Tchello d'Barros comenta SAMBAQUI


O recente lançamento do livro Sambaqui, de Urda Alice Klueger, Editora Hemisfério Sul, Blumenau, mereceu interessante comentário do Artista Visual e Escritor Tchello d'Barros. Sambaqui é fruto de cuidadosa pesquisa de mais de dez anos em museus, bibliotecas, universidades e escavações arqueológicas  levados a efeito pela própria autora, sob a orientação da professora e doutora Elizabete Tamanini, em sua tese de Pós-Graduação em História pela Universidade Federal de Santa Catarina. Traduz-se num  romance que traz notas de rodapé e informa ampla bibliografia usada pela autora. Veja, abaixo, o comentário de Tchello d'Barros.

 

Sambaqui E A Aldeia Livre de Urda Alice Klueger  

Tchello d’Barros – Maceió/AL

 

Quem foram os primeiros catarinenses? O que se sabe é que o belo Estado de Santa Catarina é considerado ímpar por ser uma colcha de retalhos cultural, principalmente por ter recebido levas de imigrantes de muitos países, formando aí uma diversidade de etnias, tipos e costumes que impressiona qualquer visitante, seja brasileiro ou estrangeiro.

Bem, sabe-se que antes do período colonial havia índios por lá, mas e antes deles? Os estudos sobre o assunto apontam para um povo que viveu principalmente no litoral catarinense, no período entre 6.000 e 2.000 anos antes do presente, tendo deixado como principal testemunho obras de arte, outros utensílios, inscrições rupestres e os sambaquis, montanhas de conchas onde viviam e onde também enterravam seus mortos. São locais onde são encontrados esqueletos e diversos utensílios que nos contam um pouco do modo de vida desse povo misterioso. Tais sambaquis podem ter o tamanho de um pequeno morro, como também os há com até trinta metros de altura e diversos quilômetros de comprimento. Até hoje se discute se tais amontoados de conchas foram feitos como meros “lixões”, ou se tiveram outra função, como a de marcar a paisagem, da mesma forma que a nossa atual civilização o faz, construindo grandes igrejas ou estádios esportivos, por exemplo.

Os construtores de sambaquis também não deixaram linguagem escrita antes de desaparecer em circunstâncias ainda não identificadas pelos historiadores e arqueólogos que se debruçaram sobre o tema. Tampouco esses pesquisadores estão de acordo com a aparência física dos sambaquianos – é assim que a comunidade acadêmica os nomina – mas as ossadas mostram que não se tratam dos índios, como os conhecemos, pois possuem outro DNA e chegaram por aqui com alguns milênios de antecedência.

Para trazer algumas luzes sobre essas brumas da História, a romancista e cronista Urda Alice Klueger, da Academia Catarinense de Letras, acaba de lançar o romance histórico Sambaqui (Ed. Hemisfério Sul. 245 pg. Blumenau/SC 2008). Trata-se do 19º livro publicado pela escritora blumenauense e a obra dialoga com outras publicações suas, já que a autora tem essa preferência pelos romances históricos – Verde Vale, No Tempo das Tangerinas, Cruzeiros do Sul e outros – e também com suas publicações de relatos de viagem – Lembranças de Amar em Cuba, Entre Condores e Lhamas e outros – e não será demais lembrar aqui que a romancista é também historiadora pós-graduada.

 

Mencionamos essa linha biográfico/acadêmica, pois o livro pode ser lido de duas maneiras, ou atingindo dois públicos: tanto pode ser uma obra de referência para todo e qualquer interessado em conhecer mais sobre esse assunto, que já é fascinante por si só, pois além das referências científicas de rodapé, o volume nos brinda antes de cada capítulo com uma intersecção histórico/geográfica sobre os estágios de desenvolvimento de outros povos nos outros continentes. E, naturalmente, a outra forma de leitura é a literária, aos que apenas querem ler mais um romance, outra obra ficcional da consagrada autora catarinense.

Bem, o fato é que quando abri o livro e dei aquela primeira folheada básica, pensei em ir lendo um capítulo por dia ou algo assim. Mas acabei lendo tudo em apenas dois dias, exagero que não recomendo, mas simplesmente não conseguia largá-lo, por conta dessa capacidade de Urda em nos prender a atenção na leitura, característica de suas obras. Cabe aqui lembrar de Manuel Bandeira que dizia que somente o povo brasileiro tem essa mania de escrever de uma forma diferente de sua fala. Mas na prosa ficcional de Urda, e principalmente em suas crônicas, esse efeito é atenuado, pois quem a conhece pessoalmente logo nota a similaridade de sua conversa com sua linguagem escrita, onde identificamos essa fluidez no texto, que nos prende e nos leva juntos na história.

No entanto a obra apresenta alguns recursos narrativos a se considerar, como a opção de ‘conversar com o leitor’, tipo um acordo tácito, ou seja, lá no meio de algum capítulo, a autora propositadamente quebra a atmosfera mágica da cena em questão para nos lembrar que naquele tempo, certas coisas, costumes e mesmo a linguagem eram diferentes, e muitos termos e expressões sequer poderiam existir, independente de idiomas. É como no teatro, o recurso da ‘quarta parede’, de Brecht, onde o ator como que se desliga por instantes da cena e conversa com a platéia, comentando algum aspecto da mesma. No Brasil, quem teria iniciado esse recurso narrativo difícil e arriscado, foi Manuel Antônio de Almeida, com seu saboroso Memórias de Um Sargento de Milícias. Mas em Sambaqui, a prosadora catarinense vai além, pois em determinados momentos, nos deparamos com um recurso estilístico onde a linguagem da narrativa é a suposta linguagem primitiva dos personagens, como por exemplo no episódio de um eclipse, onde, em lugar da narração usar a palavra “eclipse”, a cena é contada com a linguagem e a percepção dos sambaquianos aterrorizados com o fato de que “a grande lua branca estava sendo comida”, e tal frase não é dita pelo personagem, mas contada pela narradora.

Sambaqui levou quase uma década para ser escrito, resultado das muitas pesquisas de campo, acervos de museus e ensaios produzidos por pesquisadores de diversos segmentos. De forma romanceada, ficamos conhecendo um pouco do cotidiano desse povo de hábitos tão contrastantes com nosso mundo atual. São rituais de nascimento e de morte, sua alimentação, suas complexas relações sociais, a relação com a natureza e com a geografia local.

 

Por pura coincidência, conheci os lugares onde se passa a trama, no litoral da Ilha de Santa de Catarina – Florianópolis, para os de fora – e também na mítica Ilha do Campeche. Mencionamos isso para registrar aqui a capacidade inventiva da narradora em alinhar as evidências arqueológicas ao contexto geográfico e no meio disso tudo ainda tramar as relações entre os personagens, incluindo aí uma tocante história de amor.

São soluções criativas e originais que nos informam das peripécias dos personagens, como a já citada experiência do eclipse, os detalhados rituais de agradecimentos aos deuses, as relações com outras aldeias e mesmo com outros povos, os recentes índios que por aquela época já estavam chegando por ali. Um dos pontos altos sem dúvida é o processo de criação e elaboração dos desenhos rupestres, as oficinas líticas e as esculturas produzidas pelos personagens, onde a imaginação da autora nos brinda com momentos inspirados e inspiradores sobre a iconografia sambaquiana que chegou até nossos dias.

Mas talvez, para além do enredo bem amarrado da narrativa, outro ponto forte seja a elaborada construção dos personagens, suas personalidades, qualidades e defeitos, que vão tramando os conflitos e eventos do romance. Taitai, Calexo, Jogu, Sanira, Jovic, Elitama e tantos outros formam uma teia social que fundamentam o modo de vida desses nossos antigos moradores do litoral sul do continente americano.  

Urda Alice Klueger, que não se considera uma intelectual, mas uma contadora de histórias, ao escrever Sambaqui, não sabemos se inconscientemente, tece nas entrelinhas da trama alguns aspectos de sua visão de mundo, um mundo contemporâneo que nem sempre se coaduna com sua confessa visão política com tendência de esquerda, independente de partidos, pois na vida em comunidade daquela aldeia percebemos as nuances de um sistema comunista, no sentido positivo da palavra; com sua também confessa admiração pelo movimento hippie, de amor e paz e muita comunhão com a natureza, e um amor livre e libertário, mas com responsabilidades, onde a aldeia é quase uma dessas chamadas sociedades alternativas, comuns no período hippie; com a condição da mulher, se considerarmos as atuais conquistas do chamado sexo frágil, pois no romance o matriarcado é uma possibilidade meritória, o que dialoga com a atual situação de muitos países importantes agora estarem sendo dirigidos por mulheres que chegaram ao poder pelo voto democrático. Enfim, são aspectos, sócio-políticos – sempre baseados em evidências de pesquisa – mas que nos fazem questionar o nosso atual modus vivendi, com nosso sistema capitalista, nossa sociedade consumista e a prevalência do ego em detrimento do coletivo.

Então, não notamos em Sambaqui a pretensão de elucidar questões científicas ou mistérios da antiguidade catarinense, ou meramente explicar os hábitos antropológicos do chamado “povo das conchas”, há outras pessoas cuidando disso. O que percebemos é o encontro da historiadora com a romancista (história & estória), onde Urda nos apresenta os sambaquianos, fazendo o que ela sempre fez, nos contando mais uma boa história.

 

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