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2010

Prosa

 


 

 

 

 

 

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 volta

 

Agosto, dizem alguns, é mês de desgosto. Para nós do Mural das Letras é bem o contrário. Mês de Agosto é mês de dois gostos, em verso e em prosa. Deliciem-se com nossos poetas e escritores. Tem pra todo gosto. A gosto, ora se não!!!

Deus os abençoe,

Luiz Eduardo Caminha
 

 

 

FAREJANDO O SUCESSO

 

por Geraldo

 

- Dona Aretusa, posso lhe dar uma palavrinha?

- O que é Maria? Está com algum problema?

- Eu mesma não, mas acho que os seus filhos estão me deixando preocupada.

- O que a Aninha e o Gustavo estão aprontando?

- Nada Dona Aretusa, são ótimas crianças.

- Então o que deu em você mulher, desembucha!            

- É que vejo eles fazerem tudo o que querem. Acho que isso não é bom.

- Ué, eles fazem tudo o que querem porque podem. Têm condições, entende?

- Eu sei que eles têm condições de ter tudo o que querem, mas não acho que isso seja bom.

- O quê? Você não acha correto desfrutarem de uma boa condição de vida?

- Desculpe, não quis falar isso. Estava pensando que pode ser ruim no futuro, eles terem todas as vontades feitas.

- Ora, Maria! Aninha está com nove anos e Gustavo com onze. São muito pequenos para impormos regras mais rígidas. São apenas crianças e devem aproveitar esta condição. Daqui a pouco tornam-se adultos e aí sim, a coisa muda completamente.

- É justamente por isso que estou preocupada. Na casa em que eu trabalhava antes, vi as crianças crescerem com todas as vontades feitas. E quando ficaram adultas, nada mudou.

- Bem, pode até ser que pais relapsos façam a vontade dos filhos eternamente, mas sinceramente este não é o nosso caso.

- Eu torço para que nada aconteça, sinto muito medo.

- Medo, medo de quê? Os filhos não são seus, ora!

- Desculpe, mas é que gosto muito deles e não queria vê-los sofrerem.

- E desde de quando alguém sofre por ter tudo o quer na vida?

- O problema é que nem sempre nós vamos ter tudo o que queremos. Assim é bom estarmos preparados.

- Olha aqui Maria, se a gente pode dar, por que não dar? Você não está falando assim por causa dos seus filhos que passam necessidade?

- Deus me livre dona Aretusa, nem estava pensando neles. E em casa a gente se arranja bem com o pouco que tem.

- É, mais seria bem melhor se tivessem um pouco mais, não é mesmo?

- Sim senhora, seria bem melhor.

- Então reze para conseguir ter um pouco mais e poder dar aos seus filhos o que eles não têm hoje.

- Isto já faço, mas sinceramente não tou querendo comparar meus filhos com os seus. Estou apenas querendo que eles não sofram no futuro.

- Quem os meus ou os seus?

- Todos, mas estava mesmo pensando era nos seus.

- Deixe de se preocupar com estas coisas e fique atenta ao serviço. É para isso que está sendo paga!

- Está bem. Desculpe me intrometer.

- Ainda bem! Só me diz uma coisa que me deixou curiosa: eles se comportam de forma diferente quando não estamos em casa?

- Olha, como é mesmo que a gente fala que falta numa pessoa, quando ela tenta enganar os outros?

- Ética, Maria. Falta ética.

- Então é isso. De vez em quando eles não têm a tal ética. Pregam umas mentiras para a senhora e seu Artur, mas eu até entendo. É que sabem que mesmo que forem descobertos não serão castigados.

- Ora, castigo é coisa do passado. Uma boa conversa resolve as coisas de forma bem melhor.

- Outra coisa que noto é que eles vivem sempre com pessoas ricas. Não sabem o que é a pobreza. Acho que seria bom conhecerem outras coisas e assim aumentar a conssença. 

- Acho que você está querendo dizer “consciência” não é mesmo?

- Isso mesmo. É bom também saber fazer economia. Assim a gente pode no futuro comprar coisas melhores.

- Ora Maria, eles têm tudo do bom e do melhor.

- Mas se as coisas são fáceis de conseguir não tem muita graça, a senhora não acha?

- O importante é conseguir, seja de que forma for, e para isto estão sendo preparados.

- Mesmo que falte a tal ética da qual a senhora falou?

- Bem, digamos que a ética é importante, mas não é tudo.

- E se eu, para dar algo melhor para os meus filhos, levasse um pedaço de bacalhau sem pedir para a senhora.

- Ora, Maria, bem sabes que o dia que não fores pontual, íntegra, responsável, respeitadora e trabalhadeira, estás na rua!

- Eu sei, eu sei, é por isso que acho que faço sucesso.

- Convenhamos, sucesso com um simples emprego de doméstica?

- Um dia aprendi uma coisa que achei muito importante e na qual acredito até hoje.

- O que é afinal?

- O valor do sucesso se mede pelo que renunciamos para conseguí-lo.

 

 

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ACORDO DE CAVALHEIROS...

 

por Ilda Maria Costa Brasil

 

Numa tarde de maio, três amigas encontram-se num shopping da capital gaúcha, na área de alimentação. Conversa vai, conversa vem, a mais velha do grupo avisa que tem um pedido a fazer e que este não lhe pode ser negado. Fátima e Soraia entreolham-se e, juntas, perguntam:

– Do que se trata?

Lia tranquilamente passou a falar.

– Queridas, sei que estou mais para lá do que para cá; por isso, quero que me prometam que, após minha morte, vocês mandarão fazer um quadro com uma foto minha do tamanho da porta do meu refrigerador.

– O quê?

– É isso mesmo que vocês entenderam! Depois, vocês terão de arrumar um lugar para fixá-lo. Senão, a cada evento, cada uma pega numa ponta e levam até o local.

Fátima começou a rir e Soraia falou:

– Por que tão grande? Não pode ser menor?

– Não. Lá de cima, quero vê-las fazendo força.

– Só um pouquinho – falou Fátima. Já trabalhei muito.

– Querida, a hora não é para medir trabalho e, sim, para um “Acordo de Cavalheiros”.

– Acordo?... Acordo?... – repetiram Soraia e Fátima.

– Isso mesmo. Jurem!

Passados alguns minutos, Soraia falou:

– Creio ter uma solução para amenizar o peso do quadro. Fátima pede à Analise para pintar uma tela tua à óleo. Ela adora quadros enormes.

– Não! À óleo, não! Ficaria leve demais. Quero um quadro grande e pesado.

As amigas entreolharam-se novamente e falaram:

– Tudo bem! Pedimos ajuda ao Nestor e a Nara.

– Nem pensar. A tarefa é de vocês. Deixem os outros fora disso.  

– Calma, Lia.

– Gurias, vocês não entenderam nada. São vocês duas que deverão levá-lo, mais ninguém.

Sorrindo, pegou a bolsa e despediu-se de Fátima e Soraia.

 

 

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EINSTEIN - UMA HISTÓRIA REAL

 

por Lígia Antunes Leivas


Primeiro de abril de 2010. No folclore, reconhecidamente dia "dos bobos", quando alguns 'pregam peças' para 'curtir' não só a tradição, mas o gosto de 'tirar sarro' da cara dos outros. Mas para nós não seria bem assim...
Outono no hemisfério austral. Chegando mansamente, temperatura tépida. No céu ainda a presença da lua cheia. Linda!
Duas horas da madrugada. Na casa dormem tarde... costume, gosto pela noite, pela madrugada e seus mistérios, sua magia exercida sobre o invisível de cada um de nós.
O cão fareja alguma coisa e vai para a rua quando o portão se abre e chega, de longa viagem, seu dono e amigo especial, sempre a lhe fazer festa desde o dia do nascimento da 'ninhada' que viera farta: seis cãezinhos. Todos foram doados, mas ele, esqueirando-se daqui e dali, acabou ficando 'de lembrança'... todo branquinho, sempre escolhendo retirar-se para um canto qualquer da casa, ele ganhou o nome de "Sossó' - pela individualidade e a pouca vontade de se juntar aos demais. Enfim, foram-se todos. Menos Sossó. Talvez um lance do destino, tendo em vista o que viria a ocorrer posteriormente.
Nascido em 10 de fevereiro de 2001, lá pelo dia 8 de março começou a dar sinais de algum mal, imediatamente diagnosticado: cinomose. Sim, o cãozinho estava com os dias contados. A luta foi ingente, mesclada com perda de esperanças e denodo férreo!!! Eis que no dia 24 de abril daquele ano (2001), após a própria clínica veterinária ter sentenciado a 'condenação' do animalzinho, ele - muito devagarinho -se dirige às tigelas sempre expostas ao seu cambaleante andar e prejudicado faro e come o que ali fora servido e bebe a água com soro no outro recipiente: estava SALVO!!!

Nove anos se passaram.
"Sossó" cresceu escabelado, com pelo muito branco e farto. Todo ele inteiramente branco! Vira-latas albino. Mas não só... super inteligente!!! De "Sossó" passou a chamar-se EINSTEIN ! Uma bela homenagem ao genial cientista... também pudera: Einstein abre até portas com maçanetas sextavadas!!! E sempre com os pelos arrepiados!!!


...então... 1º de abril de 2010. Einstein na rua passeando por perto. Voltaria, como em outras noites já ocorrera.
3h da madrugada, 4 h... nada. Cadê o Eisntein???
Ninguém sabia... nem nós, nem os guardas da volta, nem a vizinha que tivera o cuidado de telefonar para avisar que o tinha visto entrando no pátio do colégio das redondezas. PERDERA-SE!
Na mesma noite começamos as buscas. Por todos os cantos possíveis e imagináveis. Nada. Já no início da manhã, divulgação pelo rádio, pelos jornais, pela internet, entre os amigos. Assim foram os doze dias seguintes. Orações, pedidos, buscas. Esperanças quase perdidas.
Dia 12, 11h. Toca o telefone. O Hospital Veterinário da Universidade avisa que a Prefeitura havia descarregado lá no hospital uma 'leva' de cães recolhidos na rua e parecia que um deles era o que procurávamos.
- Mas como??? Aí ??? Tão longe, em outro município !!!
De que jeito????? Por quê???
- Aqui temos as informações do S.O.S Animais e pelas fotos que nos enviaram, parece que o seu cão está entre eles. Se quiseres ver, às 14h nós abrimos.
Uma viagem de cerca de meia hora e estávamos no campus da universidade. Entramos... aquela quantidade de cães engaiolados, mal podendo se mexer. Numa da gaiolas, EINSTEIN!!! Quando nos ouviu chamá-lo... foi instantâneo: latiu, movimentou-se como pôde. E nós ficamos engasgados, meu filho e eu.
Todo ferido, mancando, sangrando, roxo (remédio que é aplicado para proteger os animais), faminto, sedento... mas VIVO!

Hoje ele já está melhor - um tratamento rigoroso, boa comida, muito carinho, nosso 'velhinho' está ativo. Se vai ainda viver muito, não sabemos. Mas está conosco, em casa, onde tem atenção e primoroso atendimento. Encontrá-lo, para nós foi um milagre!!!
Da janela da sala ele olha os outros seis vira-latas (ao longo do tempo foram chegando novos cães aqui...) que correm pelo pátio e pelo canil e que parecem também felizes com o 'parceiro' EINSTEIN de volta !!!
Afinal, para alegria de todos nós, EINSTEIN não é mais um "desaparecido" !!!!

Lígia Antunes Leivas
Pelotas, RS, BR
 

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FLAGRANTE TRIBAL

por Neida Rocha

Já passava das 17:00 horas quando o filho dirigiu-se à mãe, após algumas horas de sono, depois de mais uma noite agitada.

Eis o diálogo:
- Bom dia meu filho, ou melhor, boa tarde! Teus amigos telefonaram e vem para cá combinar aonde vocês irão mais tarde.
- Falô!
Neste instante a turma chega.
- Daí, galera!
- Qual vai ser o agito hoje?
- Pois é cara, não sei.
- Vamu repeti a de ontem?
- Tô fora cara.
- Há! Pega leve cara. Vamu lá!
- Pô cara tu sacou a mina? Tava a fim de mim e ficou com o magriça.
- Daí cara, hoje tu fica com ela.
- Pó pará. Não tô afim de sobra, cara. Tô mais a fim da galega. Tu sacou? A galega ficou parada na minha. Hoje eu vôem cima. Dou umas bicotas e arrasto pra minha caranga.
- Pega leve cara. Ela tá com o gorila do Jipe.
- Eu sou mais eu, cara.
- Então tá. A gente se encontra lá, valeu?
- Valeu!
- Até mais!
- Até!
E a mãe curiosa:
- Resolveram aonde vão hoje?
- Por aí!!!

 

 

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IDOLATRIA OU RESSURREIÇÃO?

por Pinhal Dias

… A Idolatria continua embrulhada, na expressão popular, com algum assento na filosofia sistemática…
Com o devido respeito muitos clamam, nas suas efémeras questões na hora da partida, de um amigo ou um seu ente querido…
“Coitadinho(a) morreu!... Era tão boa pessoa… Agora tudo acabou”…
Tudo isto admite-se, pela falta de conhecimento… Sabe-se porém que o corpo é matéria e volta ao pó. Com a esperança de uns; outros vegetam na escuridão da ilusão, mas no fundo lá vão consultando os mortos… Ao ponto de oferecem missas; outros embutidos na arte da magia negra… Tudo isto é condenável aos olhos de
Deus… em II Timoteo 3:6 “Toda a Escritura foi inspirada por Deus…”
Salve-se a Ressurreição de Lázaro (Jo 11:43); pela ordem de Jesus “Lázaro, vem para fora!” – O Profecta … (IIReis 2:1)Elias que fora arrebatado… O Jonas que fora engolido por um enorme peixe … (Jonas 2:10)
O Apóstolo Paulo estava convicto desta realidade e escreveu… (Filipenses 1:23) “…tendo o desejo de partir e estar com Cristo, (ungido) o que é incomparavelmente melhor”
… (Mat. 28) Jesus ressuscitou ao terceiro Dia.
(João 11:25) – Disse-lhe Jesus: “Eu sou a Ressurreição e a Vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” …

(…) Por lição eu já fiz a minha escolha e você amigo continua a interrogar-se?

Pinhal Dias – (Lahnip) – Amora / Portugal
 

 

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Pavaroti e Caruso

 por Ernane N. A. Gusmão*

Sou um ser predestinado – vejo e ouço todos os dias, Pavaroti e Caruso. Além deles, contemplo extasiado, a seus lados, duas figuras femininas redimidas – Mata Hari e Salomé. Caruso, só houve um – ninguém o suplantou. Pavaroti, só existe um – ninguém o iguala no dó de peito. Mata Hari é imortal, assim como Salomé, duas mulheres que dois mil anos separam na vida e na morte, e uma eternidade condena pela vilania, que não sabemos ao certo se é verdade ou hipocrisia. Junto assim, em duas belas gaiolas, pedaços eternos da arte, da história, das religiões e das guerras, esses motores de civilização e cultura que acionam o meu modus vivendi.

Luciano Pavaroti é o maior tenor contemporâneo – ao lado de José Carreras e Plácido Domingo, conseguiu realizar algo impensável apenas umas poucas décadas passadas – popularizar a música clássica, trazer o povo inculto à contemplação das mais belas óperas e árias napolitanas, uma espécie de musicoterapia da ignorância.

Enrico Caruso, o maior intérpetre de óperas de todos os tempos, morreu precocemente aos 47 anos de idade, ironicamente vitimado por uma afecção de garganta, quando o mundo inteiro se prostrava aos pés da sua voz.

É por isto que me extazio quando os vejo transfigurados e os ouço, maviosos, na varanda da minha casa, enclausurados, mas muito bem tratados, “a pão-de-ló com manteiga”, em dois amplos gaiolões de luxo. Pavaroti e Caruso são meus dois Calafates machos, fogosos, cantores eméritos a cuja siringe nenhum ornitólogo hesitaria conferir, talvez um tanto entusiasticamente, a abrangência de pelo menos seis oitavas. Sei que estou exagerando, mas que eles cantam, cantam ... e muito bem. Pavaroti é alvo como uma garça imaculada; Caruso, cinza brilhante, como uma salva de prata; contrastando ambos, a plumagem, com o lacre dos bicos vermelhos próprios dos Pardais da Ilha de Java. Mata Hari é igual a Pavaroti; não existe, casualmente, dimorfismo sexual entre eles. Mas Salomé é colorida, como bem concerne a uma bailarina audaz e volátil. Não sei bem porque nominei assim às minhas pardocas javanesas, especialmente quando as casei com nomes altamente positivos das referências históricas masculinas.

A primeira, fuzilada em 1917, condenada por espionagem em favor da Alemanha na Primeira Grande Guerra. Era uma mulher bela, voluptuosa, sedutora – terá cometido realmente alguma traição, ou será essa a história contada pelos vencedores? Mata Hari, ou seja, “o olho da madrugada”, a dançarina holandesa de estilo hindu, Margareth Gertrude, seria uma heroína, talvez até uma Joana d’Arc desvirginada, se o resultado da guerra fosse outro?” Fico com a dúvida, e a enterneço na minha gaiola.

Salomé, é outro caso; não me reporto a uma das três mulheres que ao lado de Madalena e de Maria, a mãe de Tiago, surpreenderam vazio o túmulo de Jesus – refiro-me à filha de Herodíades, que ao bailar elegantemente no banquete de aniversário do seu padrasto, Herodes Antipas, agradou tanto que o tetrarca lhe disse: – “Pede-me o que bem quiseres e te darei”(Mc 6,22). Instigada por sua ardilosa mãe, ela pediu a cabeça de João Batista, o profeta encarcerado nos calabouços do palácio real, justamente por haver condenado pública e tenazmente o casamento de Antipas com Herodíades, sua ex-cunhada: – “Não te é lícito possuir a mulher de teu irmão”(Mc 6,18); “Não te é permitido tê-la como mulher” (Mt 14,4). O resultado dessa dança macabra, ou melhor, dessa trama diabólica, foi a decapitação daquele que mesmo hoje, dois mil anos passados, ainda festejamos com fogueiras joaninas, fogos de artifício e animados forrós; e cuja cabeça jazeu sangrando, na bandeja de Salomé – mas é lícito supor – se a história é verdade inteira – Salomé, uma jovem talvez inexperiente, inebriada pela coorte como o demonstram seus régios casamentos posteriores, foi certamente induzida e forçada pela perfídia de sua mãe, Herodíades. Até quando, e quanto, Salomé é realmente culpada?

Gosto de História. Como médico e literato, sou um amante das artes. Estudo religião – não como religioso, teólogo, mas pela reverência à sacralidade do mundo em que vivemos. Quero a natureza dentro do meu espaço – assim, sou mais que um velho passarinheiro; tornei-me um ornitólogo amador; os meus Calafates por isto mesmo, não podem ser simplesmente Pardais de Java, Munia oryzivora, aves passeriformes da família Ploceidae. Eles são algo mais, concatenando e coordenando as minhas idéias e pensamentos. São Pavaroti, Caruso, Mata Hari e Salomé.

  

* Médico Clínico e Nefrologista

Coordenador Geral do Programa Nefro-Bahia – Sesab/Fabamed

Membro da Academia de Medicina da Bahia

Presidente da Comissão Cultural da Associação Bahiana de Medicina

Diretor Secretário da Sobrames – Bahia

Diretor Cultural da Associação de Antigos Alunos da Faculdade de Medicina da Bahia

 

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NA MINHA SACADA, A VIDA TEM LUGAR...

James Pizarro

 

Na sacada do meu apartamento ficam dois varais de roupas. Cadeiras, carrinho e mesa de praia. E também um carrinho de feira. Com o qual me abasteço no "Direto do Campo".
A sala se abre para a sacada através de uma grande porta de correr. Guarnecida de vitral transparente que toma o tamanho todo da porta. O que garante iluminação feérica em dias de sol. E vista para árvores, prédio vizinho, rua,passantes e uma pedaço de mar.
Mas o que mais importa na minha sacada é que a transformei num grande refeitório para pássaros. Em cima do muro que a guarnece coloco ração feita de milho picado, arroz picado e farelo de trigo. 
A princípio, apareciam apenas pardais. Nos primeiros dias, quatro ou cinco. Depois, cheguei a fotografar dezoito. Uns voam e levam no bico grãos para ninhos construidos nos beirais da pousada que fica ao lado do nosso prédio. Muitos filhotes também aparecem.
Atualmente, além dos pardais, me visitam rolinhas, periquitos coloridos, bicos-de-lacre. Por duas vezes apareceram sabiás. E só uma vez apareceu uma pomba solitária.
Evito alimentar pássaros que vivem livremente com grãos de alpiste, girassol ou painço porque muitos deles - sobretudo as rolinhas e os pombos - não conseguem descascar as sementes, o que causa inchaço em seus papos lhes causando a morte.
Duas vezes por semana higienizo o muro da sacada, removendo os restos de grãos e os excrementos conservando o beiral sempre limpo.
Coloco a ração três vezes por dia : às seis da manhã, quando levanto, depois do almoço e à tardinha. Os pássaros são pontuais e os encontro em alegre cantoria nestes três horários. Vivem em liberdade e têm garantida uma fonte diária de nutrição, enquanto eu ganho o convívio e o canto. Aprendi a observá-los em silêncio enquanto tomo meu chimarrão, sem me movimentar muito. Observo o comportamento deles e bato dezenas de fotos. Já consegui algumas vezes levantar e ficar escorado na grade da sacada sem que eles voassem embora. Já estão se acostumando com minha presença e permitindo uma aproximação cada vez maior.
Muitos amigos ficam surpresos quando lhes narro estas minhas experiências. Outros escutam e fazem cara de desdém. Houve até alguém que me disse : "Estás ficando velho, Pizarro". Confesso que não entendi a relação.
Nem de longe suspeitam - com suas almas sem sensibilidade - que minha qualidade de vida aumenta com o convívio e a contemplação dos pássaros. Eles nem suspeitam que estes pássaros - além do canto e do colorido - contribuem para o equilíbrio ecológico, quando se alimentam de insetos e pragas que atacam as plantas. Muitos deles funcionam como agentes polinizadores das flores, aumentando a produção dos frutos. E grande número de pássaros - ao levarem sementes de um lugar para outro - contribuem com a disseminação das plantas fazendo o papel de semeadores naturais.
Estou pensando em outros tipos de rações e uns dois bebedouros, o que fará que apareçam outras espécies, como bem-te-vis, coleirinhas e beija-flores.
Espero não perder jamais a sensibilidade para estas coisas. Não perder o dom do mistério. Nem a capacidade de me enternecer diante de catedrais ambulantes de vida como são estes delicados seres vivos.
Devo dizer que me sinto bem em companhia deles.
O que já não posso dizer em relação a muitos humanos.

 www.professorpizarro.blogspot.com
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Organização:

Luiz Eduardo Caminha

dasletras@stmt.com.br