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Hassis & As luas
de Galileu
Conhecemos uma civilização, um país, uma cidade e mesmo uma
vila pela maneira como tratam seus artistas. O artista é
aquele que vem à sociedade sem petição. Ninguém exige a
existência de um artista. Ele é fruto da mais pura teimosia.
Um ser que não se submete à funcionalidade diária, ao grito
da moda e da hora. É um ser que prefere a turbulência, a
nelvragia e o vão do abismo ao pacífico ruminar das horas. O
artista é um construtor de nadezas, nadezas que modificam
uma vida, uma geração, um século e mesmo uma civilização. O
artista é a alma indócil do seu tempo. Não raro o meio em
que vive lhe traz tormentos e agruras. Não são poucos os
exemplos de artistas que pagaram caro pela insistência de
percorrer as sendas da menos-valia: Schumann amargou fétidos
quartos de pensão para compor suas sinfonias. Wagner foi de
Paris a Bordeaux a pé à procura de algum emprego que lhe
desse o que comer. Próximo ao teatro de Bordeaux, com a
carta de recomendações nas mãos, resolveu ler a mesma.
Imaginemos Wagner, na penúria em que se encontrava, lendo a
carta: “Querido maestro: não sabendo como me livrar desse
pobre-diabo que vai procurá-lo, dei-lhe esta carta. Livre-se
dele como puder.” E assim tem sido o navio fantasma (nesta
época Wagner já havia composto “O navio fantasma”) de nossos
sonhos. Há uma tendência obscura de se descartar um artista
e sua arte. Não precisamos ir longe, aqui ao lado de onde
escrevo estas linhas, uma pintura intitulada Mural
Humanidade, obra de Hassis Corrêa realizada em 1978, que
ocupa as paredes internas do antigo altar-mor e parte da
nave central da Igrejinha da UFSC, está em acelerado
processo de deterioração. Está em inadmissível estado de
ruína. Fui assistir ao espetáculo “As luas de Galileu”
baseada no texto “Galileu Galilei” de Bertold Brecht. Uma
das reclamações do personagem de Brecht é justamente que na
Itália de 1630 há muito investimento em arte e pouco em
ciência. Enquanto ouço as reclamações de Galileu e a punição
a ele impingida pela Igreja Católica salta aos meus olhos o
imenso painel de Hassis com 160 m². Imenso na sua ruína.
Belo, ainda que em derrocada. Durante o espetáculo o painel
me olha e implora por suas cores originais. Um personagem do
Mural Humanidade chega a me alertar: “é isso aí: estamos na
época em que se investe mais em ciência que em arte”. O fato
é que o Mural Humanidade é a maior obra do artista e foi
feita sem custos para a Universidade Federal de Santa
Catarina, que tem a obrigação e o dever de restaurá-la. Será
que não encontrarmos uma mente sábia para perceber os
valores artísticos, humanos, estéticos e históricos da obra
de Hassis? A peça “As luas de Galileu”, ainda em cartaz na
Igrejinha da UFSC, acontece como a mais perfeita das
ironias. Num local em que teses e dissertações são
defendidas com frequência, muitas sobre artistas e suas
obras, morre uma obra de valor inestimável. Eis a nossa
vila. A coisa é simples: restaura-se a Igrejinha da UFSC, o
Mural Humanidade e o Teatro da UFSC e teremos mais motivos
para frequentar à Universidade, para pertencermos à
Universidade.
Marco Vasques
Secretaria de Turismo, Cultura e Esporte
Gerente de Polí¬ticas de Cultura
vasques@sol.sc.gov.br
vasques_marco@hotmail.com
Conheça mais do autor:
http://www.poetasnosingular.com.br/
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