NÓS NUS
Tchello
d’Barros*
Há uns cinco séculos, o artista florentino
Michelângelo Buonarrotti debandou-se da velha
Toscana para ir até Milano e depois Roma, para
pintar afrescos para a já poderosa Igreja Católica.
Depois disso, a história da arte nunca mais foi a
mesma. Aquele rapaz que veio ‘do interior’ e
‘pintava sob encomendas’ acabou se transformando num
dos maiores gênios da pintura e da escultura,
influenciando diretamente o Renascimento e as
futuras gerações de artistas. Pois lá estava ele
pincelando os afrescos de nada menos que a Capela
Sistina, e dizem os jornalistas da época que
freqüentemente era interrompido pelo Papa Leão X,
que insistia para que ele pintasse uns paninhos por
sobre os corpos das figuras humanas e angelicais que
ricamente povoam suas imagens. Dizem também que o
colérico pintor tinha brigas homéricas com o clérigo
e não poupava impropérios quando se tratava de
censurar sua arte. Dissesse _Parla!, não ao
seu Moisés de mármore, mas às figuras nuas dos
afrescos, e estas respondessem, na certa imprecariam
uma ou duas conjurações ao sumo-pontífice da época.
Amadeo Modigliani foi outro artista célebre, que
como ninguém retratou a beleza da figura humana com
maestria e refinado senso estético. Suas obras
sensibilizavam pelo absoluto domínio das proporções
da figura e por retratarem o corpo feminino com uma
rara sensualidade poética. Aqui cabe uma breve pausa
na crônica, para lembrarmos que o padrão de beleza
da época era bem diferente deste vigente em nossos
dias. Na época as mulheres bonitas eram as mais
rechonchudas, fofinhas mesmo. Hoje quem define as
referências são principalmente os estilistas
internacionais que apresentam modelos macérrimas,
esqueléticas mesmo. Mas há quem afirme que esses
sujeitos não gostam muito de mulher mesmo. Bem,
controvérsias à parte, já podemos voltar ao nosso
relato sobre o Amadeu. Eis que ele queria fazer uma
exposição em famosa galeria de Paris. Aquela mesma
cidade de inúmeros bordéis e cabarés, referência de
licenciosidade e concupiscência na época. Pois
bastou colocarem os quadros do artista na vitrina da
galeria, com suas sublimes musas desnudas, para o
populacho inflamar os ânimos e boicotar a mostra do
mestre, sob ameaças de destruição da galeria.
Bons tempos aqueles, apesar das tentativas de veto
de pseudo-puritanistas e da recalcada plebe ignara.
Mesmo assim era um tempo onde nudez artística era
tida como uma arte sublime e a figura humana,
especialmente a feminina era divinizada sob a ótica
dos artistas, estes sim, pessoas espiritualizadas e
à frente de seu tempo. Até moçoilas da nobreza
européia disputavam entre si para posarem como
modelo para os pintores.
Mas vamos dar um salto no tempo. No século XX
inventaram a pornografia, publicando em profusão sob
os mais variados meios, toda sorte de imagens
libidinosas, explorando e deturpando o sacralizado
corpo humano, templo do espírito, conforme nos
ensinou um certo pregador nascido em Belém. É a
libido e lascívia explorada em favor da lubricidade
dos tarados de plantão. Um dos reflexos negativos
desse fenômeno é a deturpação da forma como se vê o
ser humano, seu corpo, o sexo e até mesmo valores
universais como o Amor, seja de Eros ou de Ágape.
Talvez por isso, neste início de terceiro milênio
haja pessoas retrógradas e falso-moralistas, capazes
de criticar e até vetar uma mera exposição de arte
com figuras femininas, onde o artista busca nada
mais que resgatar a dignidade da imagem da mulher
através da inefável lente da arte.
Conversando com o artista italiano Domenico di
Giorgio, um mestre do desenho, que está passando uns
tempos em Blumenau, o mesmo alerta para se ter
cuidado com pessoas assim, são as mais perigosas
pois com essas atitudes procuram apenas tentar
esconder o que realmente grassa no lado obscuro de
suas personalidades. Para pessoas que têm essa visão
deturpada, como terapia, sugiro começarem de leve,
apreciando a obra de escultores como Fídias, Bernini
e Camile Claudel, só para ficar entre alguns de meus
preferidos. Aos que precisam de um tratamento de
choque, sugiro uma dose cavalar de beleza explícita,
como as esculturas em bronze de Pedro Dantas. Depois
podem ir aos poucos, em doses homeopáticas, ir
abandonando filmes, revistas e sites pornográficos,
trocando por outras atividades como visitar galerias
de arte e outras mostras culturais. Teatro e
literatura também poderão ampliar o universo
imaginário de gente assim.
Quanto a Michelângelo e Modigliani, onde quer que
estejam, desculpem a atitude medieval de alguns de
meus contemporâneos e mais uma vez obrigado, por sua
arte e por seu legado.
* Tchello d’Barros é escritor e artista visual.
www.tchello.art.br
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