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Devaneios

No meu cantinho, em Ratones, Florianópolis, eu construía meus sonhos. Coisa de poeta. Devaneios. Ouvia o canto dos pássaros na corte do acasalamento. Vi um bando de gralhas e aracuãs voltando da faina diária pelo seu alimento e o das crias. Eu usufruía o direito de observador privilegiado da Criação, da natureza, o piar de um sabiá apaixonado, o silêncio da paz.

O martelar incessante e descompassado dos noticiários ousou abstrair-me de meus castelos. O caos. Bolsas caíam. O petróleo despencava, os investidores antecipavam as perdas de mais um fim de semana.

Pensei nas vítimas. Na criança desnutrida da África, no barrigudinho do sertão à espera de um calango para cear com o mandacaru espinhento. Na sede do Ambrósio, um jegue suarento pela jornada até a cacimba, distante 8 quilômetros, para trazer, àquela gurizada, a água barrenta. Pensei nos 5 mil metros cúbicos de madeira derrubada no sul do Pará, a mata a morrer, metro a metro, pela ação da moto-serra financiada pelo homem das bolsas. Nova York, Tóquio, Frankfurt, Rússia, Londres, São Paulo, Dow Jones, Nasdak, Nikkei, Ibovespa. Tudo caindo, desmoronando.

Em um mês perdeu-se o dinheiro que resolveria a fome, a miséria do planeta.

Dinheiro nada! Papéis especulativos da economia virtual. Na economia real, o desemprego, a fome, a miséria aumentariam. Uma pagando pela insanidade da outra. Do dinheiro fantasma. Volátil!

 

continua

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