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MULHERES ROTAS
Ela
descende de uma linhagem de mulheres às quais foi negado o
direito ao prazer, ao orgasmo e ao amor. Não sabia disso e
não se sabe se tal conhecimento teria mudado seu destino
traçado quando nasceu. Tinha escrito na testa e no braço
direito, assim que nasceu, duas sinas: a de pobre e
pecadora. Pobre, porque nunca teria nada seu, nunca.
Pecadora, porque seu caminho seria só, não solidário e na
contramão das missas dominicais.
I
POBRE
Eu
lembro de sua mãe pedalando pelos morros da cidadela, pelas
madrugadas que salvavam cristãos, para não perder os prêmios
miseráveis ao final do mês. Sim! O prêmio era sempre algo
que não serviria para ninguém mais, a não ser para aqueles
miseráveis que tinham como karma, que acordar todos os dias
às quatro da madrugada.
Ela
colocava aquele vestido surrado, branco com pequenas flores
coloridas estampadas, doado de alguma família menos pobre,
que nem combinava com a sandália gasta e velha e pedalava.
Pedalada seu tempo, suas ruas, cada pedrisco e buraco que se
avizinhava. Nestes trajetos pela madrugada silenciosa, lhe
viam alguns sonhos quase possíveis de serem realizados.
Talvez encontrar um homem bom, bonito e que se possível, lhe
gostasse e lhe tirasse da miséria onde foi nascida.
Veio-me agora uma cena de sua pequena avó paterna caminhando
morro abaixo, antes de qualquer galo da vizinhança
despertar, com um punhal escondido na bolsa, e se ia entre
pés de carrapicho, de língua de vaca que cortavam suas
pernas alvas e ainda quentes da cama. Ela tinha medo das
maldades do mundo, dos homens que espreitavam moças ainda
virgens que iam ao trabalho na separação de folhas de
tabaco, antes do sol nascer.
A
avozinha não tinha sonhos secretos, pois nunca havia dormido
uma só noite completa que lhe possibilitasse isso. Não havia
cinema, novela nem sonhos junguianos. Era acordar e
trabalhar até que novamente o corpo fadigado por longas
caminhadas e horas sucessivas cheirando fumo, com mãos
grossas, pretas e sem carinho pudessem finalmente descansar.
Soube ainda que a outra avó, a mãe da mãe, não vinha de
melhor estirpe. Desde os 14 anos tinha sido entregue a um
homem que só fazia-lhe às vezes de uma fêmea para satisfazer
sua lascívia, esconder seu sexo e agasalhar seus líquidos.
Era um homem rude, que cuspia fumo mascado e levantava seu
vestido quando lhe proviesse. Eram filhos e filhos saindo de
si, sem que tivesse tempo de pensar, de fritar, de fugir ou
de trocar seu vestido emprestado, roto, sujo e largo.
A
mãe, pobrezinha, não sabia de cantigas, de carinhos em seus
cabelos, de banhos em tinas quentes nem de bonecas. Tudo era
feito a navalha, no frio e no rio. O banho diário, a roupa
que deveria ser limpa semanalmente, a louca suja eram
repassadas nas águas frias do rio da cidadela. Não olhava
nos olhos de ninguém, pois poderiam descobrir seus segredos.
Sim, pois ela era uma das poucas que ousara sonhar, já na
adolescência e sob os olhares desejosos dos homens da
cidade. Não entendeu bem o que nem o por que dos olhares,
das obscenidades que ouvida quando passava com o vestido
muito curto, os seios meios em riste, as cochas perfeitas
pelos exercícios matinais de ir e vir do trabalho.
A
avó paterna não podia mais com aquilo. Morava feito macaco,
em luar íngreme, feio, frio e úmido. Seu filho mais velho
havia tido o crânio amassado por um ônibus enquando dava a
ré, em frente da igreja. O filho mais novo, desde então,
nunca mais riu nem falou. Ele lembrava da massa encefálica
do irmão escorrendo pelo meio fio, dos gritos desesperados
das vizinhas e do motorista que não havia visto os meninos
na bicicleta. O filho mais novo da avó paterna esqueceu o
que era sonho e as noites longas, eram banhadas de choros,
lamentos e carpideiras do velório do irmão.
Quem
disse que sofrimento salva? Quem disse que Deus ajuda quem
cedo madruga? A bordadeira deixou o pano de enfeitar cozinha
pronto, em ponto cruz azul, sobre a mesa. No outro dia a
vizinha viria apanhar, para dar à amiga que iria casar
sábado ao final da tarde. Soube que ela tinha conseguido um
bom homem, um bom homem para casar. Quem lhe apresentou foi
a irmã, que trabalhava num prostíbulo por dinheiro e por
prazer. A irmã disse: “com esse você vai casar. É homem
direito”.
A
avó materna chorava. Não queria mais tanto filho, nem ser
trepada todas as noites pelo marido cachaceiro, arruaceiro.
Não tinha mais forças para dizer nem que sim, nem que não.
Nem a reza lhe salvaria, pois não há lugar no céu pra tanto
filho. Ela limpava o gozo do marido com aquele paninho que a
filha trouxera da malharia. Até quando ela teria que
suportar tudo aquilo? As brigas dos filhos, aquele que fugia
para mendigar, o outro para roubar e a mais velha, para
transar com qualquer um.
A
falta do futuro como esperança, a desgraça do passado como
lembrança.
Lembro de sua mãe, chorando na morte do marido tão bom, tão
escolhido a dedo pela irmã prostituta. Os bons morrem antes
e é deles o reino dos céus. Ela havia ficado para purgar
seus pecados. Os pecados de sua carne trêmula, fraca,
epiderme e derme intumescida pelo prazer de ser vista não só
como uma bicicleta.
A
avó paterna, melhor sorte não teve. Dizem até que rezou
muito pela sua morte. Mas os bons morrem antes. O marido se
foi e a deixou sem nada, com a miséria nas mãos, contrato de
aluguel vencido, filhos doentes. Não poderia ter sido
diferente. Seria dela o reino dos céus? Por sofrer tanto e
nunca ter conhecido o prazer haveria de ter recebido como
dádiva das novenas dos últimos dias, um lugar assegurado,
lá, bem lá no céu.
A
outra avó, que enrolava fumo, continuava na safra. Mas
acreditava que haveria salvação. Quando ele morreu de
cirrose e ela pode dormir uma noite inteira com os dois
olhos cerrados, respirou aliviada. O filho calado partiu,
criou família. Ela não teria mais com o que se preocupar a
não ser com a manutenção das sepulturas, para assegurar que
dali não sairiam: o filho mais velho com crânio partido e
esperanças vãs e o marido morto por cirrose, maus-tratos e
pelo sofrimento que infringiu as mulheres estupradas pelo
seu caminho.
A
cidadela permanece impávida.
O
rio já não lava as partes das moças, nem as louças nem as
roupas da pobreza.
II PECADORA
Ela
descende de uma linhagem de mulheres às quais foi negado o
direito ao prazer, ao orgasmo e ao amor.Tinha escrito na
testa e no braço direito, assim que nasceu, duas sinas: a de
pobre e pecadora.
Dizem que a mãe era uma puta, que dava para qualquer um que
lhe prometesse que teria prazer, que era poderosa, bonita,
fogosa. Havia cansado da solidão, das noites sem beleza, sem
calor, sem tesão. Soube pela boca das amigas que ela era uma
mulher avassaladora. Onde passava com seus vestidos bem
cortados, com seu soutien alinhado e o perfume do catálogo
comprado em duas parcelas, fazia com que os homens
enlouquecessem. Ao sabiam as outras mulheres se era seu
cheiro, se era o balanço de suas cadeiras, se era o sorriso
no canto esquerdo da boca, ou o olhar atrevido diretamente
nos olhos de sua presa.
A
avó paterna na cometeu pecados. Tinham um desejo sórdido
pelo padre da paróquia. Imaginava-se por vezes levantando
sua batina e recebendo as bênçãos celestiais depois de subir
em seu ventre e incessantemente fartar-se dele. O segundo
marido, um santo, pouco pode fazer pela mulher viúva que não
mais descia o morro com o canivete na bolsa. Ele queria
rezar, levá-la à quermesse, à festa dos amigos e dizer para
todos que não era gay, nem anormal por estar com 40 anos e
ser virgem. Fora ela, aquela mulher fogosa que lhe despertou
os pecados. Passava por ele, diariamente, com as cochas
quentes, com as faces rubras, com o vestido curto, com o
salto médio de seu sapato envernizado. Devorava-o com os
olhos e até com os cheiros que fabricava com suas flores de
jardim.
A
outra avó desistiu de querer outro homem. Houve até dias em
que queria ter nascido homem, pois não via vantagem alguma
em ser assim, uma mulher, parideira. Já não usava calcinhas,
para que os outros filhos não a vissem sempre no chão,
jogada. Sempre que ele trepava nela, percebia os olhos do
pecado lhe espiando pelas frestas do sótão. Que olhos eram
aqueles? Que risos eram aqueles que lhe impediam a entrega e
o prazer?
O
prazer não era o da carne crua, do banho nu, do rio gélido
que limpava as partes pudendas e calorosas. O prazer não era
mais do coito, das vogais que escapavam da boca enquanto
estavam ali entregues um ao outro. O prazer não habitava
mais a cama nupcial que já havia experimentado outros
momentos. O prazer haveria de ser o que não teriam nunca
aquelas mulheres pecaminosas, perdidas em um passado de
trevas e devassidão.
O
pecado estava tatuado nelas e a santíssima trindade havia
proferido a sentença: culpadas pelo prazer e haveriam de
levar o fardo da frigidez, do coito interrompido, do sexo
sem amor, do prazer unilateral.
Eram
descendentes das bruxas, das mulheres que habitavam as
florestas e dançavam nuas sob o luar. Das mulheres livres e
puras. Das mulheres élficas. Das mulheres que haviam
libertas sob as asas.
Eram as sucessoras da inquisição, das que morreram sob malleus
maleficarum. Eram as bruxas do norte da Alemanha que
nunca abdicaram dos demônios em nome da cristandade.
A
mãe, a avó paterna e a outra haveriam de possuir poderes
sobrenaturais das bruxas. O demônio fez com que as coisas
corressem de tal forma mal na vida destas mulheres, que eram
levadas a consultar outras bruxas. Ao fazê-lo, passavam a
seduzir os homens ou com as delicias do sexo, ou com o
fascínio dos poderes das trevas. E voltavam a dançar nuas...
Na
cidadela, ainda hoje as outras mulheres rezam na diocese
para que possam um dia encontrar um homem bom, uma noite
inteira de sono, de coitos e outras possibilidades.
Enquanto isso, as outras ardem nas fogueiras!!!
(Rosane Magaly Martins, em 28/06/09)
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