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Mural Virtual Das Letras

Tchello d'Barros


 

Prezados Amigos (as) das Letras,

 

O Mural das Letras de Fevereiro,  nos presenteia com a produção inédita  do grande poeta catarinense Tchello d'Barros, que hoje  vive entre Recife e Fortaleza.

Trata-se do Cordel, forma fixa de poesia popular, pouco difundida  aqui no Sul. Saiba como Tchello está aprendendo  a dominar o estilo, bem como a importância da pesquisa  e do fazer literário contínuo e diversificado.

 

Terezinha Manczak - moderadora

 

 

" Bem, já são quase dois anos por aqui e tenho não apenas montado uma coleção de cordéis, que já conta com mais de cem exemplares, como também tenho estudado essa forma fixa da poesia popular deste lado do Brasil. Consultei os escritos de Câmara Cascudo, que primeiro estudou a fundo esse tema, depois estudei as pesquisas do próprio Aruano Suassuna, que tá vivo e conheci pessoalmente na Paraíba. Ele é de lá embora viva em Pernambuco. E também fiz oficina de cordel com ninguém menos que o Bráulio Tavares, um dos escritores mais versáteis do país. Sem falar nas teses universitárias que consegui sobre esse tipo de literatura. E mais, sempre que posso "me atraco" com os repentistas que aparecem por aqui nas praias, eles semprem ficam surpresos, como é que pode um "cabra" do Sul enfrentá-los nas cantorias! É muito divertido! "
 
Tchello d'Barros

 

 

 

 

 

 

 

 

"O MATUTO QUE SE ESPANTOU COM AS MULHERES DO RECIFE"

                        cordel de Tchello d'Barros www.tchello.art.br

 

 

 

Pra contar essa estória

Ó musa da poesia

Dai-me a inspiração

Por favor me seja a guia

Assoprando no ouvido

Deste que em ti confia 

 

Vamos contar sobre Rui

Ruivinho era o apelido

Descendente de holandês

De uma negra foi parido

Pixaim loiro e mulato

Sardento e esmilingüido

 

Vivia lá no Agreste

E tentou criar galinha

Mas a sua vocação

Foi criar galo de rinha

Nesse esporte proibido

Muito respeito ele tinha

 

Ruivão das penas vermelhas

Seu galo de estimação

Vencia todas as lutas

Foi um galo campeão

Eram dupla conhecida

Por Ruivinho e Ruivão

 

Mas com o passar do tempo

Começou a decadência

Ruivão foi perdendo rinhas

Perdeu a sua potência

Cantava fora de hora

Acabou a competência

 

Ruivinho então decidiu

O belo galo vender

E alguém lá no Recife

Certamente ía querer

Comprar o galo famoso

Antes de ele morrer

 

Ruivão foi num saco verde

Só a cabeça de fora

Estava um pouco apertado

Furou o saco na espora

No ônibus pra Recife

A duplinha foi embora

 

Até hoje nenhum deles

Tinha ainda viajado

Ruivão queria cantar

Pois estava assustado

Ruivinho lhe dava milho

Pra ele ficar calado

 

Chegou na rodoviária

Foi logo se informar

O endereço de um mercado

Para o galo alguém comprar

E assim pegou o metrô

Que é mais fácil pra chegar

 

O galo se sentiu zonzo

Nesse trem em disparada

No vagão chacoalhando

Já não entendeu mais nada

Cantou alto quanto pode

Assustando a gentarada

 

E os dois foram expulsos

Logo no próximo ponto

E por causa da zoada

Ruivão já estava tonto

Compraram um saco d'água

Sem nem pedir um desconto

 

Deu de beber para o galo

Que logo se acalmou

Ruivinho olhou para os lados

E um mercado avistou

Era a Casa da Cultura

Onde ele adentrou

 

Ao tentar vender o galo

Pelo guarda foi barrado

Pois vender bichos ali

Não era autorizado

E se tentasse insistir

Na cela ia trancado

 

O galo ficou nervoso

E o saco d'água bicou

E bem na cara do guarda

É que a água esguichou

Correram logo dali

Pois o clima esquentou

 

E foram se esconder

Na barraca de um fiteiro

Que sugeriu um lugar

Que parece um formigueiro

No mercado São José

Vende o galo bem ligeiro

 

A confusão começou

No caminho do mercado

Pensou o galo Ruivão

Que seu fim tinha chegado

Pois viu ele numa esquina

Rodando frango assado

 

Com a espora pontuda

Abriu um rombo no saco

E escapuliu dali

Para se salvar de fato

Ruivinho correu atrás

Armando o maior barraco

 

Na rua havia um desfile

O que era eu não sei

Não era Maracatú

E nem Folia de Rei

Tinha uma faixa estranha:

"Dia do Orgulho Gay"

 

Nessa parada feliz

Viu mulheres bem bonitas

Mas olhando bem de perto

Eram meio esquisitas

Umas muito maquiadas

Outras com laços e fitas

 

E o galo fugitivo

Pelo desfile entrou

Entrou também o seu dono

Que então se assustou:

Isso é Frevo ou Caboclinho?

Onde é que eu estou?

 

Subiu num carro alegórico

Com moças usando tanga

Berrou se alguém viu um galo

Respondeu uma baranga:

Aqui não se solta o galo

Aqui se solta a franga

 

E disse uma de bigode:

Não vi galo nem jacu

Nem outro tipo de ave

Muito menos urubu

Mas se seguir futucando

Vai encontrar um peru

 

Uma mulher musculosa

Tinha o sovaco raspado

Disse: aqui não tem galo

Nem perdido nem achado

Você só vai achar pintos

Dos de pescoço pelado

 

E outra do peito grande

Que era siliconada

Foi lhe dizer com respeito

Para não ser despeitada

Que viu um pintão no bloco

Do Galo da Madrugada

 

Outra do peito pequeno

Menor do que um pequi

Estava de top less

Com marquinhas bem ali

E disse: eram duas peças

Tirei uma outra vesti

 

Uma pelada peluda

Usando só a calcinha

Disse: na falta do galo

Conheça uma amiga minha

Veja como é recatada

Mas no fundo é bem galinha

 

Outra espetaculosa

Muito forte e muito alta

Disse que não viu o galo

E com seu jeito peralta

Disse: na falta de bicho

Bicha aqui é o que não falta

 

Uma tal de Drag Queen

Rebolava tão formosa

Viu milho na mão de Rui

E disse espalhafatosa:

Só gostamos de sabugo

E beijou-lhe escandalosa

 

Uma mão desmunhecada

Trouxe uma pena do galo:

Ô moço do saco verde

vim apenas avisá-lo:

Vi o galo na sinaleira

Acredite no que eu falo

 

Ruivinho foi ao farol

Onde o Ruivão cantou

E agarrando o bichinho

O parceiro resgatou

E fugiu dessas mulheres

Com as quais se espantou

 

Não quis mais vender o galo

Correu pra sua cidade

Onde a sorte de Ruivão

Teve o destino mudado

Agora é um reprodutor

Sendo o mais requisitado

 

E nosso amigo Ruivinho

Nunca se recuperou

Das mulheres do desfile

Que no Recife encontrou

Cidade de cabra-macho

Que pelo jeito mudou

 

 

"O MISTÉRIO DE BLÉM-BLÉM E OS FANTASMAS DE JARAGUÁ"

                              cordel de Tchello d'Barros www.tchello.art.br

 

 

Certa noite a lua cheia

Estava avermelhada

E depois da meia-noite

Nem sino nem badalada

Não se ouvia nem silêncio

Nessa noite tão calada

 

Isso foi em Maceió

Num lugar bem conhecido

No bairro de Jaraguá

De estilo muito antigo

Foi ali que aconteceu

Este causo estremecido

 

Duas almas se encontraram

Eram eles escritores

Poeta Jorge sem medos

Mestre Graça sem temores

Vieram pela saudade

Da cidade e dos amores

 

Percorreram todo o bairro

Caminhando lado à lado

Nas ruas do Jaraguá

Este lugar tão falado

E pararam no coreto

Que estava abandonado

 

Eles ali leram versos

De estilo bem rimado

Como em muitos outros muros

Por onde tinham passado

Leram todos os poemas

Que alguém tinha pintado

 

Foi então que Mestre Graça

Ficou impressionado

Disse ao Poeta Jorge

Do silêncio calado

Pois antigamente o bairro

Era tão movimentado

 

Isso foi há muito tempo

Quando aqui tinha voltado

Este bairro portuário

Foi bastante assombrado

Com muitas almas penadas

E o povo assustado

 

Foi então que o poeta

Diante da situação

Acendeu mais uma estrela

Antes da explicação

E contou porque agora

Não tem mais assombração

 

Então contou de um doido

Que pelo bairro vivia

Ninguém sabe de onde veio

Seu nome ninguém sabia

Era um maluco alegre

Nem esmola ele pedia

 

Todos já lhe conheciam

Nunca aperreou ninguém

E tinha um apelido

Que ganhou não sei de quem

Por fazer muito barulho

Lhe chamavam de Blém-blém

 

É que ele batia ferro

Pela rua o dia inteiro

Batia em postes e placas

Com seu jeito costumeiro

Todos riam sem saber

Do motivo verdadeiro

 

É que os fantasmas do bairro

Ele podia enxergar

Tinha essa capacidade

Coisa de se admirar

Só que todos esses vultos

Ele queria expulsar

 

E disse à cada um deles

Pra dali se retirar

É que em seu querido bairro

Alma não ía morar

Porque a bela Maceió

Começou nesse lugar

 

Os danados aprontavam

Pela madrugada afora

Assustavam toda a gente

Que com medo ía embora

E os malvados só dormiam

Quando chegava a aurora

 

O Blém-blém disse que isso

Não ía mais permitir

E passou a bater ferro

Até o ferro retinir

Incomodando os fantasmas

Que não podiam dormir

 

Claro que eles não gostaram

Desse louco objetivo

Acordar o tempo todo

Ao som de ferro batido

Já tinha até sonâmbulo

Sonhando que estava vivo

 

Um por um foi indo embora

Não ficou nada daquilo

Alguns eram tão antigos

Que foram para um asilo

Foi assim que Jaraguá

Tornou-se um bairro tranqüilo

 

Neste ponto o Mestre Graça

Só por curiosidade

Quis saber mais dessas almas

Que por infelicidade

Tiveram que abandonar

Este canto da cidade

 

O poeta começou

A contar dessas pessoas

Disse que apesar dos sustos

Eram todas almas boas

Que vinham de muitos lados

Do estado de Alagoas

 

Na Rua Sá e Albuquerque

Tinha um fantasma brigão

Brigava com todo mundo

Dizia ser um barão

Mas foi só um cangaceiro

Do bando de Lampião

 

Esse veio dos Palmares

Um retinto escravo preto

Gostava de assombrar

Ali perto do coreto

Fugiu lá para o Farol

Hoje se esconde num beco

 

Um que era estivador

Há tempos sumiu do porto

De muito puxar açúcar

Tinha um jeito meio torto

De tanto que trabalhou

Nem viu que já estava morto

 

E uma quenga assombrada

Que assustava os pecadores

Fossem eles marinheiros

Peões ou estivadores

Essa foi para bem longe

Da vila dos pescadores

 

Um fantasminha da orla

Foi embora na maré

Atacava na igreja

Crentes que não tinham fé

E gostava de morder

Esse índio Caeté

 

Fugiu da Associação

Que chamam Comercial

Um fantasma holandês

Loiro e lindo sem igual

Habitava aquela estátua

Com jeito homossexual

 

Os fantasmas violeiros

Não zoavam com ninguém

Mesmo assim foram banidos

Por cantar no armazém

Dizem que agora assustam

Lá na estação do trem

 

Um fantasma que já foi

Catador de sururú

Sempre no Museu Chalita

Tocava o maior rebú

Foi expulso e hoje mora

Lá na praça Sinimbú

 

Outra alminha morava

Na Usina da Produção

Esse cantador de côco

Não escapou da expulsão

Foi visto recentemente

Lá no Museu Théo Brandão

 

Outro era um mandingueiro

Jagunço de um coronel

Mais um vaqueiro zarolho

Por causa do escarcéu

Fugiram bem rapidinho

Foram parar no Vergel

 

Foi então que Mestre Graça

Ao poeta perguntou

Do destino de Blém-blém

Que os fantasmas expulsou

Qual será seu paradeiro

Qual o fim que ele levou?

 

O poeta respondeu

Ouvindo ao longe o trem

Disse que ele cumpriu

Sua missão muito bem

E por isso foi chamado

Para um plano mais além

 

Neste fim de madrugada

Não havia mais ninguém

Ambos olharam pra lua

Depois disseram amém

Jaraguá hoje tem saudades

Dos barulhos de Blém-blém

 

 

 

 

 

"A FEIRA DO PASSARINHO EM MACEIÓ"

            cordel de Tchello d'Barros www.tchello.art.br

 

 

Quem já foi à Maceió

Vai dizer que é verdade

Pra se ver tudo por lá

E não só pela metade

Há que se andar bastante

Pra conhecer a cidade

 

Mas um lugar não deve

Escapar de seu caminho

Lá não precisa ter pressa

Pode andar devagarinho

Pra se perder nas ruelas

Da Feira do Passarinho

 

É uma feira divertida

Um lugar movimentado

Lá se encontra de tudo

Até produto importado

Uns maldosos até dizem

Que é contrabandeado

 

Falam que algum badulaque

Foi talvez surrupiado

E chamam Feira do Rato

À este grande mercado

Porque dizem que ali tem

Até objeto afanado

 

Isso é mangação de gente

Que não tem o que fazer

É apenas um lugar

De comprar e de vender

Mas também é um programa

De passeio e de lazer

 

É bagunça organizada

Isso não nego nem minto

E a sensação que se tem

Entrando em cada recinto

É um medo de se perder

Nesse vasto labirinto

 

Há barracas muito grandes

E pequenas também tem

Até carrinho-de-mão

Lá é barraca também

E se vende bugigangas

Até no trilho do trem

 

E esse trem quando apita

É um aviso para o povo

Que tira a tralha do trilho

Num agito pavoroso

Mas mal o trem foi embora

Lá está tudo de novo

 

Vendem de pé sobre o trilho

Estes que nem tem barraca

E fazem muitos escambos

Trocam tranqueira barata

Que vem de todos os cantos

Até lá de Arapiraca

 

Na rua do troca-troca

Compra-se televisor

Rádio velho e relógio

E até despertador

Lá se compra ratoeira

E também computador

 

E o preço é acessível

Em toda aquela praça

As vezes é tão barato

Parece que é de graça

Nem precisa de dinheiro

Pode trocar por cachaça

 

Mas é tanto do bagulho

Tantos trecos e tarecos

Tem desde sapo esculpido

E muitos outros bonecos

Tem penico enferrujado

E montes de cacarecos

 

É cada quinquilharia

Que nem sei a utilidade

Mas basta lhes perguntar

Que explicam com vontade

Pois na arte de vender

Vendem com habilidade

 

A cultura alagoana

Lá se pode visitar

Mercado do artesanato

Esse é o melhor lugar

Pra encontrar a produção

Da rica arte popular

 

Há os temperos caseiros

Pra quem curte cozinhar

Tem colorau e cominho

Pra seu prato temperar

E as pimentas ardidas

Que não podiam faltar

 

Para quem gosta de peixe

Lá tem muita opção

Tem muito fruto-do-mar

Sururu e camarão

Tem cioba e carapeba

E carne de tubarão

 

Quem gosta de vitamina

E faz suco ou angú

Lá encontra muita fruta

Pinha e jaca ou umbú

Graviola e genipapo

Manga-espada e cajú

 

Todo tipo de hortaliça

Se encontra nesta feira

De jiló à batata-doce

E jerimum de primeira

Inhame pra alegrar

Quase toda cozinheira

 

Falando em gastronomia

Ali se bebe e se come

Acompanha a macaxeira

Carne de sol de renome

Com manteiga de garrafa

Ali ninguém passa fome

 

O bom apreciador

Dos doces regionais

Vai encontrar quebra-queixo

Cocada e outros mais

Sai de lá lambendo os beiços

Com gosto de quero-mais

 

A popular rapadura

Já tão tradicional

E o doce pé-de-moleque

Come-se até passar mal

São parte da culinária

Típica e regional

 

E para molhar o bico

Tem muito mais que cerveja

Tem cachaça de alambique

Sem a qual não se festeja

E bebe-se cajuína

A bebida sertaneja

 

E fazendo juz ao nome

Lá também tem passarinho

Periquito e papagaio

Pato e pinto amarelinho

E se compra até cachorro

Quando ainda é filhotinho

 

Todo tipo de mazela

Lá se cura com pomada

E se esta não servir

Nunca falha a garrafada

Ou basta um chá de cipó

E a pessoa está curada

 

Se o problema é mandinga

Do mundo espiritual

Lá tem tudo que precisa

Para afastar esse mal

Seja feitiço ou trabalho

De magia natural

 

Na terra dos pés-descalços

E também descamisados

Moda lá não é problema

Só que é tudo misturado

Vendem cueca semi-nova

E até sapato usado

 

Vou contar das profissões
De trabalho rotineiro
Lá tem profissional
Que dá duro o dia inteiro
Dizem os exagerados
Que também tem trapaceiro

 

Vendedor pra todo lado

Tem dentista e chaveiro

Manicuri e oculista

Artesão e açougueiro

E numa barbearia

Se vê até cabeleireiro

 

Todos visitam a feira

Ela não é elitista

Pois o povo vai à ela

E vai também o turista

Lá se viu celebridade

Que nem queria ser vista

 

Por lá também aparece

Todo naipe de artista

Já se viu trio de forró

Vez em quando um repentista

E o poeta de cordel

Que chamamos cordelista

 

Um famoso personagem

Figura bem conhecida

É o Galego do Veneno

Que vende até raticida

Para vê-lo entre na fila

Pois a fila é comprida

 

É por tudo isso que eu digo

E não digo isso sozinho

Só conheceu Maceió

Quem foi à este burburinho

E jamais vai esquecer 

A Feira do Passarinho

 

 

 

"O JUSTO DESTINO DO PISTOLEIRO JUSTINO"

                         cordel de Tchello d'Barros www.tchello.art.br

 

 

Vou contar uma estória

Dessas que fala em destino

Peças que a vida prega

Que parece um desatino

É o caso sem igual

De um sujeito imoral

O pistoleiro Justino

 

Começou há muito tempo

Lá no sertão do Nordeste

E na prova da moral

Ele não passou no teste

Vagabundo arruaceiro

Mentiroso e trapaceiro

Era um cabra-da-peste

 

Por uma moça bonita

Ficou muito apaixonado

E fez logo uma proposta

Pois queria ser amado

Mas por não lhe merecer

Ela disse não querer

Ele por seu namorado

 

Ele esbravejou de raiva

E o não não aceitou

Fitou os olhos azuis

Desta que lhe rejeitou

Desprovido de moral

Parecia um animal

E a virgem estuprou

 

Um rapaz que amava ela

Apesar de não ser forte

Quis tirar satisfação

Não é seu dia de sorte

Num combate estremecido

Fura o olho do bandido

Mas encontra sua morte

 

Naquele trágico dia

Quando se ouviu o sino

Toda a cidade chorou

Pelos crimes de Justino

Desonrou a moça linda

Matou um rapaz ainda

Se tornou um assassino

 

Fugiu logo da cidade

Pois iria ser linchado

Ele escapou da justiça

Mesmo sendo um culpado

E virou um fugitivo

Apenas pelo motivo

D'ele querer ser amado

 

E nove meses depois

Que tudo aquilo ocorreu

Ele soube da notícia

De seu filho que nasceu

Tinha um olho castanho

Outro de um azul estranho

A mãe no parto morreu

 

Assim que soube de tudo

Pensou logo em se matar

Conviver com tanta culpa

Não dava para agüentar

Mas sendo um assassino

Odiou o seu destino

E quis de Deus se vingar

 

Com as mãos sujas de sangue

Virou profissional

Respeitado até mesmo

Na esfera policial

Pois matava até bandido

Um matador destemido

Para o bem e para o mal

 

Por ter apenas um olho

Bem lembrava Lampião

Não tinha medo de nada

Já não tinha coração

Este cruel pistoleiro

Trabalhou pra usineiro

E coronéis do sertão

 

Cada vítima infeliz

Tinha um destino fatal

Apareciam jogados

Corpos no canavial

Com as mãos estrangulava

Ou então apunhalava

O resultado era igual

 

Pra encomenda importante

De crime sofisticado

Como apagar um prefeito

Ou matar um deputado

Preferia arma de fogo

E pra jogar bem o jogo

Cobrava preço dobrado

 

Depois de cada serviço

Um alívio sentia

Seu corpo ficava leve

Sua alma bem vazia

E se vingava de Deus

Matando os filhos Seus

Assim ele se iludia

 

E com o passar do tempo

Virou mestre do ofício

Já nem piscava o olho

Na hora do sacrifício

De mais um executado

Era só mais um finado

Nem lembrava do início

 

Quando era contratado

Para uma nova missão

Não perguntava motivos

Agia com discrição

Não tinha pena do morto

Depois ficava absorto

Fazendo uma oração

 

Então o justo destino

Um dia lhe alcançou

Quando foi matar um padre

O padre lhe abençoou

Disse que sua saída

Era escolher outra vida

E depois lhe perdoou

 

Naquela noite de lua

O bandido estremeceu

Sentiu que era um aviso

Que o destino lhe deu

Repassou em sua mente

Sua vida num repente

Tudo que lhe aconteceu

 

Se passaram tantos anos

Na estrada da perdição

Fez tantas barbaridades

E caiu em tentação

Não pensava que um dia

Sua vida mudaria

Nas palavras de um perdão

 

Decidiu naquela noite

Recomeçar sua vida

Aposentar suas armas

Com a alma arrependida

E qualquer atrocidade

Por bem e pela verdade

Seria agora esquecida

 

Mas faltava terminar

Um serviço encomendado

O cliente já pagou

A palavra tinha dado

E só depois desse crime

É que ele se redime

De todo o seu passado

 

O seu alvo desta vez

Era um sindicalista

Um jovem advogado

E lutador ativista

Poderosos lhe pediram

Pra matá-lo e exigiram

Não deixar nenhuma pista

 

Com a arma carregada

E apesar de decidido

Preparou a emboscada

Com coração dividido

Só mais este sacrifício

Daria fim ao suplício

Dessa vida de bandido

 

Quando encontrou o alvo

Pra cumprir o seu destino

Mirou no meio dos olhos

Gelou o sangue Justino

O olho azul outro castanho

Nesse encontro tão estranho

Conheceu o seu menino

 

www.tchello.art.br

 

 

Organização:

 Terezinha Manczak  

mural@stmt.com.br

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