A RE-INVENÇÃO DA TRADIÇÃO

Luiz Eduardo Caminha

  

 

Quando Otto Von Bismark, em 1870, reunificou o Estado Alemão, procurou amealhar dos territórios que passaram a compor a Nova Alemanha, todo o tipo de tradição e aspectos culturais populares, além das ditadas pelos Governos, que pudessem dar significado a “Cultura Alemã" do Novo Estado.

As danças, as “lieds” (canções populares), os dias consagrados à alguma efeméride histórica ou religiosa, os trajes e algumas tradições ditadas pelo próprio estado, passaram a fazer parte de uma grande “colcha de retalhos” que se mostrava harmônica e unissonamente como o retrato mais fiel da gente tedesca.

A par disto, algumas tradições culturais loco-regionais, permaneceram restritas a sua região conferindo uma identidade própria de seus habitantes. Neste caso, os “Tabakskollegium”, que se reuniam para fumar "Tonpfeifen" - literalmente cachimbos de barro ou de cerâmica - já eram conhecidos de todas aquelas regiões reunificadas e permaneceram como mais um item da vasta tradição germânica. Já os Stammtische, só eram conhecidos em algumas regiões como nos arredores de Berlim e na Bavária.

Cedo, cedo, porém, dada à popularidade da cerveja os Stammtische se espalharam por toda aquela nação, e não era raro encontrá-los, pelo menos um, em cada taverna ou cervejaria.

Hoje, quem visita o site yahoo.de vai perceber grupos que se reúnem diariamente, uma, duas, ou mais vezes por semana, quinzenalmente, uma vez por mês ou, ainda, eventualmente.

O visitante vai notar também que muitos grupos associaram às suas reuniões de bate-papo, de “happy-hour”, alguma outra atividade comum a todos. Assim, encontrará, ao contrário do que pensam alguns desinformados, grupos que se reúnem para planejar viagens, outros que são amantes das moto Java ou dos carros BMW, grupos de técnicos de futebol e até grupos que se reúnem virtualmente, via internet/chat - cada membro com sua marca de cerveja predileta à frente do computador.

Nossa observação resume-se a uma grande questão levantada por algumas pessoas que só conhecem o assunto superficialmente e afirmam categóricos, como se fossem os donos da verdade:

“Os Stammtische de Blumenau e outras regiões brasileiras não são verdadeiros Stammtische. São diferentes dos alemães. Deixaram esta tradição se contaminar por brasileirismos e confundem tudo”.

Tais profetas da inverdade estão totalmente enganados. Por aqui, os primeiros Stammtische, como aliás na Alemanha, reuniam-se apenas com intuito de bater-papo, jogar conversa fora e tomar alguns drinks. Mas, a Pesquisadora Histórica Edith Kormann já detectava alguns Stammtische que se reuniam para fazer tudo aquilo e, mais, jogar skat.

Nos dias de hoje, entretanto, diríamos que, em Blumenau, são poucos ou nenhum Stammtisch que se reúne com o intuito inicial. A maioria deles – ou quase todos- agregou uma outra atividade social as suas reuniões. Uns associaram a culinária, outros o futebol, alguns ainda a bocha, e por aí afora. Mas o cerne da tradição foi mantido.

E, embora a Era Vargas tenha feito quase que sumir o termo alemão STAMMTISCH, com a criatividade brasileira, estes grupos se travestiram em Patotas, Amigos de, Clube dos, Segundaferinos, terçaferinos disto ou daquilo.

Quando o Programa surgiu, quase que numa neo-pedagogia, boa parte do tempo foi gasta para mostrar, a estes grupos, que nada mais eram que autênticos Stammtische. E, com o advento dos Encontros, uma festa de rua (Strassenfest) aonde estes grupos vinham se reunir a outros (Stammtischtreffen) acabamos por inventar (ou, segundo Erick Hobsbawn, reinventar), uma tradição que não existe em qualquer parte do mundo e que, felizmente para as raízes culturais, já vem sendo imitada em outras cidades aonde os Stammtische existem.

A vedete de tudo, portanto, não é o Programa Stammtisch, a TV Galega, o Instituto Blumenau 150 anos, o Convention & Visitors Bureau, o Sindlojas, este ou aquele cidadão. Estes foram, com o devido mérito, os apaixonados que serviram de instrumentos de resgate.

Porque, as grandes vedetes são os grupos que, mesmo com a repressão Varguista, mantiveram mimetizados, em outras nomenclaturas, esta tradição tão própria da Alemanha e de suas colônias.

 

Luiz Eduardo Caminha

 

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