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Por causa do
Papai Noel 2
(Para Neide Capello)
Uma vez o Papai Noel já me fez escrever um texto que acabou
virando até filme de cinema e me encheu de muitas alegrias;
de novo por causa de Papai Noel volto a escrever este texto
2.
Foi assim: era dezembro de 2008 na cidade de Blumenau, logo
após a grande Tragédia das Águas, e a gente se agarrava a
qualquer fiapo de alegria para fazer de conta de que estava
bem, ou que pelo menos estava melhor – e então vi na
Internet que Papai Noel estava para chegar à cidade naquele
dia, na Prainha do rio, o que não era muito longe de onde eu
estava abrigada com o meu cachorro. Vieram-me à mente os
tantos Weinachtsmann, Nicolaus e Papais Noéis da minha
infância (na minha cidade, quem começou a trazer Papai Noel,
lá pelo começo da década de 1960, foi uma loja chamada
Hermes Macedo), e achei que deveria ir lá com meu bichinho,
para tentar sair um pouco da árida e infinita tristeza em
que a gente vivia, assim sem muitas perspectivas para o
futuro, e com toda aquela gente desabrigada na cidade, e com
todos aqueles animaizinhos perdidos dos seus donos. Apesar
da tristeza, as autoridades teimavam em maquiar o centro da
cidade e a dizer que tudo estava bem, sem a mínima
consideração com as gentes sofridas e com as profundas
feridas que sulcavam a minha terra, que nos davam (e nos dá)
a impressão de que os tempos antigos nunca voltariam, mesmo
agora, mais de sete meses depois.
Ao anoitecer eu fui, levando meu cachorro Atahualpa junto.
De cara achei ter me enganado: havia lá na Prainha umas 30
ou 40 pessoas no total, incluindo as crianças. Onde estava a
multidão de meninos e meninas que sempre aparece quando se
fala da chegada do Papai Noel, que, junto com o cantar das
cigarras, era quem
anunciava a chegada do Natal?
As cigarras não haviam cantado, naquele ano, e agora o povo
triste não trazia as crianças para ver o Bom Velhinho.
Anoiteceu e continuamos ali esperando, e nada aconteceu –
nem chegou Papai Noel nem aumentou a quantidade de pessoas
que esperava.
Uma coisa é certa: lá na prefeitura, que era um amontoado de
mentiras falando no Natal maravilhoso que se fazia na nossa
cidade, enquanto pais de famílias tinham que deixar suas
criancinhas com a barriga roncando porque não conseguiam
ganhar um quilo de arroz das muitas toneladas que nos eram
doadas continuamente, alguém veio dar uma espiada na
Prainha, e quando viu aquela mixaria de gente, avisou logo
às demais autoridades:
- Suspende o Papai Noel. Vai ficar muito feio a televisão ir
lá filmar e aparecer aquele punhadinho de gente que decerto
conseguiu engolir nossas mentiras e se abalou até à Prainha.
Já pensou se algum turista vê coisa assim?
E o Papai Noel não veio. Era muito triste ver a frustração
nos rostinhos daquelas crianças que estavam lá, e os
comentários em geral não eram muito airosos para com as
nossas autoridades.
Chamava a atenção, dentre outras, a indignação de uma jovem
mulher com sua cachorrinha preta.
- Não se faz tal coisa com crianças! Crianças têm que ser
respeitadas! Como é que vão decepcionar crianças deste
jeito?
Foram aqueles comentários que me levaram a me aproximar
daquela mulher e da sua cachorrinha. Fomos conversando rua
afora, na volta, e descobri que a mulher era Neide, e a
cachorrinha era Poli. No meu novo endereço de abrigada, eu
era vizinha do elegante apartamento dela. Neide havia sido
professora e sabia que não se devem enganar crianças, por
mais que fique feio para autoridades mentirosas.
Foi por causa do Papai Noel que a Neide e a Poli ficaram
minhas amigas e amigas do Atahualpa. Nem dá para contar
todas as coisas boas que aconteceram entre nós desde então.
Faz um mês, e minha mãe morreu. Neide estava viajando. Na
missa de sétimo dia, no entanto, quem apareceu do meu lado e
ficou me apoiando com o carinho de uma irmã (tal não
desmerece os primos e amigos que estavam lá) foi, sem mais
nem menos, a Neide. Ela diz que o nome dela é Neide Capello.
Eu acho que ela se disfarça um pouco. Penso que o nome dela
é Neide Capelo Gaivota, mas ela não gosta muito de deixar
entrever as pontas das suas asas de grande voadora, e se
limita a ser solidária.
Continuo acreditando em Papai Noel. E nas Neides Capelo
Gaivota da vida.
Obrigada, minha amiga!
Pouso da Poesia, 29 de junho de 2009.
Urda Alice Klueger
Escritora
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