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O Estrangeiro e O Processo
Meursault
e Joseph K. são personagens que nos colocam diante de nossas
misérias. Meursault e Joseph K. trilham sendas diferentes,
mas o destino deles é o mesmo. O devir: um absurdo: o
absurdo.
O
personagem de Franz Kafka, Joseph K., acorda e encontra dois
guardas em seu quarto. Ele vai ser processado e condenado
por um crime que desconhece. Vai ser condenado e processado
como qualquer nascente.
Sempre
interpretei o livro O processo como a mais nítida
metáfora do nascimento: nascemos para sermos processados até
a execução. Já o personagem de Albert Camus, Meursault,
terá, também, em seu destino um processo. Contudo ele sabe o
motivo de sua condenação. Ele assassina um homem sem motivo
aparente: a morte é motriz de si mesma.
O romance
começa narrando a indiferença dele pela morte de sua mãe. Aí
ele já está condenado. Também em O estrangeiro
impera a metáfora do nascimento e do estar no mundo.
Meursault vai ser preso, condenado e executado, mas não se
desespera, não resiste. Joseph K. se desespera, resiste e
topa entrar no jogo apresentado. Quer uma lógica, um
sentido. Meursault abandona a lógica, vê o sem-sentido do
sentido e se recusa a jogar o jogo dado. Muitas são as
questões que se cruzam entre esses dois mitos do século XX:
o mundo está aí, há sentido nele? Que força absurda nos faz
ir adiante? O que nos motiva a levantar e romper as horas?
Por que insistir numa existência que acabará no
esquecimento? Joseph K. faz essas indagações pelo tormento,
Meursault pela indiferença. Quem assistiu ao espetáculo O
estrangeiro, dirigido pela atriz Vera Holtz, pode conviver
com Meursault na interpretação do ator Guilherme Leme. Uma
rara surpresa o trabalho que se apresentou no Teatro Álvaro
de Carvalho no último final de semana, pois as produções do
“eixo”, quando aportam por aqui, quase sempre são
espetáculos {de “estrelas”} feitos para uma burguesia
careta, burra, brega e que paga ingressos caríssimos só para
ver, em carne e osso, o que vê todos os dias pela televisão.
Essa
burguesia não conhece um ator da cidade em que vive, não
conhece um diretor e nem um grupo de teatro local, não vai a
um espetáculo no Teatro da Ulbrao, no Teatro da Armação, no
Teatro da Igrejinha da UFSC e demais espaços alternativos da
cidade, mas lota qualquer teatro para ver um global. Eles,
certamente, não gostaram da poética incômoda que imperou em
O estrangeiro. O teatro se fez teatro:reverberação.
Guilherme Leme, sob a luz {magnetismo e sedução} desenhada
por Maneco Quinderé, apresenta uma poética experimental. Ele
se consome ao sol e nasce no sal da linguagem. Perturba a
carne e o espírito na saga de Meursault. A construção da
dramaturgia a partir de um romance, quase sempre é um
tormento para diretores e atores, mas o ator e diretor
dinamarquês Morten Kirkskov adaptou com maestria o já cênico
O estrangeiro.
Vera Holtz,
em seu primeiro espetáculo como diretora, nos proporciona
uma aula de direção. Uma cadeira como cenário. Uma incrível
poética visual, um ator que parece ter ouvido Brecht em seu
Pequeno Organon Para o Teatro: “Para impedir que se
dê uma atrofia, o ator tem de transformar o simples ato de
mostrar num ato artístico.”
É
impossível não sair do teatro pensando no que Joseph K. e
Meursault nos propõem: somos um cemitério ambulante, túmulos
vivos, ampulhetas em consumação, círios queimando ao sol,
enfim, somos esses náufragos em busca de um sentido. Estamos
divididos. Uns Meursault: indiferentes que morrem por
vontade própria, desertores da lógica e do jogo. Outros
Joseph K.: desesperados que resistem, que jogam.
Marco Vasques
Secretaria de Turismo, Cultura e Esporte
Gerente de Polí¬ticas de Cultura
vasques@sol.sc.gov.br
vasques_marco@hotmail.com
Marco Vasques é poeta,
contista e crítico. Lançará no dias 17 de junho, na FUNDAÇÃO
BADESC, às 19h, dois novos livros: Flauta sem Boca (Poemas)
e Diálogos com a literatura brasileira - volume III
(entrevistas e bioensaios).
Conheça mais do autor:
http://www.poetasnosingular.com.br/
http://www.poetasnosingular.blogspot.com/
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