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2010
parte
02
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volta
Retomamos, após um período de ausência, nosso Mural das
Letras. Junho é mês de vôos livres para nossos poetas e
prosadores e como é mês de prosa e poesia livres deixo-vos à
vontade para degustarem livremente a diversificação que
nossos colaboradores proporcionaram. Entretanto, tenho que
registrar aqui meus sinceros agradecimentos a todos os
poetas e prosadores que nos enviaram seus textos. A
receptividade de meu apelo surpreendeu-me. Tanto que
dividimos o Mural de Junho/Julho em dois capítulos com
quatorze texos em cada um. Tenho certeza que vocês serão
surpreendidos.
Quero-te só
para mim
Augusto de
Abreu
Sem nenhum pudor mostras teu corpo
para quem quer que passe.
Não te escondes,
pelo contrário,
mostras-te como vieste ao mundo
e todo mundo que te olha
pensa em comer-te
não apenas com os olhos...
Os homens tocam teu corpo...
Indiferente, não demonstras sentimento algum
e nada falas.
Como muitos,
eu te quero só para mim.
Sorte a minha
depois de tantas tentativas,
levo-te para casa,
preparo a mesa, sirvo o jantar,
tu és somente minha,
grelhada ao molho de alcaparras,
gostosa tainha.
ELOGIO
Célia Lamounier de Araújo
Confidente
amado confidente
que paciência infinda
a me escutar!
Tu és o lago calmo
onde despejo
a mágoa e a desilusão
águas revoltas de meu mar.
Se não te pudesse mais falar
não sei se poderia
tanto peso suportar.
Tu és minha alegria
meu farol de guia
teu silêncio é meu luar.
www.celialamounier.net
Olho
os céus
Olho
teus olhos e
vejo azul
Rasgo
os céus
e
entranho nos
seus
claustros
ofuscantes...
Vago
em teus
olhos e penetro
cantos impenetrantes...
É
como a brisa
É
como o hálito
E num momento
não é mais...
Foi-se...
Virou-se numa
lâmina avessa
transparente
translúcida
úmida...
Transformou-se
num absinto
neste recinto
e já não sinto...
Perfumes espargem
seu odor.
Se
ando, não sinto.
Se
sinto, não ando.
Vê-se
em redor:
- há
o redor.
Vê-se
o mundo:
-
ainda há mundo!
Vê-se
o pensamento!
Toca-se a alma e
pisa-se no invisível.
O que
foi extinguiu-se
como imagem
no
espelho d’água...
O que
foi, foi.
Agora
reluz o
céu em chamas,
arde o olho
de estudar,
de ler,
de escrever,
de ver...
queima o sol
a pele,
a flor que fenece,
a hora que se esvai...
Corre
o tempo.
Mas
fica o agora.
Ellen Crista da Silva
2004
Gaia, matriarca nossa.
Nada que se possa
fazer é feito
para deter o efeito
da ação da humanidade.
Corremos em direção a irracionalidade.
Ferimos a mãe terra, a natureza.
Porém, tenha certeza
que tudo retorna,
não no “agora”,
mas em alguma hora
algum dia,
Esquecemos da simetria.
Gaia, deusa da mitologia,
deusa da terra, nossa genitora,
força criadora,
força elementar
que conseguiu gerar
um mundo equilibrado.
Num sentido figurado,
Gaia é meio ambiente.
Homem, ser inconsciente,
provoca enchente
ao obstruir riacho com lixo.
Nosso progresso, puro capricho.
Chaminés vomitam veneno gasoso
e como num ciclo vicioso,
a chuva ácida contamina e corrompe.
Um Equilíbrio que se rompe.
Felipe Gruetzmacher
CRÔNICA PARA NINGUÉM
Não faz bem perfeição, a nada, a ninguém. Não é salutar
tentar ser melhor nem para si, tampouco a ninguém, pois a
cada qualidade adquirida, mil defeitos se afloram,
mil defeituosos se arvoram a sobreporem sobre ti mais outros
mil defeitos que nem possues.
Por pior ainda, a cada qualidade adquirida, crias ainda a
capacidade de ver nos outros e em ti mesmo quantas
qualidades e defeitos há.
E justamente, quando te curas do defeito de achar que
somente nos outros há defeitos e descobres que em ti também
existem, é que se assomam aos outros, mais mil outros
defeitos que antes não vias. E a ti também!
E, pelas vias da decepção e do desencontro é que encontras,
nessa busca insana da perfeição, a terrível constatação de
que; se não tivesses defeitos, não sofrerias com os alheios
também.
Mas, por princípio, e válido, tens que seguir, tens que
lutar, tens que criticar e curar os defeitos em ti e nos
outros...
Eis aí o "murro em ponta de faca" que dá cada simples árvore
ao tentar estender sua folhagem ao sol, acima das outras
e... Breve amarelam aquelas folhas que o vento toma para si
e logo após deita-as ao chão para que de adubo sirvam, a que
outras árvores cresçam.
É isso enfim, que a vida faz com nossas qualidades:
soterra-as sempre, sob a égide dos defeitos alheios, pois a
cada crítica que impetras, mil defeitos te são impostos para
que escondam e soterrem tua crítica.
Em suma, podes dar mil flores e talvez nenhum jardim vejas
em tua vida, mas no momento em que deres um só espinho, em
ti mesmo ele será cravado por toda vida. Podes aceitar e
esquecer até, mil espinhos que te deram, mas no momento em
que te derem uma flor, tens que agradecer e bater palmas
pelo favor. Oh, sim! Bater palmas pelo favor! Que favor?
Aguçaram-te agora mais um defeito? O sentir-se orgulhoso,
porque aprovado pelos alheios? Justo aqueles, tão cheios de
defeitos que te causaram opróbrio por críticas injustas,
indevidas? O que fazes de tua vida? Buscas a perfeição?
Ah! Não! Impossível! Que maldito defeito tens, esse de
buscar a perfeição...
Jairo Pacheco Martins
poeta / escrito / revisor de textos
Ecos da Insensatez
Ligi@Tomarchio®
Flores voando
pássaros plantados no montes
remotos, enevoando pensamentos
da loucura doce do amor.
Qual a dor resiste
ao clamor de um coração
que voa apesar do chão?
Pura demência feliz
do poeta, ator, atriz
cantando, dançando, voando...
Ecos da insensatez pura
da criança imatura, real
princesa do Olimpo
sem catástrofes nem lágrimas!
Ela vive agora e sempre
um voar sem nuvens
o vago olhar dos insanos
as correntes leves do som imaginário
a soberania dos humildes...
Vê tudo a serviço do Universo
serve e serve-se dele
canibal que é
alimenta-se de si mesma!
Da gruta soa ao longe
ecoando na vastidão da existência
sua voz rouca, frenética
saudando a grande incógnita
da vida e morte a se descortinar
no âmago da Terra.
SP – 16/06/2004 – 17:05
Carta a um amigo distante:
(Doídamente,
Marcia Agrau)
O tanto que eu sinto falta de você
de lhe falar, de lhe ver,
se torna uísque nos copos com gelo
e ao fazê-lo,
se tomar assim,
me toco
que cada copo
é uma fase,
uma frase
completa
da poeta
que não esquece o nome
e o sobrenome
do amigo retirado e exilado.
Do convívio da gente,
tão distanciado...
E lembro, então,
os papos-coração,
papos-cabeça até,
que a vida reuniu em nós,
nos deu a voz,
que a vida fez dar pé.
E, sabe como é,
eu fico assim
nostálgica e bêbada porquê
me lembro de você
e me lembro de mim
e como eu era
em pleno coração e primavera
a sensibilidade adolescente
na gente já madura,
embora pura
e a vida em volta
pra você pura revolta
e a minha organizada,
assim guardada
de ser rebelde,então,
que a rebeldia passara-me mais antes
e a alegria
sucedera-a no encontro com o amor.
Se for
para voltarmos a nos vermos
e novamente nos perdermos
eu não quero.
Mas quero tanto, esta saudade imensa
que abrange tudo o que vivemos, pensa,
recorda o que foi isso.
O compromisso
da irmandade,
o fraterno que se expôs
e retorna no tempo como eu:
Vai ver como era bom sermos nós dois
naquele tempo passado tão recente
quando éramos tão juntos, tão irmãos,
tão amigos e tão gente.
ASNEIRAS
Maria de Lourdes Scottini
Heiden
Asneiras...
Um monte de asneiras
Vem-me à cabeça.
As asneiras se vestem de formas variadas
Camuflam a bagunça interior das gentes.
Elas propõem soluções
Soluções para o caos com mais caos.
A terra sofre
Os homens sofrem
Crises financeiras
Catástrofes ambientais
Vidas se perdem
Muitas vidas.
Todos ficam condoídos
Por um breve espaço de tempo...
Depois as cifras retornam
Os tronos sustentam as ambições
As mentes se contorcem
Na tentativa de obter mais.
Este mais que vem
Com juros e correções.
Mas isso não importa.
O importante é ter
O ter e o ser
Duas faces da mesma pessoa
O ter e o ser
Duas tendências
Duelo de consciências
Não é possível brecar o desenvolvimento.
Depois a conta será paga...
Qual o preço?
Mais vidas!
Mas isso não tem importância
O mundo e assim
Os que trabalham para a manutenção
Da ordem ou do caos
Sabem disso
Mas não se opõem.
Pensarão nisso depois
Os noticiários terão o que transmitir
Os homens o que reclamar
É disso que a gente vive.
Começar de novo?
Solução insolúvel.
A FORMA
A forma de forma formada
No espelho imagem apreciada
Estante de livros aguarda
Escrita formada
Espera ser devorada
Interrogação aponta código
Mundo encontra o sim o perdão
Vigilantes invisíveis molham o chão
Onde anda a forma que cresce o pão
Muitas pegadas deixando a razão
Aventureiros enfrentando avalanches
Casa de sapê trazendo alegorias
Esplendidos raios matinais
Olhos penetrantes
Cintilam no aroma do café
Janelas rangendo as dobradiças
Paisagem serena
Brisa fresca
Saudade bateu
Como velha
Poesia.
Maria Tomio Saes – Mary
Blumenau, 11 de Fevereiro de 2010.
NOSSO RECADO EM
MELODIA
Marisa Cajado
Se da dor fazemos rima
Em ritmo de canção
Ela mesma nos ensina
A torná-la oração
E se a nossa poesia
For alavanca de ação
Para que um dia
Haja paz e união
Nosso recado em melodia
Não terá sido vão.
RESSURREIÇÃO
Rosane Martins
Ficar pra sempre presa à laje
Cimentada à lápide, frio da pele morta
Gelo de pedra, úmido de chuva
Do inverno antecipado
Morte é gelada
A terra é fria
A morte cinza
Enquanto ela me sorria de lábios colados
Chorávamos tanto e quanto possível
A morte não me falou do vazio que viver é
Morte má, mazelas!
Vieram quase todos e alguns outros
E olhavam para o que não era ela
checavam meu sofrimento
Morto é frio
Morrer não é descanso
É um desespero só!
Seu corpo foi baixado aos poucos
Em menos de sete palmos
Sem terra, sem hinos e salmos
Na mão o celular para coisas urgentes
Um cigarro para depois do orgasmo
E nenhuma possibilidade de uso
Flores que não dão cor, nem perfume
Lágrimas que não significam vida
Nem limpeza do tempo que passou
Ela se foi
Deixou a mim como herança, na esperança da
ressurreição!
A Lição do Lápis Com
Borracha
Para Paulo Cesar de Castro,
Porto Alegre-RS
Colhe as flores mas
larga-as
Das mãos mal as olhaste
Senta-te ao sol. Abdica
E sê rei de ti próprio!
Fernando Pessoa
Lembra-te daqueles tempos, em que os lápis da marca
Castelo
Vinham te permitir construir sonhos e escadas para o
alto?
Desenhar era só deixar correr o traço, o risco, e tu
ali, pueril
No Grupo Escolar colhia as primeiras letras, sons e
palavras...
Lembra-te quando erravas, e a professora ensinava o
certo
Que teu peito pueril medrado se afogava em floração de
lágrimas?
Mas a mestra vinha e te tocava com um afeto cheio de
graça
Que eras de novo um canteiro para muito bem ser semeado
Pois lembra-te ainda, quando escrevias as tortas vogais
Quando soletravas o caminho suave das primeiras aulas?
Então o pito da mestra, aqui e ali; pois quem ama
corrige
E o pito-carito de um pirraceiro a rir de ti e das
acontecências
Pois um dia a professora de olhar de cor do céu e mãos
de anjo
Mostrou-te o outro lado do lápis: feito uma metáfora
A qualquer momento da vida, nas trilhas e nas
vicissitudes
Poderias refaze o caminho, apagar, recomeçar, tentar de
novo
Essa é a lição da vida, a Lição do Lápis com Borracha
Aprendemos; lucros e perdas, cantagonias e louvações
Mas há uma força que nos alerta, um mestre universal
Um anjo-da-guarda que volta de novo para nós e nos provê
Aprendeste assim a lição da primeira infância e refletes
Refazes os planos, ouve amigos, sonhas, labuta, espera
Tudo de novo, apagando desacertos e os erros das
tentativas
Na sábia lição de tentar sempre para aprender técnicas
de voos
Por onde fores, piá, guri, curumim, moleque, homem
crescido
Longe de casa, mas dentro de ti - tua infância levas
sempre contigo
Terás sempre a Lição do Lápis com Borracha para te
fazeres vencedor
E dizer ao fim da jornada que erraste e acertaste no
sudário das somas
Porque como o lápis veio da árvore e a borracha também
Geraste um livro, plantaste um filho, escreveste uma
vida
Com a eterna lição de tentar, evoluir, mudar, acreditar
sempre
Lição da mestra que te ensinou; que enfeitaste com lápis
de cor
Da vida só levamos mesmo o amor e o humor que deixamos
E a saudade ainda é a maior e a mais pura forma de amor
Por isso continua seus traços, desenhos, escritas e
livrações
Páginas de vida colorindo teu aprendizado de vitórias
feitas a mão.
Silas Correa Leite
Estância Boêmia de Itararé, Santa
Itararé das Letras
Site: www.itarare.com.br/silas.htm - E-mail:
poesilas@terra.com.br
Blog premiado do UOL: www.portas-lapsos.zip.net
A casa poética
Não existe casinha mais poética que a casa de um pescador.
Tudo nela se reveste de simplicidade, cores e aromas. Um
cenário onde se descortinam madrugadas frescas e douradas de
aurora. O mar batendo quase à porta da cozinha. O rumor das
ondas e a brisa do ar marinho. Se um assovio mais forte no
meio da noite açoita as paredes do quarto, o morador fecha
os olhos e evoca lembranças de velas brancas e cardumes
cintilantes passando ao lado da embarcação. Na cozinha,
pouca coisa é necessária. Basta uma pia para limpar o peixe
e lavar a louça. Fogão à lenha, forno para assar o pão.
Geladeira e mesinha para apoiar os pratos. A rede de
algodão, entre dois ganchos, estica os dedos de fios grossos
e acaricia o corpo cansado do marujo. Uma velha canoa
pendurada fora de casa guarda em seu casco as marcas do
tempo. Histórias de amor e perdição. Ondas mansas e bravias,
tempestades, naufrágios, salvação e morte. Otto mora numa
casinha assim. Toda caiada de branco e decorada com madeira
de demolição. Paus roliços recolhidos na praia ornam as
escadas do mezanino. Ele não vive só da pesca. Mantém um
pequeno estaleiro e vive do jeito simples que vivem os
homens do mar. Enquanto constrói seus barcos , planeja a
próxima aventura, que tanto pode ser para Ilha Bela,
Austrália, Havaí ou Patagônia. Mas, no seu cantinho de
mundo, protegido por pedras e mata nativa, ninguém é mais
poeta que ele. Quando escreve, fala de maçãs e soldados,
abandono, hipocrisia e solidão. Ao anoitecer, antes do
jantar, acende tochas de querosene para não ofuscar a luz da
lua cheia. Deita-se na rede. Toma o violão e dedilha uma
canção de amor.
Terezinha Manczak
APRENDIZADO
Eu estudo numa universidade
Cercada de grama e de capins verdes
Com florinhas amarelas.
Não é como os pradinhos verdes
Com florinhas amarelas
De onde tive que fugir
Depois da Tragédia das Águas.
As florinhas amarelas, aqui,
Tem longos caules
que são como fios de magia!
Eu estudo numa universidade
Cercada também de muitas árvores
Inclusive Araucárias angustifólias.
O ar desta universidade, de manhã,
É adstringente como se a gente acabasse de escovar os dentes
E me dizem que no inverno fará muito frio.
Eu estudo numa universidade
Que tem fantásticos professores
Que dão fantásticas aulas.
Pena que às vezes eu tenha sono
Por causa da altitude em que ela fica.
Há um cachorrinho que late aqui por perto
Na universidade
E uma brisa inigualável.
Aqui se chama Centro Politécnico
Da UFPR
E tudo está rodeado de capim e grama
Com florinhas amarelas de longos caules.
É bom ter um tempo de silêncio
Dentro desta universidade adstringente
Onde há tanto o que aprender!
Curitiba, 17.03.2010
Urda Alice Klueger
Escritora
Organização:
Luiz Eduardo Caminha
dasletras@stmt.com.br
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