Luto na Literatura Universal:
Morre José Saramago
Registramos aqui,
ainda consternados como toda a comunidade literária
internacional e não diferente, como todo o mundo, a
repercussão da morte do Prêmio Nobel de Literatura, o
escritor português José Saramago. Unimo-nos neste pranto que
é universal e ultrapassa o próprio Planeta.
Da Revista zaP
A morte do escritor português
José Saramago, nesta sexta-feira (18), aos 87 anos, mexeu
com colegas de profissão e admiradores famosos. O escritor
Moacy Scliar, membro da Academia Brasileira de Letras, foi
um dos que prestou uma última homenagem ao Prêmio Nobel de
Literatura.
Moacyr Scliar, escritor:
"Eu recebi com muito pesar a notícia da morte do Saramago,
de quem eu era leitor, admirador e colega na Academia
Brasileira de Letras, local em que ele foi eleito membro
correspondente mas não chegou a tomar posse. Fui muito amigo
dele, convivi com ele quando ele visitou Porto Alegre. Sua
morte foi uma grande perda para a literatura de lingua
portuguesa e também para a literautura mundial."
Fotógrafo Sebastião Salgado:
"O Saramago foi um amigo, uma pessoa que eu respeitava
demais. Fizemos muitas coisas juntos, inclusive o livro
'Terra', que foi lançado no Brasil (...) Ele sempre foi um
militante, um homem de esquerda, comprometido com todas as
causas sociais, principalmente de Portugal e do Brasil.
Sinto profundamente. É uma perda muito grande."
O também escritor João Paulo Cuenca falou que estava muito
emocionado com a morte do autor de "O ano da morte de
Ricardo Reis", livro que de 1984, considerado por Cuenca
como um dos melhores livros escritos na língua portuguesa.
João Paulo Cuenca, escritor:
"Adoro também o último livro dele, 'Caim', por causa do
vigor e do senso de humor. Imagino que agora, com a sua
morte, esteja se repetindo a cena final do livro, com
Saramago pedindo para Deus prestar contas."
Ivana Arruda Leite, escritora:
"Comecei por um livro de contos pouco conhecido chamado 'Objecto
Quase'. Genial. Dentre os romances, o meu preferido é 'O
Evangelho segundo Jesus Cristo', o relato mais apaixonante
de Jesus Cristo já feito na literatura."
O escritor e tradutor Fábio Fernandes:
"Dizer que Saramago foi um dos maiores escritores da língua
portuguesa vai ser, claro, a frase-clichê do ano. Porque é
verdade. Mas as provas estão aí, para quem tiver olhos de
ler: "Ensaio sobre a cegueira", "História do cerco de
Lisboa", "A jangada de pedra", "Memorial do convento"... a
lista é imensa, e certamente cada um terá seu favorito. Eu
tenho vários. Hoje mesmo vou tirar um livro de Saramago da
estante e reler. Se as lágrimas deixarem."
Da Redação Revista zaP!
Da Escritora da Academia
Catarinense de Letras Urda Alice Klueger
Amigos:
Acaba de falecer na manhã desta sexta-feira, dia 18
de junho de 2010, o escritor José Saramago. Acho que não há
nada que eu possa fazer para homenageá-lo além de lhes
repassar essa maravilha de discurso abaixo, que ele disse ao
receber o Prêmio Nobel de Literatura.
Muito sentida,
Urda Alice Klueger
BRASIL
Discurso na Academia Sueca
(ao receber o Prêmio Nobel de Literatura)
José Saramago
O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida
não sabia ler nem escrever. As quatro da madrugada,
quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras
de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo,
levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja
fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta
escassez os meus avós maternos, da pequena criação de
porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos
vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província
do Ribatejo.
Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses
avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando
o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros
gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros
mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das
mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os
animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte
certa. Ainda que fossem gente de bom caráter, não era
por primores de alma compassiva que os dois velhos assim
procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem
retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a
naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a
pensar mais do que o indispensável.
Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas
andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do
quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas
vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que
acionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e
a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos
guardas das searas, fui com a minha avó, também pela
madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher
nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir
para a cama do gado. E algumas vezes, em noites quentes
de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José, hoje
vamos dormir os dois debaixo da figueira". Havia outras
duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior,
por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para
toda as pessoas da casa, a figueira.
Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só
muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que
significava... No meio da paz noturna, entre os ramos
altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois,
lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e,
olhando eu noutra direção, tal como um rio correndo em
silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade
opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como
ainda lhe chamávamos na aldeia. Enquanto o sono não
chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos
que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros,
episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e
pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de
memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que
suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se
calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido,
ou se continuava a falar para não deixar em meio a
resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas
pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no
relato: "E depois?". Talvez repetisse as histórias para
si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse
para as enriquecer com peripécias novas.
Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem
será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô
Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando,
à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me
despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o
campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então
levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia
andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas
agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do
quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao
lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô,
punha-me na frente uma grande tigela de café com pedaços
de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe
contava algum mau sonho nascido das histórias do avô,
ela sempre me tranqüilizava: "Não faças caso, em sonhos
não há firmeza".
Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma
mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô,
esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o
neto José, era capaz de pôr o universo em movimento
apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois,
quando o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um
homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal,
também acreditava em sonhos. Outra coisa não poderia
significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta
da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as
estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça,
tivesse dito estas palavras: "O mundo é tão bonito, e eu
tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer,
disse pena de morrer, como se a vida de pesado e
contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse,
naquele momento quase final, a receber a graça de uma
suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza
revelada. Estava sentada à porta de uma casa como não
creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela
viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os
seus próprios filhos, gente que tinha pena de ir-se da
vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o
meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que,
ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi
despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma,
abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as
tornaria a ver.
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