GLAUCO RODRIGUES
CORRÊA
Quando conheci Glauco Rodrigues Corrêa? Num congresso de
escritores em Blumenau? Na Editora Lunardelli? Em algum
lançamento de livro? Não sei mais dizer; não me lembro.
Sei é que, de repente, conhecia o Glauco, aquele Glauco
cheio de vívida alegria, uma alegria tão contagiante que
o tornava totalmente encantador. Aqui e ali encontrando
o Glauco, sempre com aqueles trejeitos de quem é alegre,
seu jeito engraçado de sacudir os ombros e dar opiniões,
um certo tique nervoso no jeito de piscar, um amor de
criatura! Uma vez, passamos uma tarde inteira juntos.
Foi numa feira do livro, em Florianópolis, montada em
frente à Catedral, num mês de novembro. Ventava o mais
legítimo vento sul, tornando gelada a tarde que deveria
ser quente, e todos tremíamos dentro dos agasalhos.
Pelas três horas haveria um debate entre escritores e
alunos no Teatro Álvaro de Carvalho, e para lá se
dirigiram os escritores em magote, prontos a conversar
com a moçada que enfrentava o vento sul para nos curtir.
No teatro, elegantíssima senhora de vestido brilhante e
laquê brilhante nos cabelos arrumados, também
comparecera na condição de escritora. Não a conhecíamos.
Perguntamos o que escrevia, e ela nos disse, muito de
cima de um pedestal, que preparava um livro de sonetos.
Lembro do olhar malicioso do Glauco cruzando-se com o
meu, diante dos sonetos e da visível arrogância da
senhora elegante. Lá se vão anos, e ainda não sei quem
era aquela senhora. Sei é que nos divertimos muito às
custas dela. Subimos ao palco com a boa intenção de
realmente conversarmos e debatermos com os alunos e lá
estavam Silveira de Souza, Flávio José Cardoso, Alcides
Buss e outros tantos de quem agora não lembro,
escritores que teriam muito o que dizer aos alunos
transidos de frio, mas a senhora elegante não deixou
ninguém falar: apossou-se do microfone e fez uma
palestra chata e insípida, que fazia com que os alunos
(e os escritores) bocejassem. Olhares significativos
eram trocados entre os escritores calados, e eu me
continha para não rir diante dos olhares cáusticos do
Glauco.
Ao final da palestra, caímos todos fora o mais rápido
possível, alunos e escritores, a discutir quem seria
aquela senhora que tornara tão chata a tarde. Havia uma
decepção geral diante do que não acontecera. Voltamos
para a praça, para a feira do livro. Lá, também estava
instalada uma barraca onde se vendia cachaça. Havia
incontáveis vidros contendo as mais diferentes cachaças,
desde cachaça com cobra até cachaça com rosas, passando
pelo butiá, jabuticaba, todas essas iguarias que a
criatividade do brasileiro elaborou. Cada vidro tinha um
número e, se bem me lembro, as cachaças eram numeradas
de 1 a 80. O vento e o frio, além de haverem espantado
as pessoas da feira do livro, pediam que a gente
aquecesse a alma com algo mais forte, e não tivemos
nenhuma dúvida quando paramos na barraca das cachaças.
Começamos a prová-las pela sequência em que estavam
numeradas, um tiquinho só de cada, e paramos bem antes
do número 80, mas quanto nos divertimos! Estávamos todos
mais ou menos injuriados pelo fracasso no debate com os
alunos, e Glauco não escondia nem um pouco o seu estado
de espírito. Acho que não devo reproduzir aqui os
comentários engraçadíssimos e contundentes que ele fez a
respeito da elegante senhora que nos roubou a tarde, mas
posso garantir que eles foram ferinos, e tão bem
humorados, que nos colocavam todos a rir. Glauco acabou
se transformando na estrela da tarde, e o rodeávamos
expandindo as almas nas risadas que o seu bom humor
provocava, e ele era como um sol a iluminar e a aquecer
aquela tarde de novembro e vento sul.
Depois daquele dia, tornei-me irrestrita admiradora do
Glauco tendo, só depois disso, acesso aos seus livros.
Ah! Glauco, quanta inteligência, quanto primor nas
tramas, quanta sutileza criadora no que você escrevia!
Na sua modéstia Glauco era uma dessas pessoas que tinha
nascido para ser grande, para brilhar, e só eu sei o
quanto me doeu saber que, de uma forma tão repentina, a
sua trajetória foi cortada pela morte, assim, em pleno
viço dos anos, no raiar da idade mais profícua da vida!
Eu acredito que, de alguma forma, a gente continua do
lado de lá, depois que esse corpo aqui deixa de viver, e
que, se Glauco se foi para nós, em alguma outra dimensão
ele continua brilhando e expandindo o seu bom humor
crítico e ferino, e é para essa outra dimensão que eu
tento olhar agora, quando não lhe digo adeus. Acredito
que algum dia todos nós iremos nos reencontrar nessa
outra dimensão, e é por isso que só lhe digo: até mais,
Glauco! A gente se vê!
(Texto lido na Academia Catarinense de Letras, quando da
Sessão de Saudade pela morte do escritor Glauco
Rodrigues Correa, no dia 25 de março de 1993)
Urda Alice Klueger
Escritora
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