UM PALCO, UMA HISTÓRIA
Por Luiz Eduardo Caminha
Não é preciso
ser um historiador ou um descendente de famílias germânicas, sejam elas ou não
dos colonizadores, para saber a importância que a Rua 15 de Novembro, antiga
Würststrasse, guarda com esta encantadora cidade que bem poderia estar em
qualquer ponto do mapa da Alemanha, mas que graças à abnegação de Hermann
Blumenau, se edificou e consolidou às margens do Rio Itajaí-açú.
Através dela e, também, do atual Centro Histórico, a Stadtplatz do século XIX, a
história desta rica cidade desfilou no tempo. Sua gente, sua cultura, suas
tradições, uma a uma foram se impondo na justa medida em que estes dois sítios
constituíram-se no epicentro, no vértice, dos acontecimentos.
E não foi diferente nos eventos que, já no século XX, almejaram se impor ou
permanecer como marcas indeléveis do tempo em que esta cidade foi evoluindo.
Assim foram as passeatas, os grandes comícios políticos e até a curta passagem
daquele de cujas leis e xenófobas práticas os blumenauenses gostariam de
esquecer, Getúlio Vargas. Foi neste sítio diametral da história de Blumenau que
os Clubes de Caça e Tiro fizeram seus desfiles engalardados de medalhas,
troféus, conquistas, e um sem fim de trajes típicos, danças folclóricas,
bandinhas, “liedes” e suas honrosas bandeiras, seja ainda nos tempos coloniais,
seja no início do século passado, ou depois de sua re-invenção nos idos de 1980.
Assim aconteceu, também, com a maior festa da cerveja fora dos limites da nação
alemã, a Oktoberfest.
E é esta identidade cultural da rua com seu povo, do centro da cidade com sua
cultura que os novos migrantes, aqueles que vieram seja no viés econômico da
busca por oportunidades, através do comércio e dos serviços, seja no viés
político de uma cidade que sempre projetou líderes para todo o Estado de Santa
Catarina, precisam e têm o dever de respeitar.
Não é, pois, abusivo afirmar que ninguém, seja um próspero comerciante, seja um
bem sucedido executivo, seja um político que daqui pretendeu ou pretende
projetar-se, absolutamente ninguém tem o direito de usurpar esta condição
central destes dois sítios urbanos que, pouco a pouco, se transformaram num
sinônimo da cultura blumenauense. Nenhum pretexto, por mais lógico que tentem, é
ou será suficiente para diminuir a importância destes palcos da cidade.
Colocar-se contra esta verdade é atentar contra a história, contra seu povo,
contra sua cultura, suas tradições.
Foi este viés que moveu, no ano 2.000 - epílogo de um e nascedouro de outro
século – o Instituto Blumenau 150 anos a delimitar estes sítios, e em especial a
Rua 15 de Novembro, como palco das festividades de150 anos da cidade. Assim foi
com os Encontros de Stammtisch, uma idéia a muito alimentada pelo saudoso
Horácio Braun e concretizada graças aos esforços do próprio Instituto, do
Programa Stammtisch da TV Galega, do Blumenau Conventionn & Visitros Bureau e
daqueles dezessete grupos pioneiros que, àquelas alturas, nem sabiam ao certo se
constituíam ou não um stammtisch.
Também foi esta a razão que fez a Comissão Organizadora adotar como estratégia a
consulta ampla e democrática aos agentes da festa, os stammtische, o
desenvolvimento, as regras, os regulamentos e as datas de todos os eventos. Por
uma decisão eivada de interesses políticos, conseguimos descolar os Encontros da
Administração Pública, muito embora reconheçamos que, sem o seu concurso, nenhum
deles poderia ser viabilizado, dado que é à Prefeitura e seus Organismos
Administrativos que têm o poder de fechar a Rua 15 ao trânsito, desviar o fluxo
dos transportes, limpar a rua após cada evento, dar condições de infra-estrutura
como água e sanitários, etc. Afora estes imprescindíveis apoios, em momento
algum, o evento aconteceu com aporte financeiro que não dos grupos e de alguns
poucos patrocinadores. Temíamos que, à mercê do Poder Político, a festa poderia,
a qualquer tempo, depender da sempre egocêntrica postura de algum Secretário de
Turismo ou Prefeito.
E assim foi até que, muito mais por necessidade da própria Comissão e pela
oportunidade que surgia – o Coordenador da Comissão passou a ser o Secretário de
Turismo – Encontros e Poder Público se fundiram. Era, àquelas alturas um risco
inevitável. Entretanto, esta circunstância só se constituiu em risco por ocasião
da inauguração do novo Parque da Vila Germânica.
Àquelas alturas o berreiro de alguns poucos comerciantes da XV incomodava e
deixava os organizadores frustrados. Eles se achavam no direito de atentar
contra a cidade e sua história, como se a rua fosse um “Shopping Center”, onde
tivessem comprado seus espaços cativos e onde estivessem pagando, aos cidadãos,
preços absurdos deste condomínio que só existia em suas cabeças.
Em que pese o resultado da enquete realizada por este site, onde 92% queriam o
evento na XV, venceu a “boca maldita”. A festa foi para a Proeb e, juntamente
com ela, aquilo que parecia óbvio: uma escalada sem precedentes de desistências
e a ausência completa do público, que mesmo não fazendo parte de qualquer
stammtisch, acorria à XV para rever amigos, brindar Blumenau, reviver a alegria
de uma cidade em festa.
Acabou-se o grande charme motivador da festa e, a continuar naquela teimosia,
seria apostar em mais um evento que nossa cidade já teve. Em tempo, e para esta
edição, o Sr. Prefeito Municipal João Paulo Kleinubing, reconheceu o erro. A
festa está de volta ao seu cenário maior, ao palco da cidade, à imemorável
Würststrasse. Esperamos que isto não seja apenas um soluço de ano eleitoral. Que
esta decisão seja perene, enquanto os grupos e a cidade acharem que a festa é
boa naquele local, naquele palco, escrevendo mais um capítulo da história desta
cidade.
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