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O DIREITO DE
COMER GELATINA
A Salete foi menina temporã, nascida quase por engano,
quando sua mãe já passava muito dos quarenta anos. Ela
nasceu já com irmãos casados e sobrinhos. É importantíssimo,
nesta história, contar desde já que a mãe, os irmãos, as
cunhadas, os sobrinhos, toda a gente na casa de Salete era
analfabeta, gente que não tivera a menor chance de aprender
no passado e que não via o porquê de aprender mais tarde. Lá
na casa dela defendiam-se coisas assim:
- “ Vacinas? Cruz credo, toda a nossa gente se criou sem
tomar dessas besteiras! Nem morta que deixo filho meu
tomar!”
Há que se considerar que Salete poderia ter seis irmãos
vivos, mas só tinha três. Os outros, a falta de vacinas
levara fazia tempo, pequenos ainda.
Não houve o que fizesse a mãe de Salete deixá-la tomar uma
vacina – ela cresceu, mesmo, porque tinha saúde e sorte. Nem
mesmo a madrinha conseguiu convencer a mãe.
Pois é, a madrinha. Quando se viu mãe de novo, D. Zulmira
pediu à patroa que batizasse a menina, já que a patroa fora
boa e dera enxovalzinho e tudo para a criança extemporânea.
E a patroa levou a função a sério: não conseguiu nada com as
vacinas, mas bateu pé quanto à escola: a Salete iria para
escola, custasse o que custasse. A madrinha matriculava,
comprava uniforme, comprava material, inventava histórias
tenebrosas para a mãe da menina – o fato é que Salete foi
para a escola desde o prézinho, a mãe se sentia obrigada ao
ver a madrinha gastar dinheiro com aquelas bobagens de
cadernos e livros.
Vamos dar um pulo na história. Tínhamos parado no prézinho –
eu presenciei bem a coisa quando Salete já estava na quinta
série. Mesmo aos trancos e barrancos, inteligente e esperta
como era, na quinta série Salete estava plenamente
alfabetizada e muitas outras coisas já aprendera, mas o seu
grande diferencial em relação à família era a leitura. Pela
primeira vez naquela família as pessoas podiam comer ...
gelatina, ou pudim de caixinha, porque agora havia alguém
que podia ler as embalagens e dizer como aquelas coisas
deveriam ser feitas! Virou um luxo naquela casa comer
gelatina, um luxo negado a todas as gerações anteriores
daquela família. E a gelatina era só um símbolo: a
capacidade de leitura de Salete modificava um monte de
coisas para todo o mundo. Por exemplo, chegava gente naquela
casa e dizia:
- “Dona Zulmira, a senhora pode fazer faxina para mim? É na
rua tal, número tal.” – ou – “Fulano, estou precisando de um
ajudante de pedreiro. Esteja amanhã cedo na rua tal, número
tal.”
E, no mais das vezes, a gente daquela casa não conseguia
chegar lá e perdia os empregos, porque não conseguia ler os
nomes das ruas, os números das casas, o que estava escrito
no ônibus. Eu presenciei estas coisas. E presenciei como
Salete foi se tornando o centro da família: ela ia junto,
achava o endereço, sabia o ônibus certo, ninguém mais perdia
emprego ou oportunidade. Aí todo o mundo começou a dar valor
à escola de Salete. Aí os sobrinhos dela começaram a ir para
a escola também.
Hoje Salete é uma moça prestes a fazer vestibular. Quer ser
professora. Ninguém mais que ela viu bem de perto a amargura
de não se saber ler. Acho que quando ela alcançou o poder de
fazer a sua família comer gelatina, inteligente como é, ela
entendeu tudo. Você, que está lendo esta crônica, e que
sempre comeu gelatina desde pequeno, saiba como é que é
terrível o desconhecimento da leitura: até o direito de se
comer gelatina pode ser tirado de quem não sabe as letras!
Uma idéia é olhar aí em torno do seu mundo, para ver se
alguém está sem esse direito. Sempre é tempo de encaminhar a
tal pessoa para uma escola de adultos.
Blumenau, 22 de Julho de 2003.
Urda Alice Klueger
Escritora
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