PLATAFORMA DE NATAL
Jairo Martins
Uma árvore enfeitada
Muitas luzes coloridas
Eis de novo a alvorada
Este bálsamo nas vidas
Dia ou noite festejados
No melhor das intenções
Já se ouvem os dobrados
Dos alegres carrilhões
Cantam alto as cigarras
Natureza que abre alas
Está chegando um Senhor
São depostas cimitarras
Cessam os tiros e as balas
Só dispara o Amor
..........
de humanos e deuses
Terezinha Manczak
I
o sangue verte
aragens
vertigens
plasma e memória
dos tempos
timbrados papéis
calendários
vaivém dos ventos
tempestades
silêncios
carne impressa
em ventania
lentidão
ruídos e
cordames podres
ossos e hóstias
repartem o corpo
nervos estilhaços
construção
contemplação e ócio
II
inda não é hora
de acordar os deuses
cá na terra
comemos o barro dos dias
pecamos
orgásticos e pobres
caminhamos
para o nada
não sabemos prover
o vazio das lacunas
cegamos o sol
com a beleza pragmática
de maneira
inverossímel
suburbana e tática
agonizamos
sob o tédio das heranças
e a mesmice prática
III
tudo é vão, tudo é via,
por sobre os muros ,
a laje inerte das precariedades
ousamos silenciar
quando o grito é tudo
somos fracos e míopes
num país de surdos.
..........
O que tens feito?!
Delasnieve Daspet
o menino bate na janela do carro...
fecho correndo o vidro;
tenho medo deste pequeno ser...
abre o sinal,
e o menino volta correndo para a calçada,
senta no meio fio,
olhar de fome e de frio...
espera outro sinal,
quem sabe a sorte não lhe sorri e ele ganha
um lanche para mitigar a dor que sente
de tanta fome?!...
poderia ser meu filho ou teu...
Na nossa américa existem milhões
de crianças que vivem nas ruas
O carro encosta no meio fio,
uma esqualida criança se aproxima,
poderia ser minha filha ou tua...
Quantas se prostituem para viver?
E esse velho olhando o nada,
o vazio a sua frente,
o rosto cheio de lágrimas de saudades de
tempos felizes...
um velho abandonado que ninguém vem ver...
poderia ser meu pai ou o teu,
condenado à solidão!
.... não vemos a chaga que nos apodrece!
Na verdade não são os nossos filhos,
nossas irmas, mães, pais e avós que
jazem abandonados?
E me vens falar em direitos e perdas...
tu, algoz de tantas vidas,
que não respeitas o cadinho de cada um,
o que tens feito?!
..........
Era noite
Maria de Lourdes Scottini Heiden
Era noite e uma luz tão mansa
Envolvia a criança que aos poucos nascia.
No berço do mundo...
Nas ruas da vida...
Sem lar, sem abrigo, debaixo da ponte sorria.
Era noite e um luar encantador
Banhava o pequenino adormecido.
No vazio da vida...
Nas ruelas do existir...
Sem amor, sem nada... Tão desvalido!
Era noite e uma suave brisa
Embalava o sono do recém-nascido.
Pobre menino!
Assim tão sozinho!
Envolvido em panos... Laços partidos!
Era noite e uma estrela surgiu.
Guiando os passos do amor ao local.
Vê o menino...
E a mãe tão frágil!
Acolheu mãe e filho... Fez-se Natal!
..........
ENTÃO EU PEÇO...
PELA MINHA SIMPLICIDADE
E PELO VENTO QUE ME SUSSURA...
SUSPIROS DE AMORES DE ALÉM MAR...
E AGRADEÇO
A CINTILANTE BRISA DA MANHÃ
E AO TEMPO QUE ME PERMITE
EXISTIR NESSE MOMENTO!
PEÇO QUE EU NUNCA LAMENTE
O QUE PODIA TER
E QUE SE PERDEU
PELOS CAMINHOS ERRADOS.
PEÇO QUE MEU SONHO
NÃO SE DESVANEÇA
EM MEIO À POEIRA DO TEMPO...
E AGRADEÇO
O SOM ALEGRE NAS CERCANIAS,
AS TOADAS E MELODIAS
DAS ALEGRES FOLIAS DA MINHA VIDA.
Izabel Pavesi
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OS MALABARISTAS
Maria Clara Segobia
CAI A NOITE
CARROS PASSAM COM SEUS
FARÓIS LIGADOS.
AS PESSOAS APRESSAM OS PASSOS
SINAL FECHA !
PARO NA CALÇADA
AO LADO , DUAS CRIANÇAS .
OBSERVO SEUS PASSOS .
RECOLHEM DA GRAMA ÚMIDA ,
UM DISCO DE LATA
EM FRENTE AOS CARROS PARADOS ,
NO ASFALTO , DÃO INÍCIO AO ESPETÁCULO.
DE JANELA EM JANELA DOS CARROS,
PEDEM UNS TROCADOS .
O SINAL ABRE !
ELES FICAM ALI , NA CALÇADA ,
PARADOS ..
ESPERANDO NOVAMENTE
O SINAL FECHAR
NÃO HÁ APLAUSOS , HOLOFOTES ,
NEM UM PEDIDO DE AUTÓGRAFO
ALI ELES FICAM ,
ESPERAM ..
..........
Mudança
® Rubens da Cunha
Fraco. O amor me faz fraco, eu gritava. Manifesto de vento.
Estrume. Eu era um homem que desacreditava falácias
românticas, um homem que celibatou-se porque não suportaria
sucumbir a um sentimento. Era um homem avesso, tenso,
coberto de mesuras e mentiras. Enquanto outros casavam-se,
traíam, retraíam, tinham filhos e ex-esposas, eu esquivo, eu
lapide sobre qualquer possibilidade amorosa. Isto eu era. As
artimanhas. Esqueci-me das artimanhas, das teias orvalhadas,
dos atavismos sanguíneos da paixão. Em certo dia, recebi de
volta um olhar, um canto de boca vermelho, um todo corpo
feito de cama e palavra. Eu sou agora um pasto de madrugada
e gozo. Um vasto adeus à fraqueza.
Quintais
Cláudia F Pacce
Coisa de lembrar.
O café mormaçando os óculos,
jaboticabeira pintada de fruta e pardal.
O pato da Índia, modorrento, desarma o pescoço.
Pão e pensamento mergulhados no café.
No horizonte do alcanço
Entre rede e beiral
O balanço
E a lua, pendurada no varal.
esse poema foi o segundo colocado no Concurso Nacional de
Poemas Carlos Drummond de Andrade, 1998, Muzambinho, MG
Grata pela oportunidade,
Cláudia F Pacce