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Mural Virtual Das Letras novembro


 

 


O Mural das Letras de
Novembro presta saudosa homenagem ao Poeta Lindolf Bell, no mês de aniversário de seu nascimento.

 

Ao mesmo tempo, traz a poesia de grandes mestres da Literatura , do Brasil e de Portugal.

 

Um brinde à poesia que resiste ao tempo, que fica para sempre na memória dos sentidos e do coração.
 

Terezinha Manczak, Organizadora.

 

 




XI

LINDOLF BELL
1938/1998


Amei a tarde
de navios, ruas estreitas,
becos largos sonhos,
a tarde cheia do destino,
temporais da infância
amei a tarde de olhos e narizes e bocas
na praça aberta de meu tempo interior,
a tarde cheia das esperas,
encontros, outras tardes,
e a palavra inventando teu pássaro rosto
sentado no tempo
vago na queda,
pronto no vôo.

Ponte onde te vi passar,
onde as águas de um rio passam
e passa um barco todas as tardes,
meu coração preso
entre as tábuas do fundo.

Eu te arrebatarei numa hora qualquer,
lâmpada efêmera das águas.
Sim, eu te vi, te vejo,
te verei, Alma da Tarde.


[poema do Livro Annamárias]








Cora Coralina


Coração é terra que ninguém vê

Cora Coralina



Quis ser um dia, jardineira
de um coração.
Sachei, mondei - nada colhi.
Nasceram espinhos
e nos espinhos me feri.
Quis ser um dia, jardineira
de um coração.
Cavei, plantei.
Na terra ingrata
nada criei.
Semeador da Parábola...
Lancei a boa semente
a gestos largos...
Aves do céu levaram.
Espinhos do chão cobriram.
O resto se perdeu
na terra dura
da ingratidão
Coração é terra que ninguém vê
- diz o ditado.
Plantei, reguei, nada deu, não.
Terra de lagedo, de pedregulho,
- teu coração.
Bati na porta de um coração.
Bati. Bati. Nada escutei.
Casa vazia. Porta fechada,
foi que encontrei...






O HOMEM E A ÁGUA

Mário Quintana


Deixa-me ser o que eu sou,
o que sempre fui,
um rio que vai fluindo.
E o meu destino é seguir...
seguir para o mar.
O mar onde tudo recomeça...
Onde tudo se refaz...







Impressões do Crepúsculo

Fernando Pessoa

O sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro de minh'alma.
E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeria pancada
Tem um som de repetida.
Por mais que me tanjas perto
Quando passo triste e errante,
És para mim como um sonho-
Soas-me sempre distante...
A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto







NO MEIO DO CAMINHO

Carlos Drummond de Andrade


No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra





CORRIDINHO

Adélia Prado


O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta, com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.

O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.


Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.



 


Ser Poeta

 

Florbela Espanca

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente





A lágrima

Augusto dos Anjos


- Faça-me o obséquio de trazer reunidos
Cloreto de sódio, água e albumina...
Ah! Basta isto, porque isto é que origina
A lágrima de todos os vencidos!

-"A farmacologia e a medicina
Com a relatividade dos sentidos
Desconhecem os mil desconhecidos
Segredos dessa secreção divina"

- O farmacêutico me obtemperou. -
Vem-me então à lembrança o pai Yoyô
Na ânsia física da última eficácia...

E logo a lágrima em meus olhos cai.
Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai
Do que todas as drogas da farmácia!







SUBIR ATÉ O AZUL

Paulo Leminski



Subir até o azul,
descer até o inferno,
são coisas simples
que no fundo, eu quero

Ir, sem ir. Ficar,
passando. Passar assim,
como quem passa,
amando.

A viagem que não fiz
doi dentro de mim
assim como a raiz
de uma árvore sem fim.




Organização:
 Terezinha Manczak  
mural@stmt.com.br

 

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