ACHO QUE FOI O
ÚLTIMO FILME QUE VI...
Tempo de férias, feriados, e resolvo, numa noite destas,
tirar uma horinha para ver um filme na televisão, já que
passo o ano todo sem tirar tempo para filmes, eu que
gosto tanto deles. Então me aboletei no meu sofá para
ver a história de um homem e seu filhinho, uma tocante
história de amor de um homem por seu filhinho, um homem
que não conseguia emprego, que sofria injustiças e que
tudo fazia para dar ao seu pequeno menino uma vida com a
maior dignidade que conseguia, e estava muito difícil
conseguir alguma dignidade, na situação de penúria
sempre maior em que ambos iam deslizando, de um
apartamento para um hotel de terceira categoria, e
depois para um abrigo público, e com certas noites em
banheiros de metrô, fazendo de conta que estavam numa
caverna, salvando-se de assassinas feras...
Era tocante ver o amor daquele homem para com seu
filhinho, um homem que tinha dado sangue e suor para
conseguir um cargo de estagiário sem salário durante
seis meses, apenas com a perspectiva de dar certo e, lá
adiante, no tenebroso e mau túnel por onde ele e seu
menino deslizavam, poder, talvez, conseguir um emprego.
A temática toda do filme foi aquela do amor do pai e do
filho, o pai rasgando o coração e a alma atrás de
clientes que não lhe trariam um centavo de alívio para a
fome do seu menino (mas, com certeza, grandes lucros
para a corporação onde ele trabalhava de graça); o pai
emprestando seus últimos cinco dólares para o gordo
empresário que era seu chefe, pois ele assim o exigia,
para pagar qualquer bobagem (nunca que o gordão pagou
aquele precioso dinheirinho de volta!).
Era a luta desapiedada do Capital contra o Amor, e é
lógico que imagino que todo o mundo que estava vendo o
filme ficava torcendo pelo Amor daquele pai por seu
filhinho, para que sobrevivessem, e eu, ingênua,
pressupunha que o filme iria terminar de uma forma
grandiosa, com aquele pai se livrando das garras
maléficas e desapiedadas do Capital e achando uma nova
forma de vida, um jeito que era incapaz de imaginar,
onde ele e o menino poderiam ser felizes de verdade sem
a pressão enlouquecedora de uma corporação capitalista à
qual nada importava se havia um menino que tinha que
comer, dormir e ser amado ou não, à qual só importava
era se aquele pai traria clientes de qualidade, seis
meses trabalhando de graça... Cheguei a pensar nestas
coisas idílicas, sabem como é, que talvez fossem morar
num sitiozinho onde seriam autossuficientes e felizes
para sempre, sem nunca mais serem esmagados pelo tacão
do Capital, quem sabe numa comunidade que acreditasse em
outros valores... sei lá, imaginava tudo, menos o que
aconteceu no final do filme.
Melancolicamente, o filme terminou da mais ululante e
óbvia forma que o Capital sabe fazer para se fazer
parecer com um Mago que traz felicidade: o pai do menino
acaba ficando um executivo de alto naipe, puro sucesso,
e acabou abrindo sua própria empresa de investimentos e
ficando milionário. Só. Do menino, nem se soube mais.
Onde teria ficado o Amor, a luta daquele homem em prol
do Amor?
Capitalismo não combina com amor, e então, já que o
sujeito ficou rico, para que amar? Milhões de pessoas
viram o mesmo filme que eu, e talvez muitas milhares
ficaram acreditando que o que aconteceu o filme poderia
acontecer com elas. Tá, talvez aconteça a uma ou duas –
mas e as demais? Passarão a vida com a coluna cervical
curvada diante de patrões que os esfolarão até a
exaustão, patrões que esfolariam uma pulga para
aproveitar o sebo e o couro para colocar mais alguns
centavos numa enoooorme conta que absolutamente não
necessitaria de mais centavo nenhum nunca mais... e os
seus servos vêm o filme e creem, e creem, e ficam dóceis
e sem reação porque também um dia ficarão milionários...
É ruim demais o que Hollywood nos traz através da
televisão. É ruim demais o que entra nas nossas casas. É
ruim demais ver que o Amor é inteiramente desconsiderado
pelo Capital. É ruim demais o Capital e todas as suas
maldades.
Como dizer Feliz Ano Novo diante de uma constatação
assim?
Blumenau, 31 de Dezembro de 2009.
Urda Alice Klueger
Escritora e historiadora
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