Roubaram-lhe o
mar!
Daí, deve fazer uma ou duas décadas, algumas famílias
que devem ser de classe média alta se encantaram com um
bonito outeiro da Ilha de Santa Catarina, bem às vistas
da Ponte Hercílio Luz, e lá construíram suas
confortáveis casas, para poderem passar o resto das suas
vidas a olhar para aquele cenário infinitamente
encantador, coisa assim que a gente só vê mais bonito no
Caribe. Houve um probleminha, na ocasião: aquelas
famílias se esqueceram de comprar os terrenos da frente,
aqueles que faziam a descida do outeiro, e adivinhem o
que aconteceu: construtores de grandes prédios acabaram
descobrindo aqueles terreninhos ainda não vendidos, e o
que fizeram? Compraram-nos, e construíram neles toda uma
altíssima barreira de edifícios onde também moram
pessoas de classe média alta.
Às vezes a gente demora um bocado para dar-se conta da
amargura que está do outro lado da rua. Temos na nossa
cabeça que, a princípio, as amarguras vivem em favelas,
e não em casas bonitas como aquelas, e quando pessoas
conhecidas foram morar num daqueles edifícios altos, com
aquela maravilhosa vista da ponte Hercílio Luz, nem me
passou pela cabeça que algum tempo depois eu ia ver bem
de perto o que era a amargura de se perder ... o mar!
Foi no último final de semana. Fui visitar amigos, e
estacionei o carro entre os portões de duas garagens
daquelas casas bonitas. Lembro de ter olhado bem para
ver que as duas garagens ficavam livres. Só que quando
desço para pegar o carro, lá está uma multa por eu estar
estacionada diante de uma garagem. E a multa não era
nada, meus senhores: o pior era uma senhora que estava
totalmente transtornada, a me agredir verbalmente, a me
dizer coisas desconexas (como eu ter trancado a garagem
dela, quando era visível o carro que ela botara na
garagem!), por se incomodar 24 horas do dia com aquele
problema (eu estava ali bem menos tempo, o que queria
dizer que não era comigo), e eu fiquei a olhá-la e a
desculpar-me, mas seu estado de angústia e revolta era
tão grande, que passei a temer por ela: e se tivesse uma
síncope, o que eu faria? Ligaria para o 193? Ela teria
um plano de saúde com ambulância particular? Fiquei a
tentar acalmá-la, a dizer “Desculpe, minha senhora,
veja, já fui punida, olhe aqui a minha multa”, e ela a
dizer que fora ela quem chamara a polícia para me
multar, e eu dizendo “Desculpe” e com medo da síncope, e
nada da senhora se acalmar, e a dizer que iria embora
dali para o mato, que nunca mais queria ver gente por
perto, estas coisas que a gente diz quando não está em
si. Só me restou sair dali. Minha sorte era que eu
estava num dia de imensa calma. Mas recordava-me de
algumas ocasiões da minha vida em que estivera assim
nervosa também, e sabia que quando a gente fica assim é
bem brabo.
Mais tarde passei por ali de novo e revi a senhora.
Pedi-lhe desculpas mais uma vez (o que é uma multa
quando alguém está a ponto de ter uma síncope?), e como
ela se acalmara um pouco, falei-lhe de coisas de saúde,
de como ela estava se auto-prejudicando. Conversamos –
penso que mais uma meia hora e a gente acabaria tomando
um chazinho juntas e contado uma para a outra nossas
recíprocas aventuras e desventuras. Eu sabia que a raiva
dela, o descontrole dela eram grandes demais para terem
a ver comigo – o que a fazia tão agressiva? Havia algo
mais, algo que eu ainda não estava entendendo. E então
veio a luzinha, e eu disse: “Pôxa, quando vocês fizeram
esta casa, não pensaram que poderiam subir estes prédios
aqui na frente, não? Perderam a vista!” Eu tocara na
ferida. Era aquilo, sim. Aqueles prédios tinham vindo
para lhe tirar a Ponte Hercílio Luz, o canal, o mar lá
adiante. Como é que alguém poderia abdicar de tal vista
sem ficar altamente traumatizada? E então eu entendi a
senhora. Roubaram-lhe o mar. Ficar sem o mar é uma dor
muito profunda para um ilhéu. Era uma dor que distribuía
multas para quem avançasse um palmo na sua entrada de
garagem, como eu recebi, e que botava em jogo a saúde
daquela senhora sujeita à síncope. Também, roubaram-lhe
o mar! Como se pode viver sem o mar?
Blumenau, 02 de Julho de 2003.
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