
É Natal,
por acaso ?
Luiz Eduardo Caminha
Vocês já notaram? Natal é sempre
assim! De repente as pessoas parecem acordar da letargia de um
pesadelo, das más notícias, de uma vida em que competir é o que
vale. O ano todo, sofrimentos à parte, haja notícias ruins.
Crime aumenta em São Paulo; no Rio de Janeiro mata-se mais que
na guerra do Iraque; pai de família estupra filha menor; avião
cai e deixa enlutadas dezenas de famílias; estradas fazem
vítimas todos os fins de semana e muitas mais nos feriadões;
Polícia Federal desmonta mais um esquema de fraude envolvendo
funcionários do Instituto da Previdência; menores ateiam fogo
num abrigo; golpe do seqüestro relâmpago faz mais vítimas;
sem-terras invadem fazenda; aquecimento global é causa de
inundações; escândalo de propinas no Congresso; e vai por aí
afora.
Sangue, sangue, sangue, parece ser a proposta de nossas
redes de TV e da imprensa em geral. Quase nem se consegue notar
uma boa notícia, de tão poucas produzidas ou propositalmente
esquecidas. Aí, num passe de mágica, chega dezembro. A vida
freia. As propagandas pululam, o 13º. passa a ser a moeda de
compra. Tudo vai desacelerando e dá lugar a um corre-corre
frenético. Primeiro, aos pouquinhos. Depois avassaladoramente.
Consumo, consumo, consumo! Só se pensa em gastar. Nem os filmes
de natal passam mais ou, na melhor das hipóteses, reprisam os
mesmos de anos anteriores. O que vale é o shopping, o serasa, o
spc. Passem uma borracha em tudo! É preciso ter crédito! É
premente comprar! Papais Noéis são contratados, um pra cada
esquina. Uns gordos, outros nem tanto. Nada que um travesseiro à
guiza de barriga artificial não corrija.
Porque ou por quem os
sinos dobram? Anunciam um funeral? Por quem os anjos, arcanjos,
querubins entoam cânticos? Afinal, nem chegou o Carnaval! O povo
esqueceu o Menino. Riscaram Jesus do mapa. Sequer imaginam o Salvador.
Alguns ainda teimam em lembrá-lo. Mas são tão poucos! Afinal,
aquela roupa vermelha ridícula era a manta que agasalhou o
Menino Deus?
continua |