A MORTE DO RIBEIRÃO
Tudo
era úmido, fresco e verde, lá naqueles dias da minha
primeira infância. E no meio daquele grande frescor
verde, ele corria como uma dádiva de cristal, serpeando
pelo fundo do Vale que ele próprio escavara ao longo de
tempos imemoriais, e onde agora ficava a rua, as poucas
casas, os muitos pastos. Os adultos já deveriam saber de
alguma poluição, pois minha mãe sempre dizia para não
beber daquela água, o que fazia, claro, que a cada vez
que eu me visse sozinha, fosse correndo beber exatamente
daquela água que era tão boa, tão fresca, tão
cristalina!
Havia peixinhos nadando para cima e para baixo por todo
ele, pequenas piavas cujas barrigas prateadas brilhavam
quando o sol sobre elas incidia, e grandes cascudos que
viviam em tocas, e que meu pai pegava com uma fisga nas
suas tardes de folga, além de outros peixes que o nosso
vizinho Osnir acabava pescando, como uma assustadora
“ingüila”, que metia medo em todos nós, e que hoje sei
que o nome certo era enguia.
Aquela coisa de cristal que navegava por meio de pastos
atraía muitos insetos, também. E, nas tardes de
Primavera, interessantíssimos bichinhos que a gente
chamava de “helicópteros”, e que hoje eu penso que se
tratava de louva-a-deus, e grilos, e outros grandes
insetos de asas transparentes enchiam o ar por ali, e
muitos deles, decerto, acabaram pousando no rumorejo
brilhante daquela água encantada, e viraram comida dos
muitos peixes que havia. E quando era dia de festa, como
dia de aniversário e Primeira Comunhão, o pai da gente
comprava gasosa e cerveja para o almoço, e naquele tempo
de antes da chegada da geladeira, as garrafas eram
colocadas dentro do ribeirão de manhã, para que seus
conteúdos ficassem bem fresquinhos para o almoço. E a
mãe da gente pegava baldes d’água dali para encher o
cocho de lavar roupa, e a tia Fanny, mais adiante, fazia
a mesma coisa.
E quando chovia muito, ele simplesmente transbordava.
Qual era o problema dele transbordar? Havia pastos e
pastos por todos os lados onde ele podia se espraiar, e
se havia uma coisa boa na vida de uma criança, era andar
por dentro dos pastos alagados, molhando-se o mais que
podia, mesmo sabendo que levaria uma bronca ao chegar em
casa. A gente não corria o risco de cair na corrente
principal, lá onde era perigosa quando ele estava cheio,
porque ela era toda demarcada por touças de inhame que
se aproveitavam da umidade perene para vicejarem com o
maior garbo.
E passada a chuva o ele se encolhia, voltava ao seu
leito, e a vida voltava a correr normalmente.
Estou falando do Ribeirão da Rua Antonio Zendron, em
Blumenau. Ele era assim como estava contando, e foi
assustador o que aconteceu com ele. Nestas ultimas
quatro décadas, gente e mais gente foi morar onde antes
eram os pastos; condomínios surgiram e casas pipocaram,
e ele deixou de ter para onde transbordar nos dias de
chuva, e também perdeu as suas curvas, os seus inhames,
os seus peixes. Chegou um momento em que ninguém mais
queria saber dele, que se tornou um ribeirão odiado. E
então retificaram-no de fora a fora, e prenderam-no num
grande túnel de concreto. Nesta semana, estive lá
espiando o que aconteceu. Fui ver sua desembocadura, que
é o que ainda pode ser visto, e lá no fim do túnel de
concreto escuro, saía uma água sofrida, humilhada, cheia
de garrafas, pedaços de plástico e outros lixos. Escuras
algas que antes não existiam quase engolem o pouco de
água que sobrou – decerto nasceram ali para devorar
alguma coisa da grande poluição que corre por aquele
canal. Até uma rua passa por cima do canal escuro – é
como se o ribeirão nunca tivesse existido.
Cadê as libélulas, os cascudos, as piavas com as
barrigas prateadas brilhando ao sol, e a água limpa para
as mães da gente lavarem roupa? Não estão mais lá, com
certeza. Mas eu me lembro como era, ah! Como me lembro!
Blumenau, 10 de Outubro de 2003
Urda Alice Klueger
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