HENRIQUE
JANNING, MEU PADRINHO
Ele
devia gostar muito de mim. Eu fui conseqüência de
uma relação familiar que já parecia antiga, embora
tivesse, creio, pouco mais de uma década.
Era plena
Segunda Guerra Mundial quando minha mãe, com 17
anos, chegou a Blumenau e foi ocupar uma vaga na
então Empresa Industrial Garcia e morar na casa do
irmão dela, o tio Arnoldo, que eu vi uma única vez
na vida, mas do qual guardo a lembrança de um homem
moreno e bonito, verdadeiro moçárabe, daqueles lusos
do qual nos fala Gilberto Freire.
Há uma foto dele a atestar que minha impressão lá da
primeira infância não estava equivocada. Agora que
minha mãe já partiu, fico pensando que deveria ter
perguntado mais, saber hoje mais detalhes do que
aconteceu naqueles anos até 1944, quando ela e meu
pai se casaram. Sei que por algum tempo ela também
“pagou bóia”
na casa da D. Madalena Hort, e que, antes de casar,
pagava bóia na casa do jovem casal Janning, Henrique
e Emília, que já tinha a filhinha Norma.
Tanto quanto me consta, minha mãe saiu da casa dos
Janning para casar – Emília era nascida Bacca,
família longeva de muitos filhos, e aquela moçada
era amiga dos jovens meus futuros pais, que mais
tarde, ao longo da minha infância, sempre estavam
contando esta ou aquela história divertida vivida em
companhia dos Bacca.
Então, aquela amizade com os Janning e com os Bacca
começou mais ou menos uma década antes de eu nascer
– quando nasci, em 1952, Henique e Emília Janning
foram meus padrinhos.
Que
ela gostava de mim está fora de dúvida – convivi com
ela pela vida afora por mais de meio século. Quem
partiu cedo foi ele, mas quantas lembranças! De
outras, claro, não há como me lembrar: como teria
sido aquele dia que deve ter sido festivo, quando me
levaram à pia batismal e ele apresentou a meus pais
a caderneta de poupança que havia aberto para mim no
Banco INCO, extinto há décadas, encampado por um dos
grandes tubarões do mundo bancário brasileiro?
Fizeram churrasco? Assaram galinha? Houve
Reicekaesel, macarrão ou maionese, os quitutes
daqueles tempos em que eu era criança? Sei é que
aquela caderneta de poupança era algo luminoso na
minha infância – eu desconhecia qualquer outra
criança que tivesse uma, e meus pais estavam sempre
falando nela, no grande presente que eu ganhara,
reserva certa para eu ir ao banco retirar quando
completasse 18 anos.
Quando eu fiz 18 anos nem o banco existia mais e um
monstro chamado Inflação há muito comera aquela
caderneta...
Mas
havia outras coisas que tinham vindo do meu padrinho
e que iluminavam a minha infância: um baldinho com
tampa, pintado de azul e com muitos desenhinhos, que
um dia viera cheio de balas coloridas e
translúcidas. E um ovo de Páscoa de madeira, com
duas metades que se encaixavam perfeitamente. Era um
ovo grande e oco, que podia ser enchido de
guloseimas a cada Páscoa de novo... Eram coisas
únicas, tesouros inestimáveis, que minha mãe
guardava no armário de vidro da sala, aquele que um
dia tinha sido da minha avó lituana, e que hoje está
no meu escritório.
E
havia as visitas. Lembro o quanto era xucra nesse
começo da minha vida, de como temia que os outros
percebessem as minhas emoções e os meus sentimentos.
Então, quando sabia que os meus padrinhos vinham de
visita, escondia-me, evitava olhar para eles, tanta
era a expansão afogante que acontecia no meu coração
diante de tamanha emoção. Assim era em Blumenau;
assim era em Camboriú, no tempo em que a gente
morava lá na boca da Lagoa. Lá em Camboriu,
inclusive, houve um dia que passou sem que eu
entendesse como, tanto me escondi por vergonha da
minha emoção com a presença do meu padrinho. Quando
começou a anoitecer eu temi como decerto se temia
nos tempos bíblicos diante dos mistérios da
natureza, pois, nas minhas contas, estava-se no
começo do dia, e não no fim. Só saí do meu
esconderijo de debaixo da casa quando me garantiram
que não era um mistério que estava acontecendo, mas
apenas um anoitecer normal, e que meu padrinho já
fora embora. Da ocasião, restou-me um bocado de
bichos-de-pé adquiridos no esconderijo da minha
emoção.
Padrinho, naquela altura, era dindinho, mas poucas
vezes usei dindinho ou dindinha para aquela dupla
que me queria bem, mesmo depois que cresci mais e
deixei de ser tão xucra. Eu os chamava de Henrique e
Emília, e até hoje fica difícil, para mim, pensar
neles com outra denominação.
Então, quando já era uma mocinha, minha mãe me disse
que meu dindinho Henrique estava doente, e eu fui
vê-lo. Teria, penso, uns 15 anos, e fui à sua casa
na rua Mariana Bronnemann, em Blumenau.
Ele
estava alquebrado e muito magro – guardava um leito
de alvos lençóis, mas me recebeu com toda a efusão
de que era capaz, e lembro dos seus olhos que eram
como poços de ternura. Nessa altura, ao invés de
xucra, eu estava muito adolescente, sem a maturidade
suficiente para ter aproveitado aquele momento.
Fiquei algum tempo lá, sem graça, sem saber como
agir, enquanto ele me fazia perguntas pejadas
daquela ternura que via nos seus olhos cheios de
febre.
Não
o vi nunca mais. Minha mãe me avisou outras vezes de
que ele estava doente, mas eu andava preocupada
demais amando aos Beatles e aos Rolling Stones para
pensar muito no meu padrinho, e quando soube, ele já
tinha morrido.
Guardo dele essas coisas, os olhos cheios de
ternura, o baldinho azul, o ovo de Páscoa de
madeira, a famosa caderneta de poupança do Banco
INCO, os bichos de pé que peguei naquela vez em que
me escondi tanto. Queria ter uma foto dele para ter
certeza se ele era como eu me lembro.
Agora é muito tarde para tudo. Ele amou uma pequena
menina que batizou lá no pós-guerra a ponto de ter
para ela aqueles olhos cheios de ternura dos quais
me lembro – a menina envelheceu recordando como
tanto temia que alguém visse a emoção dentro do seu
coração a ponto de se esconder do seu padrinho – os
caminhos dos dois estiveram por muito pouco tempo
próximos um do outro, mas como dói, agora.
Choro, Henrique Janning, meu padrinho. Pelo que foi
possível, mas mais pelo que não foi.
Blumenau, 30 de agosto de 2010.
Urda
Alice Klueger
Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia
pela UFPR
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