A NAVE DOS
INOCENTES
A estrada era de barro e de pedra e de pó, mas tudo isso
desaparecia numa baixa nuvem de bruma, bem rasinha com o
chão, a ponto de a gente se esquecer de pensar se os
velhos pneus da Kombi iriam resistir aos pedregulhos
pontudos ou não – na Kombi velha, que já deveria estar
aposentada se cá não fosse o mais legítimo terceiro
mundo (e está cheinho de gente que acha que o Sul é
diferente, pitéu de primeiro mundo), um bando de
pequenos anjos como que agitavam suas tênues asas em
forma de sorrisos, e ao olhar para eles, quem é que
ainda ia pensar em coisas como pneus e pedregulhos?
Ela viajava adiante do carro aonde eu estava, a Nave dos
Inocentes, e apesar de ser mais de três horas da
madrugada e da estrada inóspita, cada pequeno anjo
daqueles sorria e abanava para nós, e a Kombi tinha as
luzes internas acesas, decerto para que nenhum anjinho
chegasse a sentir medo, e eles eram tantos, mas tantos,
que não sei como cabiam todos ali, meninos e meninas de
3, de 4, de 6 anos, talvez, anjinhos com carinhas
caboclas, com carinhas italianas, com carinhas alemãs,
verdadeiros anjinhos brasileiros flutuando na névoa
dentro daquela Nave que os levava em direção do Futuro,
e sua alegria e farra eram coisas impressionantes! No
carro onde eu viajava alguém lembrou que se tratavam de
anjinhos que raras vezes andavam de carro, que decerto
dali vinha sua alegria – e nós abanávamos e eles nos
abanavam e riam, e aquela Nave dos Inocentes era como
que uma coisa irreal a flutuar na noite, como se fosse
um sonho lindo que alguém estivesse tendo, e na verdade,
era um Sonho.
Quando eu contar qual era o Sonho, diversos leitores não
vai mais querer ler o resto da crônica, mas, vá lá: eu
seguia a Nave dos Inocentes, e nos dirigíamos todos, num
comboio que só aumentava, em direção de uma das fazendas
de terras arrasadas (há fotos para comprovar o
arrasamento das terras) que fazia parte do maior
latifúndio do meu Estado, para ocupá-lo. E, diante de
nós, como numa irrealidade, a Nave dos Inocentes
navegava em direção ao Sonho e ao Futuro.
Andei quebrando um braço e ele ainda não está bem bom;
assim, sabia que apesar de estar fazendo parte de uma
equipe de apoio, pouco poderia ajudar a carregar e fazer
outras coisas para aquelas 500 famílias que seguiam para
a ocupação. Então pensei nos anjinhos que abanavam na
velha Kombi – e se, na hora em que a Kombi parasse, seus
pais não estivessem a postos? Quatro horas da manhã é um
horário muito tardio para meninos e meninas tão pequenos
estarem naquela farra toda – havia que se pensar no que
aconteceria se algum sobrasse na Nave. E já que estava
sem muita força física, pensei em usar a força do
coração, e ficar de guarda para quando a Nave dos
Inocentes parasse, amparar junto ao peito algum anjinho
que começasse a chorar. E foi o que fiz.
Assim que chegamos à área que estava sendo ocupada,
tratei de sair do carro onde estava e ir ver o que
acontecia na Kombi. Como eu, um magote de adultos seguiu
para a mesma porta, e todos eram casais, e muitos tinham
bebezinhos ao colo, e quase todos eram feios,
mal-vestidos, judiados pela vida, envelhecidos
prematuramente, sem nada de seu além daquelas crianças
que começaram a sair da Nave. E então eles gritavam
coisas assim:
- Segura na mão do Luizinho, e tu na mão do Antonio, não
se soltem!
E cada casal arrebanhava alguns anjinhos, às vezes três,
às vezes quatro, e os colocavam numa enfiada de mãos
dadas, preciosos colares de crianças que eram as suas
jóias mais preciosas, as únicas jóias das suas vidas
sofridas. Em coisa de um instante a Nave dos Inocentes
estava vazia – não sobrara nenhum anjinho para eu
acalentar junto ao coração. E então eu soube que aquela
gente jamais sairia dali a não ser por algum acordo
feito por um bom juiz; que não haveria soldado, cachorro
ou canhão que enfrentasse gente que tinha colares de
tais preciosidades, gente determinada a tudo para
garantir as suas jóias.
Blumenau, 20 de abril de 2004.
Urda Alice Klueger
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