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Água
de Março
Isnelda Weise
Quando em cascata se solta
Água é qual salto sem rede
Vida que nem sempre volta
Queda a fartar quem tem sede.
Água é anistia de pecado
Córrego a irrigar nossa alma
Quando o coração extenuado
Pede o frescor de água calma.
Água de março é cacimba
Riacho cantante na forma
De oásis a sonhar fonte infinda.
E acima da fugaz sobrevida
Prossegue entre pedras, contorna
Lavando a mão que a trucida.
Deusa da
tempestade
Jorge Linhaça
Entre raios e trovões
entre chuva e granizo
seu irônico sorriso
esconde suas emoções
É a deusa da tempestade
a desfrutar sua senda
entre os raios em contenda
firmando a sua herdade
Coriscos cruzam o firmamento
na escuridão tempestuosa
para alguns é um tomento
Para a deusa tão formosa,
os raios são o seu alento
e a tempestade é prazerosa
Tempestade
Izabel Pavesi
Chuva
Crateras, vou à exaustão.
Chuva
Alagamentos, eu sem chão.
Chuva
Lamacenta rua, podridão.
Quanta chuva!
Deslizamentos, galhos, tralhas
Córregos transbordantes, trovões.
Canoa no rio, corda e socorro,
Abrigo perdido, lágrimas e dor,
Dias difíceis, raios, vidas em ebulição.
Barracos, pedras, barro pelo vão.
Escuridão... vazio no olhar.
Tristeza... dor no coração.
Águas Traiçoeiras
Marise Ribeiro
Sinto seu corpo em descanso,
manso... um lago sem vida,
que não responde sequer ao toque
de uma pedra roçando em sua tona.
Sentimentos guardados em estoque,
prestes a se extravasarem de mim a qualquer momento,
não revolvem seus instintos lamacentos.
Sua placidez é cristalina.
Mergulho o olhar em seus abismos,
cismo...
Quero achar os mistérios escondidos,
as águas turvas e traiçoeiras,
mas um nevoeiro encobre sua alma...
Perco a calma.
Nem espero o vento dissipar a bruma...
Embarco largada à própria sorte,
sou mais uma... deslizando para a morte.
12/01/06
Azul
Da cor
Dos olhos dela
Azul
Da cor
Do céu azul
Azul
Da cor do Jeans
Que ela usa
Que veio
Dos States
Para o Brasil
Azul
Da cor
Do anil
Azul
Da cor
Do manto da padroeira do Brasil
Azul
Da cor
Da piscina
Onde
Essa menina
Costuma nadar
Só pra machucar
Quem a fica
A olhar
Pra cá
E pra lá
ABittar
Poetadosgrilos
LÁGRIMAS
Fátima Venutti
Minha solidão sibila na noite
um pérfido sorriso.
Zomba,
dissoluta,
toda a minha melancolia
num desatino estampido
em meus olhos.
Minha solidão clama,
insensata
e deixa-se levar
pelas lágrimas que caem,
Irrequietas e verdadeiras,
madrugada adentro,
noites sem um fim.
cão
de guarda
líria porto
cresceu a casa
ou pequeno fiquei eu
e o corredor não tira os olhos
quartos muitos
quantos
entro num e durmo noutro
o corpo oco
troco as camas de lugar
ficam a cômoda
o incômodo
e a dor pisa
repisa
ninguém na sala
na cozinha
nos banheiros
na lavanderia
quem diria?
sobra espaço
faltam passos
o silêncio faz barulho
de fritura
paredes portas
janelas telhado
tudo vem abaixo
(havia passarinhos
eu gostava dessa casa
como um gato)
rosnam-me os ossos
Submersos
Nelim Monti
Navios, barcos, cidade...
Que bóiam como folhas
Sem peso, sem dono, sem destino...
Séculos, após séculos continuam ali.
Continuam perdidos no tempo.
As ondas bailam no vai e vem
O mar continua lindo, incansável
Pescadores, tripulantes, habitantes.. .
Dormem embalados pelo canto das sereias
Nos braços do mar, envoltos na rede das águas
Nos lençóis de vento.
De um mar imenso de baleias enormes
e golfinhos brincalhões.. .
Sonhando...perdidos em seus sonhos...
De pesca, de luzes e de festas.
Em enormes salões sem paredes, adornados
pelas algas
Nas águas escuras submersos.
CHUVA NO CORAÇÃO
Guida Linhares
As gotas caem como chumbo
no coração ferido;
foram muitas as ilusões do sentido.
Lutar para ser feliz
ou se deixar ficar à deriva;
como um naúfrago distante da estiva.
Agarrado a farrapos loucos,
estraçalhado em sentimentos;
fuga desesperada, só em lamentos.
Vaga incerta a nau do desesperado.
Olhar baixo, horizonte sombrio,
nada além do mar bravio.
E a tempestade a fustigar a alma.
Dispersaram-se no éter os seus sonhos,
não há mais devaneios risonhos!
Sobre o
Paraíba do Sul
Helô Abreu
Evitando, ajuizadamente e femininamente, citar datas, posso
afirmar que foi um professor de geografia, quem me apresentou ao
rio. Aulas, mapas, ditados e notas garranchadas em péssima
letra, que não era capaz de acompanhar, por incompetência, a
catadupa de conhecimento que me era imposta. As aulas eram, ao
mesmo tempo, um desafio para a disciplina da atenção e uma
descoberta excitante, mesmo que virtual, do espaço geográfico
local, regional, do planeta inteiro que se oferecia para ser
abocanhado.
O evento seguinte, durante as provas, era o desenho, a mão
livre, do mapa da região e a inserção do relevo e da hidrografia
que fossem considerados relevantes, com os nomes devidamente
apostos aos respectivos acidentes. E pobre de quem cometesse uma
falha ou esquecimento. Castigo imediato: copiar cem vezes alguma
frase que contivesse o motivo do erro e a exigência de algum
“dever de casa” que, hoje, implicaria em perder as horas em
frente à televisão ou o jogo no computador mas que, naquela
época, implicava no pior dos sacrifícios de minhas horas de
recreio: a interrupção de alguma leitura aventuresca na qual me
perdia identificado aos personagens e vivendo, febril, o enredo.
Serpente. Enquanto no papel, representado nos mapas, essa era a
imagem nítida do Paraíba do Sul na minha imaginação. Desde sua
cauda, perdida misteriosamente em sua nascente, escondida em
algum ponto remoto da Mantiqueira, passando pela alça que
descreve a mudança inesperada de orientação, por seu corpo
sinuoso servindo como divisor de unidades políticas, até sua
cabeça - a foz - mordendo tenazmente o corpo imenso do
Atlântico.
Essa imagem foi, mais tarde, consolidada quando passei do
virtual ao real e pude ver, de Campos do Jordão, o panorama
incrivelmente belo do rio que se estende pelos vales em meandros
e corredeiras e que, na época, banhava as “sete cidades”,
consideradas importantes por seu tamanho e pela contribuição
econômica. Era uma visão que inspirava poetas e que parecia ser
uma promessa de progresso ordenado. Novamente, doce ilusão...
Nada mais enganador do que o visto “a vôo de pássaro”. A
ocupação das margens do rio sempre foi desordenada, depredadora
e focalizada nos interesses econômico-financeiros de grupos ou
indivíduos avaros e indiferentes, quando não agressivos, mesmo,
às conseqüências futuras de suas ações. Verdade que, àquela
época, pouco se sabia, no país, a respeito de ecologia e de
impactos ambientais, no sentido científico do termo.
Os efeitos mediatos e temporalmente permanentes de assoreamento,
mudança do regime sazonal do volume de água e a óbvia mortandade
anômala das espécies, originalmente diversas e abundantes, já
deveriam, no entanto, servir de aviso quanto à malfadada
estratégia de uso do solo, das margens e do próprio rio. A
implantação de industrias, que em seus processos despejam, sem
tratamento, poluentes diversos, sentenciou o rio a morrer física
e biologicamente.
Rio branco em seu percurso no Estado do Rio de Janeiro, com
afluentes permanentes, manancial capaz de manter o abastecimento
das suas muitas cidades ribeirinhas e de permitir uma explotação
racional e sustentada de seu potencial biológico, o Paraíba do
Sul está, hoje, em condições equivalentes às de um paciente de
UTI. Sua recuperação é mais do que urgente, é vital. O impacto
de seu assassinato deliberado implica no mais importante e
imprevisível choque ecológico, geográfico e econômico do século
uma vez que, potencialmente, pode se estender para além da área
imediata de sua vasta e, até então, fértil bacia.
Eu que durante minha infância vivi na região, conheço bem o
Paraíba do Sul e suas paisagens que são várias e lindas. A
serpente continua me encantando. Desejo que sua mordida no
oceano seja permanente e cada vez mais intensa e que,
desmentindo minha imaginação infantil, absorva e troque, com o
mar, vida em vez de morte.
O
MAR E A ROCHA
Jorge Linhaça
As ondas chocam-se
nas pedras
desde os tempos
imemoriais
sem cessar o
movimento jamais
a onda rompe, a
pedra quebra
Sou a onda a bater
em rochas
sou uma rocha a
lutar no mar
sou o ir e o vir
do meu poetar
sou o samba e sou
a cabrocha
Sou a onda
enquanto eu lapido
sou rocha quando
sou lapidado
sou a mescla de
meus sentidos
Sou o profano, sou
o sagrado,
sou o mocinho e
sou o bandido,
sou o milagre e
sou o pecado.
O mar que navego
Sandra Freitas
Neste mar que navego
Sou onda inversa
Não ouço mais o vento
Nem o cantar dos pássaros
Viajo no tempo
Contando migalhas
Do que ainda resta
Na memória desgastada
Pelo tempo e sofrimento.
No mar que navego
Sou prisioneira
Sem algemas.
Vou seguindo a escuridão
Que me cerca
Por todos os lados
E estreita em braços
Tão fortes que parecem
Laços que me fazem posse.
No mar que navego
Sou barco solitário
Sem rumo sem prumo.
Não tenho destino
Só o desatino
De uma garganta estéril
Sem palavras e fantasias
Do fim da poesia...