
E então há a cozinha coletiva. As pessoas se
organizaram, cada família ficou com duas bocas de fogão,
e toda aquela gente cozinha e frita, frita bife, frita
batata, frita banana... Todos os odores daquelas
frituras todas viajam pelo oco entre os tabiques de
madeira e o teto de zinco, e há um onipresente cheiro de
fritura impregnando tudo, e tudo cheira a gordura
rançosa, e a gente faz de conta que aquilo não está
acontecendo, que se está mesmo na casa do seu Jacinto, e
era assim que eu estava lá quando caiu uma chuvarada, e
o barulho no zinco era tão grande que se tornava
impossível continuar a conversar.
É assim que está sendo o Natal de um ano depois do Natal
que não houve. Tive a sorte de vir morar numa casinha
que tem até cheiro de flor, onde crianças vem brincar na
minha varanda e há até estrelinhas luminosas do lado de
fora da janela. E os que não tiveram sorte, como vai
ser? Estão lá, assando sob o zinco, tomando banho em
containers, sem privacidade, impregnados de cheiro de
fritura... As pessoas já pouco lembram deles...
Quando se fará justiça nesta minha terra?
Blumenau, 22 de dezembro de 2009.
Urda Alice Klueger
Escritora
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