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SEGREGAÇÃO
RACIAL
por Maura Soares
(escrito em
28.04.1980, guardar as devidas
proporções nas
citações de personalidades
—texto sem
nenhuma pretensão literária,
apenas o que
brotou da alma)(*)
O branco chegou
e disse: “negro, sai da frente, não suje o local onde eu quero
pisar”. O negro, humildemente, saiu para o lado e o branco
passou como se fosse o monarca absoluto.
Subserviente
por obrigação, por açoite, o homem negro foi e continua sendo
pisoteado pelo branco, que, em minoria e com medo da emancipação
negra, o dilacera e o escraviza para poder manter a hegemonia
branca.
Dotados de
sentimentos mais profundos, mais sofridos, com um olhar que
revela toda a dor de gerações passadas, surradas e sugadas pelo
homem dito “superior”, o negro procura, dentro das brechas que
alguns brancos de bom coração e sem preconceitos arraigados,
galgar um degrau por mínimo que seja, na escala social.
A televisão, o
veículo que se diz transmissor de cultura é a meu ver,
transmissão de ideologias, pois nos induz, através de comercias
e de programas “humorísticos”, a creditarmos, a aceitarmos e a
vermos o negro apenas como um empregado, um bêbado ou um ser que
serve apenas para levar recados e fazer serviços que o branco
não se acha digno de fazer.
Talentos negros
existem à mãos cheias, haja vista no setor literário, como um
Alex Haley ou um James Baldwin, por exemplo. No Brasil, poucos
foram aqueles que se destacaram. Cito Cruz e Sousa, o poeta
maior do simbolismo, que, criado por um homem branco, foi
recebido ---apesar do seu talento --- com reservas pela “elite”
sulista da época.
Artistas negros
brasileiros de grande talento, tais como Ruth de Souza e Antonio
Pitanga (para citar os maiores que eu considero) e outros, são
colocados em filmes e novelas de televisão com papéis de
cozinheiros e mordomos e que com talentos maiores do que as
Reginas Duarte da vida, sujeitam-se a esses papéis com o intuito
único da luta pela sobrevivência. A arte para eles é vida, mas a
vida não se resume apenas ao representar, há outros fatores como
o comer e o dormir. Isto custa dinheiro e, para ganhá-lo,
sujeitam-se às maiores humilhações. Na música, então, são muitos
os que podem ser enumerados. Cito alguns como Alcione, Sueli
Costa, Roberto Ribeiro, Emilio Santiago, no Brasil e nos Estados
Unidos temos os excepcionais Johnny Mathis, Nat “King” Cole,
Dione Warwick, Sarah Vaughn que, junto com outros cantores e
solistas negros estão, com muita garra, se impondo aos poucos no
cenário musical.
O problema
maior é a discriminação na escola, onde o pequeno ser que
engatinha na ânsia do saber, é colocado afastado dos outros
colegas por causa da sua cor. Culpa dos professores, culpa da
direção, culpa da sociedade escravocrata, colonizadora e
paternalista que perdura até nossos dias.
“Dê apenas o
essencial para que se sintam com condições de trabalhar e não se
rebelem, e eles ficarão gratos ao seu senhor e amo”, dizem os
preconceituosos. “Lugar de negro não é nos bancos escolares e
sim na lavoura, à frente dos fogões, levando recados”, dizem
aqueles que se julgam superiores. “Todos são iguais perante a
lei”, dizem os juristas. Mas cada vez mais os negros são
segregados, são marginalizados, são espezinhados.
A sociedade
brasileira ainda não se deteve a pensar no negro como um ser
humano e que foi graças ao seu trabalho, que muitos
enriqueceram.
Mas eles
resistem à repressão e, à duras penas, não se livrando dos
grilhões impostos desde a nossa colonização.
Amo os negros
bem como os judeus e os índios e a todas as raças ditas
“inferiores” mas que possuem uma beleza infinita que é a
tradição do amor, dos costumes que sãs transmitidos através de
gerações e que o branco procura mais e mais destruir.
Defendo a causa
dos negros como defendo a minha causa, a causa do homem branco
que também é marginalizado por uma elitista, que controla os
destinos dos povos. Talvez por serem de compleição mais forte,
os negros resistem mais à ação destruidora do branco ao passo
que este logo se entrega, não luta, marginaliza-se.
Procuremos,
agora, no limiar dos anos 80, sermos mais humanos, tornarmo-nos
pessoas, no real sentido da palavra.
Não custa nada
amar, nem que seja só um pouco o seu semelhante, seja ele que
raça for. O amor está em todas as coisas, basta apenas que se dê
o primeiro passo, que se faça o primeiro gesto de carinho.
(*) Na época
deste texto gostava de assistir filmes brasileiros e achava a
atriz Ruth de Souza de um talento sem par.
Data desta
época a minha ojeriza por novelas---não assisto até hoje ---.
Muita coisa
mudou, haja vista os negros ricos por causa do esporte, muitos
com cargos políticos (Barack Obama) --- muitos o reconhecimento
mundial (Nelson Mandela), mas no Brasil embora tenhamos Ministro
negro, ainda falta muita coisa pra chegar lá. Meu texto não
tinha nenhuma pretensão, também não sei porque escrevi, creio
pra me livrar de alguma emoção, de alguma injustiça que tenha
presenciado. |