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A ARQUEOLOGIA NA MINHA
VIDA
Foi lá em 1997, quando eu mal iniciava o meu tardio curso de
História, sonho não realizado no final da adolescência e que
ficou para a aposentadoria, que deparei-me, de fato, com a
disciplina Arqueologia. Já fazia tanto tempo que eu queria
ser arqueóloga que eu até tinha esquecido da coisa – na
verdade, foi só agora neste ano de 2003 que, de repente,
veio-me uma lembrança antiqüíssima: eu, aos 15 anos, na sala
da casa paroquial da Igreja de Nossa Senhora da Glória, na
Garcia, aqui em Blumenau, a conversar com o querido Padre
Sílvio Tron, e ele a perguntar-me, por detrás da mesa onde
costumava ficar sentado:
- Minha filha, o que tu queres ser na vida?
E eu a dizer:
- Quero ser arqueóloga!
Lembro-me agora do que disse Padre Sílvio: que era
impossível eu ser arqueóloga, que no Brasil não havia
Arqueologia, que para tanto teria que ir para o Egito, e tal
coisa, lá na década de 60, era algo considerado bem
impossível para gente do interior de Santa Catarina.
Sei que o tempo passou, eu viajei uma porção, vi um monte de
arqueólogos trabalhando em lugares como Bolívia, Peru,
Equador, Colômbia, etc., mas mesmo assim continuava
totalmente ignorante da existência de Arqueologia no Brasil,
principalmente aqui em Santa Catarina. Então, chegou 1997 e
... deparei-me com a disciplina de Arqueologia dentro do
Curso de História! Á minha frente, a queridíssima professora
doutora Elizabete Tamanini, que entre outras coisas veio nos
mostrar que em Santa Catarina havia Arqueologia, sim, e
muita! Só sobre a gente Sambaquiana, que viveu pelo nosso
litoral mais ou menos entre 6.000 e 2.000 anos atrás, já
dava para passar uma vida inteira estudando – e eu não sabia
de nada! Aposto que vou contar umas coisinhas, a seguir, que
você também não sabe:
O Sambaquiano (Construtor de Sambaquis) não é o índio. O
índio (Guarani - em Santa Catarina ganhou o codinome de
Carijó, coisa inventada pelos portugueses) só chegou aqui ao
sul do continente americano mais ou menos há uns 2.500 anos
atrás, quer dizer, uns 500 anos antes de Cristo. Por algum
tempo os Guarani e os Sambaquianos conviveram – fizeram um
pouco de guerra; é provável que tenham também feito alguns
casamentos – mas um dia os Sambaquianos foram embora, até
agora não se sabe para onde.
Mas restaram os Sambaquis, milhares deles, e por uns 500
anos os Sambaquis foram usados para se fazer aterros e cal,
até que, já na década de 1960, saiu lei protegendo-os, e
hoje a Arqueologia é coisa muito séria em Santa Catarina.
Contei para vocês que outro dia passei uns dias na
encantadora cidade de Jaguaruna, no sul de Santa Catarina.
Desde o dia em que falara para o Padre Sílvio que queria ser
arqueóloga até então muita água havia passado debaixo da
ponte, mas, afinal, sem ter que ter ido para o Egito, estava
eu numa expedição arqueológica de verdade, comandada pela
grande Arqueóloga Madu Gaspar, vinda do Rio de Janeiro para
estudar rituais Sambaquianos num Sambaqui de Jaguaruna. Madu
Gaspar capitaneava uma série de outros cientistas e
Arqueólogos, e eu estava lá no meio deles, creio que mais
atrapalhando que outra coisa, sem coragem de tocar em nada,
mas sempre pisando no lugar errado, vendo jovens
especialistas a desenterrarem gente que fazia 2.800 anos que
ali tinha sido enterrada. Vivi aqueles dias de emoção em
emoção, a cada descoberta ou a cada coisa que via fazer. Há
2.800 anos alguém enterrara uma criancinha de uns dois ou
três anos adornada com um colarzinho de primorosas contas
feitas da madrepérola de pequenas conchas polidas – mais
adiante, um homem estava enterrado protegendo nos braços um
pequeno bebê – gente, quanta coisa para ver e aprender! Só
que acabou meu espaço. Volto ao assunto outro dia.
Blumenau, 13 de Agosto de 2003.
Urda Alice Klueger
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