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SENHORES DO TEMPO
Luiz Eduardo Caminha


“Qual de vós, por mais que se esforce, pode acrescentar um só momento à duração de sua vida?” (Mateus 6, 27)
 

O ambiente acolhedor daquele restaurante oriental teria muito a nos provocar naquela noite. Luz indireta, garçons com quimonos típicos, idiogramas, tudo levava a sugerir uma noite inolvidável. À mesa, este que vos escreve, minha cara-metade, Seluta, e o casal de amigos Jean e Mazé. No pequeno palco, ao canto, Lucas, filho deste casal, e sua banda, davam o recado: blues e jazz, num som agradavelmente baixo que não interferisse no clima oriental e suficiente para o deleite de quem gosta destes gêneros musicais,.


Pedidos feitos, bebidas servidas, uma pequena espera e, numa gentileza da casa, uma salada especial foi posta à mesa. Mais dez minutos e vieram dois pratos de iguarias, apresentados como entradas.

 

Quinze, vinte minutos depois e nada do prato principal. Começamos a ficar preocupados, ou melhor dizendo, a reclamar.

~ Não é possível! Quatro mesas, cerca de vinte pessoas e esta demora!
~ Vai ver foram pescar o peixe que serviria para a elaboração de um dos pratos.
~ Há que se entender, gente! Pouco movimento, tudo preparado na hora, vai ver é assim mesmo!

 

Sem querer filosofar, surgiu-me uma única resposta:

~ O tempo necessário para um jovem ou um velho atravessar cem metros, para um cozinheiro preparar um prato oriental não é outro que o tempo necessário para fazê-lo!

Surpresa geral! Eu estava ficando louco? Ou fazendo uma brincadeira?

 

~ Na verdade, talvez seja assim! – pensei. Alguém já viu um monge tibetano, um mestre chinês ou hindu usando relógio? Eu, sinceramente, nunca vi e, em fotos, filmes, documentários sobre o extremo oriente, jamais presenciei esta cena. Vejo isto, sim, nos novos executivos chineses, coreanos, japoneses, cada um correndo desenfreadamente de olho no pulso, no relógio, mas num monge, num mestre de artes marciais ou de filosofia oriental, nunca! Isto, entretanto não é regra geral.

 

continua