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SENSO COMUM
“Não pergunte
por quem os sinos dobram,
pois eles dobram por ti.”
(John Donne)
Inicio essa crônica pedindo permissão ao escritor Thomas Paine para utilizar o
título de seu famoso panfleto, não com o intento de pregar uma dissensão entre
dominantes e dominados, como foi o seu caso, mas apenas para ilustrar fatos que
vivenciamos durante esse ano que finaliza.
Temos que Senso Comum é um saber que nasce da experiência quotidiana, da vida
que levamos em sociedade. É, por isso, um saber informal, que se adquire de uma
forma natural, espontânea, através do nosso contato com nossos semelhantes e com
os objetos que nos rodeiam. É um saber muito simples e superficial que não exige
muitos esforços; porém, apesar das suas limitações, é um saber fundamental, sem
o qual não conseguiríamos orientar nossa vida.
Mas, mesmo sendo imprescindível, o Senso Comum não é suficiente para
compreendermos a nós próprios e ao mundo que nos rodeia; se apenas nos
orientássemos pelos dados de nossa consciência natural, facilmente cairíamos na
ilusão de que as coisas são exatamente aquilo que parecem, nunca chegando a
perceber que existe uma abissal diferença entre a aparência e a realidade.
Com quantas situações não nos deparamos em nosso dia-a-dia, às quais passamos a
dar um tratamento casual, adotando-as como naturais dentro do sistema social em
que nos acostumamos a viver, de sorte que não nos preocupamos em julgar-lhes o
mérito, se são verdadeiras ou falsas ou, o que é pior, as suas qualidades morais
e éticas.
Lançamos, por preguiça mental, tudo à vala comum das coisas naturais e
imutáveis. O sol gira em torno da terra. Está bom, desde que ele nasça e se
ponha todos os dias no mesmo horário. A terra gira em torno do sol. Que assim
seja; desde que ele também nasça e se ponha todos os dias no mesmo horário.
Com esse procedimento e abdicando de utilizar nosso senso crítico e racional,
nos convertemos em presas fáceis de um sistema que nos tiraniza, permitindo que
outros nos impinjam os seus conceitos e suas verdades.
Tal realidade é perfeitamente constatável através das mais diferentes situações
e fatos que ocorreram nesse ano em nosso país e que, por entendermos que eles
expressam uma circunstância aparentemente normal, deixamos de examiná-los
através de critérios mais lógicos, ou, pelo menos, mais racionais, para se dizer
o mínimo. Vejamos, pois, apenas para recordar, alguns exemplos do que foi, na
visão do Senso Comum, aparência, e qual foi sua verdadeira realidade.
Na aparência, as diversas ações levadas a termo pela Polícia Federal, todas elas
recebendo nomes pomposos e insinuantes, praticadas sob os holofotes das câmeras
dos principais órgãos de comunicação, colocaram atrás das grades
mega-empresários, políticos, fiscais, magistrados, todos suspeitos de integrarem
quadrilhas especializadas em lesar o bem público. Na realidade, pouco ou nenhum
tipo graúdo se encontra preso. Muito pelo contrário, se têm notícias que muitos
deles continuam a exercitar o velho ofício sem temor a qualquer restrição. Na
aparência a moralidade; na realidade apenas demonstração de poder.
Na aparência o Senado Federal deu mostras de que tinha verdadeiras intenções em
apurar a verdade no caso Renan Calheiros; em conta disso paralisou as
atividades, para as quais foram seus membros eleitos, durante meses. Na
realidade o objetivo era tão simplesmente jogar para a platéia, ficar exposto à
mídia e, como bons confrades, não punir um membro do clã. Na aparência
demonstração de ética e honorabilidade. Na realidade ajustes de interesses
pessoais e financeiros.
Na votação pela continuidade ou não da famigerada, combatida e até agora pouco
explicada CPMF, assistimos a uma verdadeira aula magna de como dissimular a
aparência da realidade, demonstrando como nossos áulicos representantes são
mestres na arte.
Na aparência defendiam o povo sofrido dos efeitos do brutal peso dessa
contribuição, que pasmem, mesmo considerando toda a cadeia produtiva, não onera
em mais do que dois por cento o produto final; sendo, pois, insignificante,
quando comparado aos tributos que integram os preços da cesta básica ou, quiçá,
os combustíveis. Na realidade essa contribuição, desde a sua criação, se
constituiu em um autêntico vetor à sonegação, porquanto se tornou fácil para a
fiscalização identificar as transações dos contribuintes pela simples comparação
dos valores das contribuições retidas pelos agentes financeiros. Na aparência o
alívio do peso de mais impostos. Na realidade a proteção para o grande capital,
cujas transações nem sempre são muito transparentes.
Na aparência os interesses sempre insaciáveis do executivo foram vencidos. Na
realidade outro tributo será criado para apaziguar ânimos e acariciar egos
ressentidos.
Por isso e por causa disso, competem a nós anônimos cidadãos, aprendermos a nos
guiar menos pelo Senso Comum e mais pela nossa racionalidade; e, através dela,
sermos capazes de separar o que é aparência do que é realidade, sob pena de não
o fazendo, de nada nos adiantará perguntar por quem os sinos dobram, porque
sempre estarão dobrando por nós.
Noel Reis.
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