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O SOPRO DA DIFERENÇA
Por Luiz Eduardo Caminha
Continuo a falar sobre o problema das nuances lingüísticas,
especialmente da dificuldade que têm as traduções de serem fiéis
quando o termo ou a expressão a ser traduzida traz em sua
essência um sentimento. Já me referi ao intraduzível “saudade”,
de nossa língua, sem similar em outra qualquer. Em outro exemplo
citei a tradução da passagem bíblica em que Jesus Cristo cobra
de Pedro uma profissão de amor.
leia
aqui
Quero propor, agora, uma discussão sobre o termo ALMA que, a meu
ver, é paupérrimo ao tentar traduzir o seu verdadeiro
significado.
ALMA vem do latim “anima”, que quer dizer “vida animada”. Mas o
que vem a ser isto? O termo vem dos antigos escritos bíblicos,
mais precisamente do Gênesis, quando descreve a criação do
homem: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, do barro,
e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito
alma vivente” (Gênesis 2,7).
Aqui aparece um componente que enriquece a origem do vocábulo
que o nosso português traduz por alma. Mais uma vez, o esforço
do tradutor acabou por não expressar a essência do termo. Na
versão grega da Bíblia – que precede a vulgata latina – há uma
confusão ao se tentar tornar claro o gesto do Criador: “o sopro,
o fôlego da vida”. Os gregos já faziam uma distinção entre o
corpo e a “psique”, o “ser psíquico”, que dominava o corpo, a
“id” ou a mente. Ao tentar “cristianizar” a expressão o tradutor
da vulgata utilizou-se do vocábulo “anima” (latino) que
expressava uma diferenciação do homem (um animal animado) dos
outros animais (inanimados).
Quanto rolo, não? Talvez fosse o momento de fazermos um
parêntese para vermos aonde estamos pisando.
Nos seus primeiros séculos, a Igreja serviu-se sobretudo da
língua grega. Foi nesta língua que foi escrito todo o Novo
Testamento, incluindo a Carta aos Romanos de São Paulo, bem como
muitos escritos cristãos de séculos seguintes.
No século IV a Igreja já
está consolidada em Roma e em todo o Império Romano e é então
que São Jerônimo traduz, pelo menos, o Antigo Testamento para o
latim e revê a Vetus Latina. A Vulgata foi produzida para ser
mais exata e mais fácil de compreender do que suas
predecessoras.
continua... |