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Mural Virtual Das Letras

março/abril 2007


 

 

 

Águas

Belvedere


Quero as águas
de março
pra me convencer
que de fato
vivenciei um verão.


Não vi céu azul,
nem alegrias
pintadas nas cores
fúcsia, laranja, verde-limão.

Sequer uma brisa
que me refrescasse
a alma...


Apenas um calor
escandalosamente

opressivo.

 

 

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Água de Março
Isnelda Weise

Quando em cascata se solta

Água é qual salto sem rede

Vida que nem sempre volta

Queda a fartar quem tem sede.



Água é anistia de pecado

Córrego a irrigar nossa alma

Quando o coração extenuado

Pede o frescor de água calma.



Água de março é cacimba

Riacho cantante na forma

De oásis a sonhar fonte infinda.



E acima da fugaz sobrevida

Prossegue entre pedras, contorna

Lavando a mão que a trucida.







Deusa da tempestade
Jorge Linhaça

Entre raios e trovões
entre chuva e granizo
seu irônico sorriso
esconde suas emoções

É a deusa da tempestade
a desfrutar sua senda
entre os raios em contenda
firmando a sua herdade

Coriscos cruzam o firmamento
na escuridão tempestuosa
para alguns é um tomento

Para a deusa tão formosa,
os raios são o seu alento
e a tempestade é prazerosa









Tempestade
Izabel Pavesi



Chuva

Crateras, vou à exaustão.



Chuva

Alagamentos, eu sem chão.



Chuva

Lamacenta rua, podridão.



Quanta chuva!

Deslizamentos, galhos, tralhas

Córregos transbordantes, trovões.



Canoa no rio, corda e socorro,

Abrigo perdido, lágrimas e dor,

Dias difíceis, raios, vidas em ebulição.

Barracos, pedras, barro pelo vão.



Escuridão... vazio no olhar.

Tristeza... dor no coração.









Águas Traiçoeiras
Marise Ribeiro





Sinto seu corpo em descanso,

manso... um lago sem vida,

que não responde sequer ao toque

de uma pedra roçando em sua tona.

Sentimentos guardados em estoque,

prestes a se extravasarem de mim a qualquer momento,

não revolvem seus instintos lamacentos.

Sua placidez é cristalina.

Mergulho o olhar em seus abismos,

cismo...

Quero achar os mistérios escondidos,

as águas turvas e traiçoeiras,

mas um nevoeiro encobre sua alma...

Perco a calma.

Nem espero o vento dissipar a bruma...

Embarco largada à própria sorte,

sou mais uma... deslizando para a morte.




12/01/06








Azul
Da cor
Dos olhos dela
Azul
Da cor
Do céu azul
Azul
Da cor do Jeans
Que ela usa
Que veio
Dos States
Para o Brasil
Azul
Da cor
Do anil
Azul
Da cor
Do manto da padroeira do Brasil
Azul
Da cor
Da piscina
Onde
Essa menina
Costuma nadar
Só pra machucar
Quem a fica
A olhar
Pra cá
E pra lá

ABittar
Poetadosgrilos



 

 


LÁGRIMAS
Fátima Venutti



Minha solidão sibila na noite

um pérfido sorriso.

Zomba,

dissoluta,

toda a minha melancolia

num desatino estampido

em meus olhos.

Minha solidão clama,

insensata

e deixa-se levar

pelas lágrimas que caem,

Irrequietas e verdadeiras,

madrugada adentro,

noites sem um fim.









cão de guarda
líria porto

cresceu a casa
ou pequeno fiquei eu
e o corredor não tira os olhos

quartos muitos
quantos
entro num e durmo noutro
o corpo oco

troco as camas de lugar
ficam a cômoda
o incômodo
e a dor pisa
repisa

ninguém na sala
na cozinha
nos banheiros
na lavanderia
quem diria?

sobra espaço
faltam passos
o silêncio faz barulho
de fritura

paredes portas
janelas telhado
tudo vem abaixo

(havia passarinhos
eu gostava dessa casa
como um gato)

rosnam-me os ossos

 




Submersos
Nelim Monti

Navios, barcos, cidade...
Que bóiam como folhas
Sem peso, sem dono, sem destino...
Séculos, após séculos continuam ali.
Continuam perdidos no tempo.

As ondas bailam no vai e vem
O mar continua lindo, incansável
Pescadores, tripulantes, habitantes.. .
Dormem embalados pelo canto das sereias
Nos braços do mar, envoltos na rede das águas
Nos lençóis de vento.
De um mar imenso de baleias enormes
e golfinhos brincalhões.. .

Sonhando...perdidos em seus sonhos...
De pesca, de luzes e de festas.
Em enormes salões sem paredes, adornados
pelas algas
Nas águas escuras submersos.
 

 

 


CHUVA NO CORAÇÃO
Guida Linhares



As gotas caem como chumbo

no coração ferido;

foram muitas as ilusões do sentido.



Lutar para ser feliz

ou se deixar ficar à deriva;

como um naúfrago distante da estiva.



Agarrado a farrapos loucos,

estraçalhado em sentimentos;

fuga desesperada, só em lamentos.



Vaga incerta a nau do desesperado.

Olhar baixo, horizonte sombrio,

nada além do mar bravio.



E a tempestade a fustigar a alma.

Dispersaram-se no éter os seus sonhos,

não há mais devaneios risonhos!

 

 

 

 

Sobre o Paraíba do Sul
Helô Abreu




Evitando, ajuizadamente e femininamente, citar datas, posso afirmar que foi um professor de geografia, quem me apresentou ao rio. Aulas, mapas, ditados e notas garranchadas em péssima letra, que não era capaz de acompanhar, por incompetência, a catadupa de conhecimento que me era imposta. As aulas eram, ao mesmo tempo, um desafio para a disciplina da atenção e uma descoberta excitante, mesmo que virtual, do espaço geográfico local, regional, do planeta inteiro que se oferecia para ser abocanhado.

O evento seguinte, durante as provas, era o desenho, a mão livre, do mapa da região e a inserção do relevo e da hidrografia que fossem considerados relevantes, com os nomes devidamente apostos aos respectivos acidentes. E pobre de quem cometesse uma falha ou esquecimento. Castigo imediato: copiar cem vezes alguma frase que contivesse o motivo do erro e a exigência de algum “dever de casa” que, hoje, implicaria em perder as horas em frente à televisão ou o jogo no computador mas que, naquela época, implicava no pior dos sacrifícios de minhas horas de recreio: a interrupção de alguma leitura aventuresca na qual me perdia identificado aos personagens e vivendo, febril, o enredo.

Serpente. Enquanto no papel, representado nos mapas, essa era a imagem nítida do Paraíba do Sul na minha imaginação. Desde sua cauda, perdida misteriosamente em sua nascente, escondida em algum ponto remoto da Mantiqueira, passando pela alça que descreve a mudança inesperada de orientação, por seu corpo sinuoso servindo como divisor de unidades políticas, até sua cabeça - a foz - mordendo tenazmente o corpo imenso do Atlântico.

Essa imagem foi, mais tarde, consolidada quando passei do virtual ao real e pude ver, de Campos do Jordão, o panorama incrivelmente belo do rio que se estende pelos vales em meandros e corredeiras e que, na época, banhava as “sete cidades”, consideradas importantes por seu tamanho e pela contribuição econômica. Era uma visão que inspirava poetas e que parecia ser uma promessa de progresso ordenado. Novamente, doce ilusão...

Nada mais enganador do que o visto “a vôo de pássaro”. A ocupação das margens do rio sempre foi desordenada, depredadora e focalizada nos interesses econômico-financeiros de grupos ou indivíduos avaros e indiferentes, quando não agressivos, mesmo, às conseqüências futuras de suas ações. Verdade que, àquela época, pouco se sabia, no país, a respeito de ecologia e de impactos ambientais, no sentido científico do termo.

Os efeitos mediatos e temporalmente permanentes de assoreamento, mudança do regime sazonal do volume de água e a óbvia mortandade anômala das espécies, originalmente diversas e abundantes, já deveriam, no entanto, servir de aviso quanto à malfadada estratégia de uso do solo, das margens e do próprio rio. A implantação de industrias, que em seus processos despejam, sem tratamento, poluentes diversos, sentenciou o rio a morrer física e biologicamente.

Rio branco em seu percurso no Estado do Rio de Janeiro, com afluentes permanentes, manancial capaz de manter o abastecimento das suas muitas cidades ribeirinhas e de permitir uma explotação racional e sustentada de seu potencial biológico, o Paraíba do Sul está, hoje, em condições equivalentes às de um paciente de UTI. Sua recuperação é mais do que urgente, é vital. O impacto de seu assassinato deliberado implica no mais importante e imprevisível choque ecológico, geográfico e econômico do século uma vez que, potencialmente, pode se estender para além da área imediata de sua vasta e, até então, fértil bacia.

Eu que durante minha infância vivi na região, conheço bem o Paraíba do Sul e suas paisagens que são várias e lindas. A serpente continua me encantando. Desejo que sua mordida no oceano seja permanente e cada vez mais intensa e que, desmentindo minha imaginação infantil, absorva e troque, com o mar, vida em vez de morte.

 

 

 

O MAR E A ROCHA
Jorge Linhaça
 
 
As ondas chocam-se nas pedras
desde os tempos imemoriais
sem cessar o movimento jamais
a onda rompe, a pedra quebra
 
Sou a onda a bater em rochas
sou uma rocha a lutar no mar
sou o ir e o vir do meu poetar
sou o samba e sou a cabrocha
 
Sou a onda enquanto eu lapido
sou rocha quando sou lapidado
sou a mescla de meus sentidos
 
Sou o profano, sou o sagrado,
sou o mocinho e sou o bandido,
sou o milagre e sou o pecado.
 
 
 
 
 
O mar que navego
 Sandra Freitas
 
Neste mar que navego
Sou onda inversa
Não ouço mais o vento
Nem o cantar dos pássaros
Viajo no tempo
Contando migalhas
Do que ainda resta
Na memória desgastada
Pelo tempo e sofrimento.

No mar que navego
Sou prisioneira
Sem algemas.
Vou seguindo a escuridão
Que me cerca
Por todos os lados
E estreita em braços
Tão fortes que parecem
Laços que me fazem posse.

No mar que navego
Sou barco solitário
Sem rumo sem prumo.
Não tenho destino
Só o desatino
De uma garganta estéril
Sem palavras e fantasias
Do fim da poesia...
 
 

 

Organização:

 Terezinha Manczak  

mural@stmt.com.br

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