acesse os links e conheça um pouco mais dessa história.

 

 

PRECEDENTES HISTÓRICOS

 

O SUMIÇO DO NOME

 

DEPOIS DOS ANOS 50

 

A RE-INVENÇÃO DA TRADIÇÃO

 

 

 

 

 

PRECEDENTES HISTÓRICOS
                       Luiz Eduardo Caminha

 

     São   imprecisos   os   registros  históricos  a  respeito  dos grupos  de stammtische,  em Blumenau.   Nos tempos de colônia,  como não poderia deixar de ser, os imigrantes seguramente já faziam seus stammtische, quando, ao final do dia, sorvendo ou não alguma bebida, se reuniam para planejar  o  dia  seguinte,  discutir  as  precauções  a serem  adotadas  no conflito  com  os  índios,  falar  da  laboriosa  e  difícil faina diária, comuns àqueles primeiros momentos da colônia,  ou  mesmo  para  relembrar  ou choramingar as saudades de sua terra natal, de tantos parentes e amigos que por lá ficaram.
     Os grupos eram freqüentados por homens que,  ou  não  tinham o zelo de registrar aquelas  reuniões  informais  ou não achavam estes registros importantes ou ainda, porque não tinham interesse que suas conversas e andanças, habitualmente noturnas, pudessem chegar ao conhecimento de suas esposas, noivas ou namoradas, muito menos à pudica sociedade da época.
     É bem verdade que o Pastor Oswaldo Hesse, que aqui chegou em 1857, o historiador José Ferreira da Silva, e a escritora Christina Baumgarten fazem  referências  em  seus  escritos  sobre  o  hábito  de  se  reunir dos alemães  aqui  radicados,  mas  o  registro  formal  de que estas reuniões reproduziam a tradição germânica dos stammtische, inexiste de fato. Talvez por esta razão sejam tão escassos os registros históricos destes grupos e o que mais se sabe sobre eles vem muito mais da tradição oral, referências das pessoas, lembranças de outras, ou relatos que foram passados pelos mais antigos.

 

 

O SUMIÇO DO NOME
                   Luiz Eduardo Caminha

 

   Não há dúvida que contribuiu para o sumiço desta cultura, o movimento nacionalista deflagrado, a partir de 1935, pelo o governo  tendo, como alvo preferencial, as colônias alemãs do sul do Brasil. Esta xenófoba campanha abafou as expressões públicas de germanicidade.  Deixou-se de falar o alemão em público; diminuíram as atividades dos clubes; as Sociedades de Atiradores (Schützenverein) tiveram seus nomes nacionalizados ou foram fechadas, a educação passou a ser feita em língua portuguesa e  era vergonhoso se declarar de origem alemã.
    Desta forma, termo e tradição desapareceram do coloquial comum dos blumenauenses e o "jeito de ser" dos stammtische acabou sucumbindo. Mais que isso, para disfarçar e fugir do aparato policial, desenvolveu-se o hábito de associar à reunião  de um stammtisch  uma atividade sócio-esportiva, como o futebol, a bocha, o bolão, entre outras, o que acabou por transformá-los em grupos ou patotas destinados a estas atividades. Mas, o que faziam, de fato, nada mais era  que perpetuar aquela tradição.
    O hábito de se reunir continuou como  traço cultural do blumenauense nestes grupos, entre os freqüentadores de sauna, de um mesmo bar, nos clubes de jipeiros, ou mesmo nos grupos de  amigos, que a cada final de tarde ou a cada "früestück", se sentavam  para um bate-papo. O que se esqueceu, foi chamar de stammtisch estas reuniões, algumas com regras, livros de ata, álbum de fotos, etc, outras sem qualquer formalidade. Deixou-se de ir ao meu stammtisch e passou-se a frequentar a minha patota, o meu grupo de  bocha ou bolão, a turma do cafézinho do bar Pingüim, do Marreta ou outro que o valha.
 

Foto Histórica:

Bairro Altona - hoje Itoupava Seca - futura Rua São Paulo. Foto da Cervejaria Otto Jennrich uma das Primeiras.

Aonde um stammtisch se reunia. Ali também havia muita música e cantorias, motivo de "reclamações" de vizinhos

(Arquivo Histórico José Ferreira da Silva)

 

DEPOIS DOS ANOS 50

                     Luiz Eduardo Caminha

   
  Na segunda metade do século XX, já livres da xenófoba campanha nacionalista da era Vargas, alguns grupos ainda se identificavam como stammtisch. Entre estes, destaque-se aqui a existência de dois grupos de blumenauenses da gema, que se reuniam diariamente, nos fins de tarde, início de noites, na Confeitaria  Socher, bem como um outro que usava as dependências do Bar do Benthien, ambos na Rua XV de Novembro. Havia ainda, nos anos 50, três outros grupos, dos quais tomamos conhecimento, que mantinham esta tradição, um na Sociedade Recreativa e Esportiva Ipiranga, outro na Itoupava Central e um outro na região do  Testo Salto.      
     Sobre  esta  época,  dois  registros  são  destaques  de duas crônicas  do Jornalista Altair Carlos Pimpão.  Uma   delas,   levada  ao  ar  em  seu programa radiofônico "Crônicas do Vale", na ex-Rádio Difusora, lhe foi passada  por Victor Maria Flesch e aconteceu na década de 50 do século passado, com o Sr. Walter Wendlich, membro de um stammtisch que se reunia diariamente no Bar do Benthien:

     "...a história ficou apenas entre os que participavam da "Stammtisch", isto é, aquela meia dúzia de alemães e brasileiros germanófilos e cervejófilos, que todas as noites sentavam na mesma mesa e ficavam tomando cerveja (não cito os nomes para evitar merchandising), de casco escuro".
                                                                              

No outro registro, em seu livro "Crônicas de Blumenau" o jornalista Altair Carlos Pimpao descreve com certa dose de saudade a existência do Socher, bar, café, restaurante e confeitaria:
     "Os homens de negócio também se reuniam ali. Muitos mantinham sua germânica e tradicional instituição, "Stammtisch", sempre a mesma mesa, que, diariamente, no horário habitual e sempre rodeada pelas mesmas pessoas,ocupando os mesmos lugares, era palco dos comentários políticos, esportivos e sociais da época"...
E acrescenta o cronista: "Como também participei de uma  rodinha (
o grifo é nosso), posso afirmar que foi ali que começou o movimento para a fundação do Bela Vista Country Club. Mas começaram ali muitos outros movimentos e concretizaram-se grandes transações comerciais e imobiliárias".
     Intencionalmente, o jornalista apresenta um significado abrasileirado para o termo "stammtisch". De fato, se quisermos explicar, para quem nunca ouviu falar, o que significa este termo, o melhor similar brasileiro que encontramos seria "rodinha" ou "roda de amigos".
     Há que se destacar ainda um registro feito pela pesquisadora Edith Kormann em sua obra "Blumenau, arte, cultura e histórias de sua gente (1850-1985) quando se refere a um tradicional jogo de cartas alemão, o "skat":
...:"considerado esporte dos homens é também praticado por mulheres, e conforme estatísticas, cada terceira pessoa na Alemanha sabe jogar "skat" e se reúnem regularmente nos clubes e no "stammtisch" para o jogo". l

 

Foto do Arquivo Histórico de Blumenau - Primeira metade Sec. XX

Rótulos Cervejas Blumenau

(Arquivo Histórico José Ferreira da Silva)


                                                                              

A RE-INVENÇÃO DA TRADIÇÃO

                        Luiz Eduardo Caminha

    O fato é que as rodinhas, patotas, confrarias, os grupos de amigos são o correspondente brasileiro desta tradição cultural  de  origem  tedesca. E em Blumenau as coisas foram assim.  Foram!!!  Porque a partir da estréia do Programa Stammtisch, em 02 de Abril de 2.000 a tradição,  bem como o termo  "stammtisch"   passam  a  ser definitivamente resgatados  e, hoje, não há um blumenauense sequer que não reconheça o seu significado.
     Trouxe aqui estes registros da História para marcar, com toda ênfase, a importância que dou, e sou testemunha,  ao  ressurgimento desta  tradição a partir de Abril de 2.000, através do Programa Stammtisch, que tivemos a honra de estrear, ainda como quadro do Programa Feliz Cidade, na TV Galega. Foi, sem qualquer dúvida, através do Programa, que se conseguiu trazer  ao momento presente, a existência desta cultura "disfarçada" em outras denominações que trazem, no seu jeito de ser, esta herança deixada pelos colonizadores e seus descendentes.
     Assim,  é  de mérito afirmar que o grande resgate desta história toda, começada em  02 de Abril de 2.000,  com um simples quadro denominado "stammtisch" do programa semanal "Feliz Cidade", foi a volta do uso deste termo, bem como desta tradição. Não mais patotas, não mais rodinhas, mas "STAMMTISCH" mesmo, como os alemães o conceberam e como os descendentes dos colonizadores usavam como hábito de seu dia-a-dia. Re-inventou-se, desta forma,  uma  tradição  que  muito  certamente, estava caindo no rol do esquecimento histórico.
     No afã de reproduzir a história, os próprios grupos procuraram se aprofundar no assunto e, respeitadas as adaptações, resgataram uma "memória social" tão vivida pelos antepassados. Foi nesta vertente que, em Blumenau, e novamente por ação direta do Programa Stammtisch inventou-se uma "nova" e adaptada tradição. Falamos da "Strassenfest (tradição comum na Alemanha) mit Stammtischtreffen", uma Festa de Rua aonde todos os stammtische, patotas, confrarias e  grupos de amigos comparecem para re-editar, em plena Rua  XV de Novembro, as reuniões informais habitualmente vivenciadas em seus ambientes cativos, nas suas mesas reservadas. Mas sobre isto, vamos falar na página "Encontros de Stammtisch" ("Strassenfestmitstammtischtreffen").