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Feliz Ano Novo! |
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Haicais para Roberta
Terezinha Manczak
I
Grávida em dezembro
Patricia, mãe de Maria
espera Roberta.
II
Na sala, um pinheiro
bolas e anjos coloridos
Maria acorda: surpresa!
III
Encantada, diz:
(Suas primeiras palavras)
oh! olha! olha!
IV
Ninando Roberta
Maria faz um carinho
No ventre da mãe
V
Luz na Catedral
Deus menino em manjedoura
Noite de Natal
....
lã_terna
líria porto
mal piso na rua
a lua se acende
parece que ela percebe
a minha rima ruim
e ilumina as esquinas
para que eu me desvie
das pedras destes caminhos
*
NAÇÃO DE PÁRIA
(semiplagiado de Duda Machado,
a quem dedico)
Não que me agrade
gaiola ou grade -
pelo contrário.
Não que me aguarde
lá dentro um mar de
rosas: meu páreo
não é bem este e,
como da peste,
corro por fora,
enquanto a esfinge
feroz nem finge
que me devora.
Porém sucede
que, sem parede,
nada me ecoa,
nem a arbitrária
pátria que, pária,
procuro à toa.
Autor: Nelson Ascher, poeta, escritor e crítico literário
brasileiro (1958)
SEU NOME É MEU
eu sou como
sou
pronome
pessoal intransferível
TorquatoNeto
Ela me deu vinte e oito cavalos dourados
vinte e oito armaduras de ouro
vinte e oito procuras e desejos
e fez-me ator e bailarino e poeta
e a rima rima com o ímã
e o amor rima com o temor
Barrocos e concretos sabem isso
Cri, vi, escrevi este escrito
sem segredos, sem desejos
Ele se lançõu no ventre
colocou-se dentro da força do ímã que existia entre ela e eu.
Hoje não existe Península Ibérica, nem África, nem a
[ ânsia de mundo
novo
O meu amor morreu de temor
nessa manhã de mármore e vento
que se instaura em minha voz
Minha voz, meu refúgio
foz de minha existência
que abandonou o canto
que abriu mão da loucura
Só um coração tem voz para dizer que está farto
largando a tristeza, essa locomotiva,
nas linhas de ferro do eu de nós
Eu, que tantas outras vezes, morri
de tiro
facadas
porrada
e América
de novo pronto para morrer
do novo
Eu, pronome pessoal de todas as pessoas
O pronome substitui o nome, mas o nome não substitui
[ o homem
então vou falar seu nome, vou digitar seu nome, pois até
[ o seu pronome
morreu contido na pessoa
Só restou o nome, o nome que fica para os poetas.
Autor: Paulo Lins, poeta e escritor brasileiro (1958)
SOFT RAIN, HIGH
RAIN
perdido entre pedras clássicas
me movo de novo
pelas aléias e aldeias
trago orquídeas mínimas,
um gosto, um clima,
perdido entre o erro e a rima
êxtases, ideogramas, essas minúcias
de pedra rara em ímã, no afã
de vê-la estilhaçar
(recluso entre palavras)
que se dissolvem como sal,
assim, ao menor sinal.
Autor: Rodrigo García Lopes, poeta e escritor brasileiro
(1965)
Com(passo)
Anna Paes
Escrevo
Enquadro
Apago
Abr)o( com(passo)
)lento(
Giro
Num esquadro
90 graus
Encho o espaço
Traço
Desisto
Não é isto.
Apago
Recomeço
Num com(passo) aberto
360 graus
Revejo...
Que traçado indecente!
Não apago!
Giro
(É a vida...
Em círculos... sem fim!)
Anna Paes
Brasilia - DF
15hs19- 15/12/2006
....
A mão gira
Fecha a torneira
A água para
Uma gota tremula
Presa ao bico
Da torneira
Brilha e cai
Desliza e vai
Pro ralo
Uma gota
Inutilmente perdida
Desperdiçada
Que não serviu
Pra nada
E era uma gota
Tão linda
No instante
Em que brilhou
Antes de cair
ABittar
poetadosgrilos
NA CORDA BAMBA
Aldo Cordeiro
Neste ano
de 2006, preferi ler livros pequenos. Alguns muito bons:
"Caninos Brancos", do Jack London. A estória de um lobo
abandonado,
lutando contra todas as atrocidades, e que recupera a
ternura adormecida,
quando tratado com carinho.
"A Hora e a vez de Augusto Matraga", de Guimarães Rosa. Um
homem e
sua guerra interior, alimentado pela crença na redenção.
"Destinatário Desconhecido", de Kathrine Kressmann Taylor.
Triste e
poética denúncia dos males do nazismo.
"Silêncio, por favor", de Ivan Izquierdo. Sobre as inúmeras
guerras
que perturbam a nossa paz interior.
Li ainda outro, sobre um rio que morria sufocado pela
poluição e
desprezo.
Não planejei nada disso. As leituras foram acontecendo. Nos
últimos
tempos, tenho comprado livros, preferencialmente, no meu
"livreiro", o
Jorge, que vende livros usados na porta da Igreja.
Hoje, no entanto, acordei pensando em ler o livrinho da Ana
Suzuki -
"Quando papai foi pra guerra" - um delicado e rico relato da
sua infância,
no tempo da 2ª Guerra Mundial.
O que me surpreendeu foi o interesse que me despertaram, em
2006,
livros sobre algum tipo de guerra. O que eu pretendo
descobrir, lendo,
enquanto a minha cidade se afoga em medos e desesperança?
Talvez o mesmo
rastro de humanidade e de resistência que busco nos filmes
de guerra, como o
fio de vida que reaparece quase no final do filme "O
Pianista". Talvez
esteja querendo ouvir o lamento do rio que se torna lama e
morre aos poucos
pelo caminho e encontrar em suas margens um lampejo de
sobrevivência.
Hoje, no Brasil, há um perverso complô contra nós, os
mariscos, que
pagamos impostos e só queremos gritar gol quando nosso time
ganha a partida,
brincar o carnaval nas ruas, rezar as orações que nossas vós
nos ensinaram,
ver nosso cineminha de domingo, comendo nossa pipoca em paz.
Complô de homens públicos que se corrompem e assumem,
publicamente,
a falta de vergonha e descompromisso com o seu público. De
policiais que
deveriam nos defender e nos achacam e assaltam. De bandidos
tratados como
lordes. De bandidinhos tratados como animais enjaulados e
torturados, pra
se tornarem mais ferozes, de crianças sem futuro e educação,
que aprendem,
roubando nossos celulares, a roubar nossas casas, em pouco
tempo. Como
conseqüência, nas grandes cidades (e cada vez mais nas
menores, também), as
balas perdidas, seqüestros, trocas de tiros, ruas fechadas.
A gente aprende
a desconfiar, a se fechar, a olhar o outro como uma fera
prestes ao ataque.
A gente se fecha em casa, lamenta, comenta com os vizinhos:
como era
bela a minha cidade! Como era gostoso ir a um samba em
Madureira, de trem,
e voltar de madrugada, apenas com uma pontinha de medo e a
lembrança gostosa
de alguma morena que encontramos no caminho. Com todo
respeito.
- A gente pode se encontrar, novamente, no próximo sábado?
Como fiquei emocionado ao ver, pela janela da casa onde me
hospedei,
em Passa Quatro, pessoas passeando pela rua, sem medo.
Crianças brincando,
cachorros aos bandos, despreocupados. Bicicletas indo e
vindo.
Não. Não perdi a esperança. Não perco nunca. Porque é o que
me
alimenta. Mas, lamento, com tristeza, o ônibus incendiado,
que saiu do
Espírito Santo pra São Paulo e, apenas porque a linha assim
determina,
tangenciou a cidade do Rio de Janeiro. Lamento a mãe que
morreu protegendo o
filho, ao lado da cabine da polícia, em Botafogo, aqui ao
lado. Lamento as
crianças de rua, que se tornam bandido porque é a única
escola que
freqüentam. De muitos de nós, recebem, apenas o medo, a
indiferença, o
desejo, expresso nos olhares ásperos e nas palavras
cuspidas, de que sejam
varridos de nossas calçadas. Lamento a cidade dividida, onde
uma ilha de
consumo, engaiolada, se vê, cada dia mais, cercada de casas
de tijolos
aparentes e ruas disformes, as comunidades onde se escondem
milhões de
cidadãos pobres e de onde brotam os militantes da
desesperança, com suas
armas ferozes.
O que nós devemos fazer, além de rezar? Como reconstruir
esse país,
essa cidade? Não é disparando farpas contra a "turma dos
direitos humanos"
que, muitas vezes, querem apenas que o moleque de rua não
seja tratado pior
do que é, pra não virar um bandidão, e que o Estado haja com
equilíbrio pra
não agravar as coisas. Não é, simplesmente, aumentando a
idade penal, porque
a turminha que já porta um fuzil apenas vai trocar o
reformatório pela
penitenciária e tocar o bonde de lá de dentro. No desespero,
a gente
procura culpados, tenta simplificar uma história que vem se
enraizando,
perversamente, ha tanto tempo.
Qual é o caminho, então? Se existem tantas pessoas de bom
coração,
espalhadas pelo Brasil, o que devemos fazer pra reverter
essa história
diabólica que contamina nosso presente e povoa de sombras o
nosso futuro?
Neste momento, sem respostas ou cansado de procurá-las, se
dependesse apenas de mim, iria morar em Passa Quatro ou
outra passagem do
interior. Estou cansado de ver a grande avenida se
transformar em uma
confusa "comunidade" de tijolos expostos e habitantes
sofridos, jogados
entre mares e rochedos.
Esta não é uma mensagem de ano novo. Pois o ano, começando
assim,
não tem nada de novo, é um filme 365 vezes piorado. Talvez
escreva outra
coisa até o dia 31. Talvez, apenas, na hora da virada, feche
os olhos e
pense nos amigos, vocês todos, nos bichos, nas plantas, nos
riachos que
ainda correm líquidos e puros, e sonhe com um rio melhor,
mais limpo, de
águas piscosas e mulheres bonitas e rapazes gentis, crianças
brincando e
cachorros sem compromisso, sem medo, apenas passeando em
suas margens.
Rio, 29.12.2006
Organização:
Terezinha Manczak
mural@stmt.com.br
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