
Luiz Eduardo Caminha
O QUE É ISTO, GENTE ?
O Encontro de Stammtisch (Stammtischtreffen) não existe em nenhuma parte do
mundo. Nem mesmo na Alemanha. Esta foi uma tradição re-inventada aqui, na nossa
Blumenau e hoje levada a efeito em mais de 30 cidades catarinenses.
É, na verdade uma Strassenfest (Festa de Rua), tão comum na Alemanha, aonde os
Stammtische trazem para a Rua XV de Novembro (antiga Würststrasse – Estrada da
Lingüiça), a principal artéria central de Blumenau, toda a sua estrutura: mesas,
copos, bebidas e alimentação, procurando re-editar em plena rua, das 9:00 as
17:00 de um Sábado, as suas reuniões diárias, semanais, quinzenais ou mensais.
Durante o evento, inúmeras bandas típicas, com acordeões, gaitas de boca
(harmônicas), instrumentos de sopro, teufelsgeig, entre outros instrumentos,
animam a festa. A alegria é a tônica e prevalece um clima de muita amizade e
irreverência. Seus componentes gastam seu tempo comendo, brindando, cantando,
jogando conversa fora além das rodadas de dominó, cartas, skat e outros. Um
espaço especial é dispensado às crianças.
O evento, denominado “Strassenfest mit Stammtischtreffen”, deixou de lado o
significado germânico para se identificar simplesmente como Encontro de
Stammtisch ou, somente, Stammtisch, embora esta não seja a denominação correta.
Enfim, um Encontro é uma grande reunião de Stammtische, cada qual organizado em
suas próprias barracas.
A IDÉIA
Tudo poderia ter começado sete (7) anos antes.
De fato, em janeiro de 1993, Norberto Mette fora empossado Secretário Municipal
de Saúde do Governo Renato Vianna/Vilson Souza, em Blumenau.
Com o intuito de colaborar na criação de atrativos turísticos para a cidade, o
Publicitário, Jornalista e Agitador Cultural Horácio Braun, compareceu à sede da
Secretaria de Turismo com o intuito de propor idéias inovadoras. Entre tantas,
uma delas ficou gravada na mente do Secretário Mette: A realização de um
Encontro dos Stammtische existentes em Blumenau, nas dependências da PROEB.
Segundo estimativas do próprio mentor, devia haver, espalhados pela cidade, mais
de 1.200 destes grupos.
A ordem, entretanto, naquele início de Governo, era a contenção de despesas até
que as finanças da Prefeitura ficassem arrumadas. A idéia foi escanteada, mas
não saiu da cabeça do Secretário e, nem tampouco, de seu proponente.
Os anos passaram e, em Julho de 1999, foi criado o Instituto Blumenau 150 anos.
No ano 2000, no dia 02 de Setembro, Blumenau completaria 150 anos de existência.
Diversas comissões foram formadas e Ricardo Stoedick foi guindado à condição de
Presidente do Instituto. Norberto Mette comandava a Comissão de Eventos do
Instituto. E foi aí, no 2º. Semestre de 1999 que Horácio voltou à carga. O
Encontro de Stammtisch ficou agendado para o ano seguinte, no dia 01/09.
Entretanto, ficara para discussão posterior, o local aonde seria realizado.
Horácio achava que o local apropriado seria a Proeb. O Instituto queria que
todos os eventos, relativos à data jubilar, acontecessem na Rua XV de Novembro.
O Instituto encarregou Horácio Braun de tocar a idéia, enquanto Rita Schüermann
se encarregaria de organizar a Strassenfest, a ser realizada na Rua XV, no dia
26/08/2000.
O PROGRAMA STAMMTISCH
Desde 1987, eu apresentava na TV Galega o Programa sobre qualidade de vida
denominado FELIZCIDADE. Por sua vez, Mette apresentava um Programa voltado ao
Turismo loco-regional, de nome TEMPO LIVRE.
Transcorria o mês de Setembro de 1999, quando Mette me propôs a fusão dos dois
Programas. O TEMPO LIVRE sairia do ar, o FELIZCIDADE, em função de sua audiência
permaneceria e se veria acrescido de 30 minutos de um quadro com o estranho nome
STAMMTISCH. Foi, confesso, meu primeiro contato com aquele palavrão.
A idéia era boa. Naquele espaço seriam enfocados os Stammtische (Mette teve que
me explicar do que se tratava), a culinária artesanal e tópicos sobre turismo.
Como aquilo tudo tinha a ver com QUALIDADE DE VIDA e tendo em conta que seria o
próprio Mette quem ancoraria aquela meia hora, aceitei a idéia.
No entanto, em Blumenau, onde toda a cidade parece se transferir para as praias
a partir da Oktoberfest, o lançamento de qualquer novidade estaria fadada ao
fracasso. Decidimos, em comum acordo, rediscutir a idéia no 1º. Semestre de
2000, ficando o lançamento do novo formato do Programa para Março daquele ano.
O Verão passou e, em Março de 2000, retomamos às estratégias para a montagem do
novo quadro. Marcamos a data de estréia para 02 de Abril, um Domingo, depois da
tradicional Missa na TV Galega. Perto desta data, surge um empecilho: o nome do
Mette já corria solto como candidato do PSDB a Vice-Prefeito. Faltava apenas a
homologação partidária. O Altair Pimpão, Diretor-Presidente da TV Galega
resolveu consultar, informalmente, o juiz eleitoral Dr. Jorge da Costa Beber.
Estávamos adentrando na 2ª. quinzena de Março. Pimpão nos chama para uma
reunião. Bomba! Bomba! Um tiro no pé de nosso planejamento. O Dr. Jorge Beber
tinha aconselhado que nenhum candidato aparecesse no ar a partir de 04 de Abril,
seis meses antes das eleições.
O motivo era a Legislação Eleitoral que previa a desincompatibilização de
membros das esferas executivas de governo e a proibição do uso da imagem de
apresentadores de TV e rádio, seis meses antes do pleito, sob pena de cassação
de sua candidatura e multas pesadas para a emissora infratora. As reprises do
Programa deixariam Norberto Mette em conflito com a legislação.
Pimpão foi categórico: “O Mette está fora!!!”
Para mim, aquilo era um tiro n’água no novo quadro. A estréia já vinha sendo
anunciada no FelizCidade, no Tempo Livre e em chamadas avulsas na Programação
diária da TV. Mais algumas reuniões e o inevitável aconteceu. Arrumaríamos
alguém para fazer as cenas externas, nos grupos e, no estúdio, eu próprio, um
autêntico manézinho em terras germânicas, entrevistaria membros destas
confrarias para contar ao público as suas histórias, curiosidades, etc. Nos
bastidores, enquanto a campanha eleitoral ainda não estivesse fervendo, Mette
daria uma cobertura, atuando como uma espécie de diretor.
E foi assim que este “mané” entrou, de gaiato, nesta história toda. Ou seja “me
arrombei!!!" Pelo menos era deste jeito que eu via. E mais, passei a sofrer de
uma insônia danada, até o dia da estréia.
TODOS NO MESMO BARCO
Para diminuir o impacto de minha ignorância sobre aquela salada de consoantes
com apenas duas vogais, tive a idéia de fazer uma enquete. Eu precisava saber o
quanto esta tradição era conhecida. Assim foi que, nos primeiros Programas o
Joelson dos Santos e o Caio, também dos Santos, saíram às ruas com a seguinte
missão - Perguntar ao povo blumenauense: “Você sabe o que significa Stammtisch?”
Saiu de tudo. Um prato alemão, um tipo de jogo, o nome de um peixe, uma série de
“stamm o que?”, resultado – SURPRESA GERAL! Entre 100 entrevistas só duas
pessoas sabiam o significado.
Estávamos na mesma praia, no mesmo barco. Criei coragem!
Isto me trouxe um novo ânimo. Afinal, eu mesmo já havia me antecipado e obtido
junto ao Baldur Hass, ao José Carlos Oechsler, o Cali, e ao próprio Horácio,
subsídios que, se não me faziam um expert em “stammtisch”, pelo menos me
colocavam numa posição privilegiada à frente dos outros 98% daqueles
entrevistados.
Esta enquete serviu para darmos um novo rumo ao Programa – era preciso mostrar
ao público que as Patotas, os Grupos de Amigos, os Segundaferinos disto e
daquilo, nada mais eram que a versão blumenauense desta cultura. O primeiro
Grupo, que ostentava garbosamente o nome foi o Stammtisch Blumenau. Daí veio o
Terça a todo Vapor, um grupo de “gourmets” do Bela Vista, o Fish Club, do
Guarani, as Patotas de futebol Sukata e Talentus, também do Bela Vista Country
Club, e por aí afora.
Na época, apenas 5 grupos, em Blumenau, se apresentavam com o nome Stammtisch.
E daí, tudo ficou fácil! O Caio filmava, o Joelson entrevistava, o Mette dirigia
e, no estúdio, este mané deitava e rolava com as histórias hilárias e a
irreverência dos membros dos Grupos.
Foi tal o sucesso que, já em Junho o quadro era guindado à condição de Programa,
com uma hora de duração. Dois grupos passaram a ser apresentados a cada semana.
O PROGRAMA E OS ENCONTROS
Era 02 de Agosto de 2.000, uma quarta-feira. O Programa Stammtisch já era
sucesso absoluto na TV Galega, como marco inconteste do resgate desta cultura
germânica. Eu compareci ao Castelinho da Moellmann, sede do Instituto Blumenau
150 anos a fim de tomar ciência da agenda dos festejos do Sesquicentenário da
Cidade. Ricardo Stoedieck já me esperava e, por uma hora percorremos todas as
sessões do Instituto. Mapas, plantas do Vapor Blumenau II, “lay-outs” da Rua XV,
quadros de avisos e compromissos enfim, tudo me impressionara. Quem teve, como
eu, o privilégio de testemunhar aquela organização, não tinha dúvidas de que os
150 anos de Blumenau seria um acontecimento para ficar, definitivamente,
registrado na história de nossa cidade.
Nossa intenção era levar Ricardo ao Programa FELIZCIDADE para uma entrevista
aonde ele esmiuçaria tudo sobre os festejos. E foi neste “tour” que eu tomei um
susto. No quadro da Agenda de Eventos, deparei-me com uma situação inusitada:
Strassenfest – OK, data 26 de Agosto, local – Rua XV, responsável Rita
Schüermann, Soroptimistas e Rotary;
Encontro de Stammtisch - ? (interrogação) , data 01 de Setembro, local - ?
(interrogação), responsável – Horácio.
Questionei o que estava acontecendo com o Encontro e soube das dificuldades no
cadastro dos grupos, a controvérsia sobre a definição do local e tudo o mais.
Senti que o Encontro estava por um fio, quase que inviabilizado. Ainda não se
definira o local e como apenas cinco grupos haviam sido contatados, colocá-los
em qualquer lugar poderia servir como um depoimento negativo àquela tradição que
tentávamos resgatar.
Um dos patrocinadores contatados demonstrara pouco interesse. Na verdade, este
patrocinador, uma Cervejaria Nacional, até fizera uma pesquisa para saber
quantos grupos estariam dispostos a comparecer. Mas, na sua pesquisa, incorreram
num engano que o próprio Programa já havia detectado. Ao procurar nos Clubes e
Bares da cidade os tais stammtisch, obtinham como resposta que isto não existia.
O termo, de fato, já havia
sumido da memória dos blumenauenses.
De imediato, colocamos o Programa à disposição do Instituto, e levaríamos avante
o Encontro, desde que mais duas ou três pessoas ajudassem. A História do
Programa e dos Encontros se fundiam, definitivamente, para virar uma só, ou
melhor, uma como conseqüência da outra.
Ricardo contatou o João Prim, do Blumenau Convention & Visitors Bureau e o
Emílio Schramm do Sindilojas.
À tarde, já tínhamos os nomes da Comissão que viabilizaria o 1º. Encontro: Este
manézinho, pelo Programa Stammtisch; Célio Kienolt pelo Bureau; Márcio
Rodrigues, pelo Sindilojas e Norberto Mette, pelo Instituto.
O evento foi antecipado para o dia da Strassenfest e seria encaixado nesta, no
trecho da Rua XV de Novembro entre a Alameda Rio Branco e a rua Floriano
Peixoto.
Através do Programa, entre o dia 03 e 23 de Agosto de 2000, conseguimos, além
daqueles 5 grupos já inscritos, a adesão de outros 21 stammtische.
As chuvas torrenciais que caíram naquele dia 26 de Agosto fez com que nove (9)
grupos desistissem. Dezessete compareceram.
Foi o início de tudo. Programa e Encontro se misturaram e, até hoje, permanecem
juntos nesta festa da alegria que já vai na sua 12ª. edição.