Agosto, dizem alguns, é mês de desgosto. Para nós do Mural
das Letras é bem o contrário. Mês de Agosto é mês de dois
gostos, em verso e em prosa. Deliciem-se com nossos poetas e
escritores. Tem pra todo gosto. A gosto, ora se não!!!
Deus os abençoe,
Luiz Eduardo Caminha
FAREJANDO O SUCESSO
por Geraldo
- Dona Aretusa, posso lhe dar
uma palavrinha?
- O que é Maria? Está com algum
problema?
- Eu mesma não, mas acho que os
seus filhos estão me deixando preocupada.
- O que a Aninha e o Gustavo
estão aprontando?
- Nada Dona Aretusa, são ótimas
crianças.
- Então o que deu em você
mulher, desembucha!
- É que vejo eles fazerem tudo
o que querem. Acho que isso não é bom.
- Ué, eles fazem tudo o que
querem porque podem. Têm condições, entende?
- Eu sei que eles têm condições
de ter tudo o que querem, mas não acho que isso seja bom.
- O quê? Você não acha correto
desfrutarem de uma boa condição de vida?
- Desculpe, não quis falar
isso. Estava pensando que pode ser ruim no futuro, eles
terem todas as vontades feitas.
- Ora, Maria! Aninha está com
nove anos e Gustavo com onze. São muito pequenos para
impormos regras mais rígidas. São apenas crianças e devem
aproveitar esta condição. Daqui a pouco tornam-se adultos e
aí sim, a coisa muda completamente.
- É justamente por isso que
estou preocupada. Na casa em que eu trabalhava antes, vi as
crianças crescerem com todas as vontades feitas. E quando
ficaram adultas, nada mudou.
- Bem, pode até ser que pais
relapsos façam a vontade dos filhos eternamente, mas
sinceramente este não é o nosso caso.
- Eu torço para que nada
aconteça, sinto muito medo.
- Medo, medo de quê? Os filhos
não são seus, ora!
- Desculpe, mas é que gosto
muito deles e não queria vê-los sofrerem.
- E desde de quando alguém
sofre por ter tudo o quer na vida?
- O problema é que nem sempre
nós vamos ter tudo o que queremos. Assim é bom estarmos
preparados.
- Olha aqui Maria, se a gente
pode dar, por que não dar? Você não está falando assim por
causa dos seus filhos que passam necessidade?
- Deus me livre dona Aretusa,
nem estava pensando neles. E em casa a gente se arranja bem
com o pouco que tem.
- É, mais seria bem melhor se
tivessem um pouco mais, não é mesmo?
- Sim senhora, seria bem
melhor.
- Então reze para conseguir ter
um pouco mais e poder dar aos seus filhos o que eles não têm
hoje.
- Isto já faço, mas
sinceramente não tou querendo comparar meus filhos com os
seus. Estou apenas querendo que eles não sofram no futuro.
- Quem os meus ou os seus?
- Todos, mas estava mesmo
pensando era nos seus.
- Deixe de se preocupar com
estas coisas e fique atenta ao serviço. É para isso que está
sendo paga!
- Está bem. Desculpe me
intrometer.
- Ainda bem! Só me diz uma
coisa que me deixou curiosa: eles se comportam de forma
diferente quando não estamos em casa?
- Olha, como é mesmo que a
gente fala que falta numa pessoa, quando ela tenta enganar
os outros?
- Ética, Maria. Falta ética.
- Então é isso. De vez em
quando eles não têm a tal ética. Pregam umas mentiras para a
senhora e seu Artur, mas eu até entendo. É que sabem que
mesmo que forem descobertos não serão castigados.
- Ora, castigo é coisa do
passado. Uma boa conversa resolve as coisas de forma bem
melhor.
- Outra coisa que noto é que
eles vivem sempre com pessoas ricas. Não sabem o que é a
pobreza. Acho que seria bom conhecerem outras coisas e assim
aumentar a conssença.
- Acho que você está querendo
dizer “consciência” não é mesmo?
- Isso mesmo. É bom também
saber fazer economia. Assim a gente pode no futuro comprar
coisas melhores.
- Ora Maria, eles têm tudo do
bom e do melhor.
- Mas se as coisas são fáceis
de conseguir não tem muita graça, a senhora não acha?
- O importante é conseguir,
seja de que forma for, e para isto estão sendo preparados.
- Mesmo que falte a tal ética
da qual a senhora falou?
- Bem, digamos que a ética é
importante, mas não é tudo.
- E se eu, para dar algo melhor
para os meus filhos, levasse um pedaço de bacalhau sem pedir
para a senhora.
- Ora, Maria, bem sabes que o
dia que não fores pontual, íntegra, responsável,
respeitadora e trabalhadeira, estás na rua!
- Eu sei, eu sei, é por isso
que acho que faço sucesso.
- Convenhamos, sucesso com um
simples emprego de doméstica?
- Um dia aprendi uma coisa que
achei muito importante e na qual acredito até hoje.
- O que é afinal?
- O valor do sucesso se mede
pelo que renunciamos para conseguí-lo.
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ACORDO DE CAVALHEIROS...
por Ilda Maria Costa Brasil
Numa tarde de maio, três
amigas encontram-se num shopping da capital gaúcha, na
área de alimentação. Conversa vai, conversa vem, a mais
velha do grupo avisa que tem um pedido a fazer e que
este não lhe pode ser negado. Fátima
e Soraia entreolham-se e, juntas, perguntam:
– Do que se trata?
Lia tranquilamente passou a
falar.
– Queridas, sei que estou
mais para lá do que para cá; por isso, quero que me
prometam que, após minha morte, vocês mandarão fazer um
quadro com uma foto minha do tamanho da porta do meu
refrigerador.
– O quê?
– É isso mesmo que vocês
entenderam! Depois, vocês terão de arrumar um lugar para
fixá-lo. Senão, a cada evento, cada uma pega numa ponta
e levam até o local.
Fátima começou a rir e
Soraia falou:
– Por que tão grande? Não
pode ser menor?
– Não. Lá de cima, quero
vê-las fazendo força.
– Só um pouquinho – falou
Fátima. Já trabalhei muito.
– Querida, a hora não é
para medir trabalho e, sim, para um “Acordo de
Cavalheiros”.
– Acordo?... Acordo?... –
repetiram Soraia e Fátima.
– Isso mesmo. Jurem!
Passados alguns minutos,
Soraia falou:
– Creio ter uma solução
para amenizar o peso do quadro. Fátima pede à Analise
para pintar uma tela tua à óleo. Ela adora quadros
enormes.
– Não! À óleo, não! Ficaria
leve demais. Quero um quadro grande e pesado.
As amigas entreolharam-se
novamente e falaram:
– Tudo bem! Pedimos ajuda
ao Nestor e a Nara.
– Nem pensar. A tarefa é de
vocês. Deixem os outros fora disso.
– Calma, Lia.
– Gurias, vocês não
entenderam nada. São vocês duas que deverão levá-lo,
mais ninguém.
Sorrindo, pegou a bolsa e
despediu-se de Fátima e Soraia.
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EINSTEIN - UMA
HISTÓRIA REAL
por Lígia
Antunes Leivas
Primeiro de abril de 2010. No folclore, reconhecidamente
dia "dos bobos", quando alguns 'pregam peças' para
'curtir' não só a tradição, mas o gosto de 'tirar sarro'
da cara dos outros. Mas para nós não seria bem assim...
Outono no hemisfério austral. Chegando mansamente,
temperatura tépida. No céu ainda a presença da lua
cheia. Linda!
Duas horas da madrugada. Na casa dormem tarde...
costume, gosto pela noite, pela madrugada e seus
mistérios, sua magia exercida sobre o invisível de cada
um de nós.
O cão fareja alguma coisa e vai para a rua quando o
portão se abre e chega, de longa viagem, seu dono e
amigo especial, sempre a lhe fazer festa desde o dia do
nascimento da 'ninhada' que viera farta: seis cãezinhos.
Todos foram doados, mas ele, esqueirando-se daqui e
dali, acabou ficando 'de lembrança'... todo branquinho,
sempre escolhendo retirar-se para um canto qualquer da
casa, ele ganhou o nome de "Sossó' - pela
individualidade e a pouca vontade de se juntar aos
demais. Enfim, foram-se todos. Menos Sossó. Talvez um
lance do destino, tendo em vista o que viria a ocorrer
posteriormente.
Nascido em 10 de fevereiro de 2001, lá pelo dia 8 de
março começou a dar sinais de algum mal, imediatamente
diagnosticado: cinomose. Sim, o cãozinho estava com os
dias contados. A luta foi ingente, mesclada com perda de
esperanças e denodo férreo!!! Eis que no dia 24 de abril
daquele ano (2001), após a própria clínica veterinária
ter sentenciado a 'condenação' do animalzinho, ele -
muito devagarinho -se dirige às tigelas sempre expostas
ao seu cambaleante andar e prejudicado faro e come o que
ali fora servido e bebe a água com soro no outro
recipiente: estava SALVO!!!
Nove anos se passaram.
"Sossó" cresceu escabelado, com pelo muito branco e
farto. Todo ele inteiramente branco! Vira-latas albino.
Mas não só... super inteligente!!! De "Sossó" passou a
chamar-se EINSTEIN ! Uma bela homenagem ao genial
cientista... também pudera: Einstein abre até portas com
maçanetas sextavadas!!! E sempre com os pelos
arrepiados!!!
...então... 1º de abril de 2010. Einstein na rua
passeando por perto. Voltaria, como em outras noites já
ocorrera.
3h da madrugada, 4 h... nada. Cadê o Eisntein???
Ninguém sabia... nem nós, nem os guardas da volta, nem a
vizinha que tivera o cuidado de telefonar para avisar
que o tinha visto entrando no pátio do colégio das
redondezas. PERDERA-SE!
Na mesma noite começamos as buscas. Por todos os cantos
possíveis e imagináveis. Nada. Já no início da manhã,
divulgação pelo rádio, pelos jornais, pela internet,
entre os amigos. Assim foram os doze dias seguintes.
Orações, pedidos, buscas. Esperanças quase perdidas.
Dia 12, 11h. Toca o telefone. O Hospital Veterinário da
Universidade avisa que a Prefeitura havia descarregado
lá no hospital uma 'leva' de cães recolhidos na rua e
parecia que um deles era o que procurávamos.
- Mas como??? Aí ??? Tão longe, em outro município !!!
De que jeito????? Por quê???
- Aqui temos as informações do S.O.S Animais e pelas
fotos que nos enviaram, parece que o seu cão está entre
eles. Se quiseres ver, às 14h nós abrimos.
Uma viagem de cerca de meia hora e estávamos no campus
da universidade. Entramos... aquela quantidade de cães
engaiolados, mal podendo se mexer. Numa da gaiolas,
EINSTEIN!!! Quando nos ouviu chamá-lo... foi
instantâneo: latiu, movimentou-se como pôde. E nós
ficamos engasgados, meu filho e eu.
Todo ferido, mancando, sangrando, roxo (remédio que é
aplicado para proteger os animais), faminto, sedento...
mas VIVO!
Hoje ele já está melhor - um tratamento rigoroso, boa
comida, muito carinho, nosso 'velhinho' está ativo. Se
vai ainda viver muito, não sabemos. Mas está conosco, em
casa, onde tem atenção e primoroso atendimento.
Encontrá-lo, para nós foi um milagre!!!
Da janela da sala ele olha os outros seis vira-latas (ao
longo do tempo foram chegando novos cães aqui...) que
correm pelo pátio e pelo canil e que parecem também
felizes com o 'parceiro' EINSTEIN de volta !!!
Afinal, para alegria de todos nós, EINSTEIN não é mais
um "desaparecido" !!!!
Lígia Antunes Leivas
Pelotas, RS, BR
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FLAGRANTE TRIBAL
por
Neida Rocha
Já passava das 17:00 horas quando o filho dirigiu-se à
mãe, após algumas horas de sono, depois de mais uma
noite agitada.
Eis o diálogo:
- Bom dia meu filho, ou melhor, boa tarde! Teus amigos
telefonaram e vem para cá combinar aonde vocês irão mais
tarde.
- Falô!
Neste instante a turma chega.
- Daí, galera!
- Qual vai ser o agito hoje?
- Pois é cara, não sei.
- Vamu repeti a de ontem?
- Tô fora cara.
- Há! Pega leve cara. Vamu lá!
- Pô cara tu sacou a mina? Tava a fim de mim e ficou com
o magriça.
- Daí cara, hoje tu fica com ela.
- Pó pará. Não tô afim de sobra, cara. Tô mais a fim da
galega. Tu sacou? A galega ficou parada na minha. Hoje
eu vôem cima. Dou umas bicotas e arrasto pra minha
caranga.
- Pega leve cara. Ela tá com o gorila do Jipe.
- Eu sou mais eu, cara.
- Então tá. A gente se encontra lá, valeu?
- Valeu!
- Até mais!
- Até!
E a mãe curiosa:
- Resolveram aonde vão hoje?
- Por aí!!!
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IDOLATRIA OU
RESSURREIÇÃO?
por
Pinhal Dias
… A Idolatria continua embrulhada, na expressão popular,
com algum assento na filosofia sistemática…
Com o devido respeito muitos clamam, nas suas efémeras
questões na hora da partida, de um amigo ou um seu ente
querido…
“Coitadinho(a) morreu!... Era tão boa pessoa… Agora tudo
acabou”…
Tudo isto admite-se, pela falta de conhecimento… Sabe-se
porém que o corpo é matéria e volta ao pó. Com a
esperança de uns; outros vegetam na escuridão da ilusão,
mas no fundo lá vão consultando os mortos… Ao ponto de
oferecem missas; outros embutidos na arte da magia
negra… Tudo isto é condenável aos olhos de
Deus… em II Timoteo 3:6 “Toda a Escritura foi inspirada
por Deus…”
Salve-se a Ressurreição de Lázaro (Jo 11:43); pela ordem
de Jesus “Lázaro, vem para fora!” – O Profecta … (IIReis
2:1)Elias que fora arrebatado… O Jonas que fora engolido
por um enorme peixe … (Jonas 2:10)
O Apóstolo Paulo estava convicto desta realidade e
escreveu… (Filipenses 1:23) “…tendo o desejo de partir e
estar com Cristo, (ungido) o que é incomparavelmente
melhor”
… (Mat. 28) Jesus ressuscitou ao terceiro Dia.
(João 11:25) – Disse-lhe Jesus: “Eu sou a Ressurreição e
a Vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá”
…
(…) Por lição eu já fiz a minha escolha e você amigo
continua a interrogar-se?
Pinhal Dias – (Lahnip) – Amora / Portugal
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Pavaroti e Caruso
por
Ernane N. A. Gusmão*
Sou um ser predestinado –
vejo e ouço todos os dias, Pavaroti e Caruso. Além
deles, contemplo extasiado, a seus lados, duas figuras
femininas redimidas – Mata Hari e Salomé. Caruso, só
houve um – ninguém o suplantou. Pavaroti, só existe um –
ninguém o iguala no dó de peito. Mata Hari é imortal,
assim como Salomé, duas mulheres que dois mil anos
separam na vida e na morte, e uma eternidade condena
pela vilania, que não sabemos ao certo se é verdade ou
hipocrisia. Junto assim, em duas belas gaiolas, pedaços
eternos da arte, da história, das religiões e das
guerras, esses motores de civilização e cultura que
acionam o meu modus vivendi.
Luciano Pavaroti é o maior
tenor contemporâneo – ao lado de José Carreras e Plácido
Domingo, conseguiu realizar algo impensável apenas umas
poucas décadas passadas – popularizar a música clássica,
trazer o povo inculto à contemplação das mais belas
óperas e árias napolitanas, uma espécie de musicoterapia
da ignorância.
Enrico Caruso, o maior
intérpetre de óperas de todos os tempos, morreu
precocemente aos 47 anos de idade, ironicamente vitimado
por uma afecção de garganta, quando o mundo inteiro se
prostrava aos pés da sua voz.
É por isto que me extazio
quando os vejo transfigurados e os ouço, maviosos, na
varanda da minha casa, enclausurados, mas muito bem
tratados, “a pão-de-ló com manteiga”, em dois amplos
gaiolões de luxo. Pavaroti e Caruso são meus dois
Calafates machos, fogosos, cantores eméritos a cuja
siringe nenhum ornitólogo hesitaria conferir, talvez um
tanto entusiasticamente, a abrangência de pelo menos
seis oitavas. Sei que estou exagerando, mas que eles
cantam, cantam ... e muito bem. Pavaroti é alvo como uma
garça imaculada; Caruso, cinza brilhante, como uma salva
de prata; contrastando ambos, a plumagem, com o lacre
dos bicos vermelhos próprios dos Pardais da Ilha de
Java. Mata Hari é igual a Pavaroti; não existe,
casualmente, dimorfismo sexual entre eles. Mas Salomé é
colorida, como bem concerne a uma bailarina audaz e
volátil. Não sei bem porque nominei assim às minhas
pardocas javanesas, especialmente quando as casei com
nomes altamente positivos das referências históricas
masculinas.
A primeira, fuzilada em
1917, condenada por espionagem em favor da Alemanha na
Primeira Grande Guerra. Era uma mulher bela, voluptuosa,
sedutora – terá cometido realmente alguma traição, ou
será essa a história contada pelos vencedores? Mata
Hari, ou seja, “o olho da madrugada”, a dançarina
holandesa de estilo hindu, Margareth Gertrude, seria uma
heroína, talvez até uma Joana d’Arc desvirginada, se o
resultado da guerra fosse outro?” Fico com a dúvida, e a
enterneço na minha gaiola.
Salomé, é outro caso; não
me reporto a uma das três mulheres que ao lado de
Madalena e de Maria, a mãe de Tiago, surpreenderam vazio
o túmulo de Jesus – refiro-me à filha de Herodíades, que
ao bailar elegantemente no banquete de aniversário do
seu padrasto, Herodes Antipas, agradou tanto que o
tetrarca lhe disse: – “Pede-me o que bem quiseres e te
darei”(Mc 6,22). Instigada por sua ardilosa mãe, ela
pediu a cabeça de João Batista, o profeta encarcerado
nos calabouços do palácio real, justamente por haver
condenado pública e tenazmente o casamento de Antipas
com Herodíades, sua ex-cunhada: – “Não te é lícito
possuir a mulher de teu irmão”(Mc 6,18); “Não te é
permitido tê-la como mulher” (Mt 14,4). O resultado
dessa dança macabra, ou melhor, dessa trama diabólica,
foi a decapitação daquele que mesmo hoje, dois mil anos
passados, ainda festejamos com fogueiras joaninas, fogos
de artifício e animados forrós; e cuja cabeça jazeu
sangrando, na bandeja de Salomé – mas é lícito supor –
se a história é verdade inteira – Salomé, uma jovem
talvez inexperiente, inebriada pela coorte como o
demonstram seus régios casamentos posteriores, foi
certamente induzida e forçada pela perfídia de sua mãe,
Herodíades. Até quando, e quanto, Salomé é realmente
culpada?
Gosto de História. Como
médico e literato, sou um amante das artes. Estudo
religião – não como religioso, teólogo, mas pela
reverência à sacralidade do mundo em que vivemos. Quero
a natureza dentro do meu espaço – assim, sou mais que um
velho passarinheiro; tornei-me um ornitólogo amador; os
meus Calafates por isto mesmo, não podem ser
simplesmente Pardais de Java, Munia oryzivora,
aves passeriformes da família Ploceidae. Eles são
algo mais, concatenando e coordenando as minhas idéias e
pensamentos. São Pavaroti, Caruso, Mata Hari e Salomé.
* Médico Clínico e
Nefrologista
Coordenador Geral do
Programa
Nefro-Bahia – Sesab/Fabamed
Membro da Academia de
Medicina da Bahia
Presidente da Comissão
Cultural da Associação Bahiana de Medicina
Diretor Secretário da
Sobrames –
Bahia
Diretor Cultural da
Associação de Antigos Alunos da Faculdade de Medicina da
Bahia
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