CARNE SECA ASSADA
NA BRASA
(Para Minervina Klueger, minha mãe)
Há pouco, andando sob a chuva com a minha sombrinha
nova, de xadrez azul e branco, eu senti como que um
frêmito, e sussurrei para o meu cachorro, pois se a
gente falar alto, numa hora destas, uma pessoa adulta
pode ver e achar que enlouquecemos:
- Sabes? Era bem assim quando eu era criança: chovia!
Então pensei mais um pouco e lembrei que também fazia
sol, lá na minha primeira infância. Claro que nunca
choveu sempre, mas o que eu estava sentindo era a
revivência, dentro de mim, das lembranças mais remotas
da minha vida, que eram dias de chuva na nossa casinha
pintada de amarelo-creme, lá na Rua Antônio Zendron, no
bairro Garcia, em Blumenau, no mesmo lugar onde hoje se
situa a bela casa da minha prima Herta Klueger Klock.
Uma ou outra vez eu já falei de pedaços dessas
lembranças, mas agora vou contar como elas me sacudiram
hoje junto com aquele frêmito.
Sei hoje que tinha três anos e, talvez como hoje, fosse
fim de inverno ou começo de primavera. Na nossa cozinha
havia um fogão de tijolos com fogo à lenha, e no vão sob
ele dois gatos se aqueciam do frio que vinha do grande
mundo lá de fora: um era cinza e não lembro seu nome; o
outro tinha uma cor laranja e se chamava Mimi, e ambos
olhavam para mim, se eu me aproximava demais, e faziam
assim:
- Fisssss – me avisando de que não eram amistosos,
embora fossem, com a maior docilidade, para o colo da
minha mãe. E ela me avisava pra que não me aproximasse
deles, pois poderiam me arranhar, mas sempre achei,
depois que cresci, que ela estava apenas querendo
garantir a minha integridade física, pois sempre me dei
tão bem com os animaizinhos!
Ficava ali, portanto, olhando para a vivacidade daquele
fogo cujo calor eu compartilhava com aqueles gatos, e lá
fora chovia, chovia tristemente, parecia que
interminavelmente, e as lembranças mais remotas que
tenho são quase sempre ligadas a dias de chuva. Lembro
com muita clareza de como era bom o calor daquele fogo,
e de como ficava fascinada com o balé das chamas nas
achas de lenha seca, de como aquelas línguas
avermelhadas, às vezes amarelas e até azuis, lambiam a
lenha e revoluteavam no seu espaço no fogão, e de como
poderia ficar ali para sempre, espiando sua dança
incansável, que consumia a madeira com estalidos
aconchegantes, e de como era fascinante, também, ver
aquela lenha se transformar em brasas!
Minha mãe estava à espera das brasas, pois havia uma
iguaria que ela amava sobretudo, embora, naquele tempo,
tal iguaria não me agradasse: a carne seca assada na
brasa com pirão branco! Mas embora eu então não gostasse
daquele sabor (preferia as cocadas e os sonhos, sempre!
E as tortas de nata com ameixa-preta que a minha prima
Sofia Klueger fazia!), era fascinante ficar ali vendo a
inusitada atividade de minha mãe: ela espetava um naco
de carne seca numa varinha que decerto cortara no
quintal e ficava a segurar a carne sobre as brasas,
virando-a e revirando-a até dizer que estava boa, pois
eu ainda era pequena demais para entender dessa coisa de
assamentos.
Com a água que fervia na grande chaleira de ferro, em
seguida, ela fazia um pirãozinho d’água num prato,
colocava a carne em cima, e então suspirava de
felicidade! Antes de comer, ela sempre me perguntava se
eu queria também, mas eu nunca queria – já disse que não
gostava daquilo. Estava acostumada a outras comidas, e
acho que a minha mãe fazia aquelas iguarias de que tanto
gostava somente em ocasiões em que estava sozinha
comigo, pois a sociedade circundante haveria de
criticá-la por aqueles hábitos alimentares que ela
trouxera da sua Nova Descoberta, terra a mais de 100 km
dali, não muito longe do mar. Penso agora que aquele,
certamente, não era um hábito alimentar que nenhum
europeu trouxera um dia para as terras do Brasil: posso
praticamente dizer com segurança que aquela carne seca
assada na brasa com pirão de farinha de mandioca tinha
suas origens nos povos originários que muuuuuito antes
dos europeus habitaram esta nossa terra. De alguma
forma, ela entrara na tradição alimentar da minha mãe,
tradição que ela cultivava extemporaneamente, quando só
havia ela, eu e os gatos na casa.
Minha mãe, nessa época, tinha 33 anos e provavelmente
estava grávida. E chovia muito naqueles dias, e tais
chuvas, hoje, são como um frêmito dentro de mim.
Blumenau, 01 de outubro de 2009.
Urda Alice Klueger
Escritora
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