MARIAS DO CEARÁ
Uma das inúmeras coisas que me deixavam curioso, no Ceará,
sempre foi a quantidade de Marias que por lá existe. Afinal, em
minha própria casa, nós também temos uma Maria, a Maria Eduarda,
nossa caçula, cujo nome foi uma homenagem à Mãe de Jesus.
Povo de uma fé inquebrantável, que sobrevive às próprias crises,
sejam enchentes, sejam secas, seja a crônica falta de dinheiro,
ou que vive numa antítese a estes quadros desoladores nas
cidades, profusas em tudo o que o progresso lhes proporciona, eu
atribuía à sua profunda devoção na Mãe do Salvador, como o
principal motivo desta afluência de Marias em seu meio. Tinha
que ser esta a explicação. E olha que não são poucas as Marias.
Marias José à cântaros, Marias Lívia, Marias Lise, Marias
Madalena aos montões, Marias Aparecidas em escarcéus, Marias
Paula, Augustas, Auxiliadoras, um sem fim de Marias. Até uma
Maria Maria, lá encontrei.
Isto, sem contar aquelas, cujos pais resolveram colocar entre
nome e pré-nome, uma partícula de conjugação. Aí desfilam as
Marias das Dores, da Paixão, do Rosário, Marias de Lurdes ou de
Lourdes – há das duas - de Fátima, da Anunciação, da
Misericórdia, e por aí vai.
Sempre me pareceu que em algum momento da história do Ceará
existiu - desde os tempos da capital Aquiraz até a Fortaleza de
hoje – uma norma cartorial que ditava uma regra: filha nascida,
os pais escolhiam um nome e aí, no cartório de registro, se
Maria não houvesse, punham-no, no começo, no meio ou no fim do
nome escolhido. Lógico que isto é apenas uma conjectura não
crível para um fenômeno da nomenclatura cearense.
Para corroborar meu pobre embasamento ainda existiam aquelas
Marias cujos nomes conjugaram-se a outros, apenas para lhes
emprestar uma roupagem literária diferente. Marialvas,
Mariangelas, Marinalvas, Marivaldas, Anamarias, entre outras.
Até mesmo nos nomes pouco ortodoxos como Josefina, Zeferina,
Januária, Setembrina, Petronila, etecetera, lá colocavam um
Maria, precedendo-os e dando mais graça e sonoridade ao péssimo
gosto dos pais.
Estava eu ainda encafifado com tantas Marias quando li o
fantástico livro “1808” de Laurentino Gomes e deparei-me com uma
curiosidade. Dos nove filhos de D. João VI, que o acompanharam
naquela sanha pelos mares que por eles nunca dantes haviam sido
navegados,
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