TAMBÉM TEMOS “AS
VINHAS DA IRA”
Chove, hoje. Fico pensando onde eles estarão. Apesar de
não ter viajado, ultimamente, sempre acabo andando um
pouco por aí: vou a Itajaí, a Joinville, fui a
Jaguaruna, todas as semanas vou até Florianópolis. Como
podem ver, não tenho saído do Estado, mas não se precisa
ir longe para encontrá-los: em todas as rotas eles
estão, esses homens magros, barbados, cabelos por
cortar, carregando na sua viagem o pouco ou o nada que
têm. Eles andam a pé de uma cidade para outra, sujos e
desgrenhados, e ninguém pensa em dar nem eles pensam em
pedir carona, coisa que foi tão comum nos tempos da
minha juventude, nos tempos em que a filosofia hippie
tinha explodido pelo mundo, e andar de carona era a
coisa mais natural possível.
A estes
homens, ninguém dá carona, e, como já disse, nem eles se
atrevem a pedir. Vão a pé – uns muito raros empurram ou
puxam um carrinho com alguns miseráveis trastes – a
maioria leva muito menos: coisas envolvidas num
cobertor, ou uma ou duas sacolas de plástico onde ainda
cabe o seu tanto de esperança. É o que lhes resta. E a
cada um que encontro eu fico pensando atrás de que
esperança que vão – por que estão indo para outra
cidade? Há quilômetros e quilômetros vazios entre uma
cidade e outra – será que pensaram em levar água, alguma
coisa de comer? Onde dormirão quando a noite chega sem
que a outra cidade chegue? E onde se abrigarão em dias
de chuva, como hoje?
O fato
é que há homens sem nada andando pelas beiras das
estradas onde passam, velozmente, os carros importados,
de luxo. Sempre são homens, nunca são mulheres. As
mulheres deles ficaram em algum lugar, porque decerto
têm crianças, e há que sobreviver nos tais lugares, e
alimentar as crianças. Talvez sejam humilhadas em
empregos sem dignidade. Talvez tenham que fazer coisas
piores. Já não têm seus homens para protegê-las. E os
homens já não têm nada. E caminham entre uma cidade e
outra. E quando os vejo chegando perto de Blumenau,
penso que talvez venham porque um certo padre, aqui,
organizou cozinhas comunitárias para homens assim, onde
é certo pelo menos, o prato de comida. Mas eles não
andam só nesta direção. Andam em todas as direções. E
estão sujos. E estão magros. E são homens.
Dentro
deles vivem coisas iguais às que eu sinto, às que você
sente: eles sonham com um futuro melhor, eles se lembram
de um passado em algum lugar, eles têm saudade dos que
já não sabem mais onde estão, eles têm necessidade de
amor, de banho, de carinho, de comida. Imagino que,
quando anoitece, dormem sob a proteção de pontos de
ônibus que existem ao longo das rodovias – que pensarão
dentro da sua solidão ladeada pelas luzes velozes dos
carros de luxo? Provavelmente, sentirão fome;
certamente, sentirão a falta de alguma mulher, sentirão
desejos aos quais já não têm direito, porque um monstro
chamado Capitalismo os castrou de alma e de corpo e os
tornou escória, lhes tirou todos os direitos além do
direito de serem desprezados.
Alguém
de vocês que passa pelas rodovias nos seus carros de
luxo ou não já se perguntou quem são aqueles homens sem
mulher e sem bagagem que caminham em todas as direções,
bem aqui no dito rico (?) e sem problemas estado de
Santa Catarina? Alguém já parou e lhes perguntou os
nomes, ou de onde eram, ou se queriam alguma coisa?
Aposto que não. A polícia deve pará-los, às vezes, com
certeza, para se certificar que não são bandidos. Eles
já não têm forças nem energia para serem bandidos.
Talvez já não consigam mais nem roubar um pão, o que
seria justo para quem têm fome.
E
revistas e jornais ficam falando maravilhas de Santa
Catarina, dizendo que é o próprio paraíso terrestre. E
muitos catarinenses estão convencidos de que o mundo
gira em torno do seu umbigo. Mas os homens sem nada
continuam caminhando. Em todas as direções. E não
poderão continuar caminhando sempre. Um dia eles
acabarão fazendo valer os seus direitos de seres
humanos. Por enquanto, ninguém se importa. Mas neste dia
de chuva, estou aqui, preocupada a respeito deles. Onde
se esconderão em dias assim?
Blumenau, 26 de setembro de 2003.
Urda Alice Klueger
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