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Meu cachorro
Atahualpa 14 – O caçador
Aqui na Praia do Sambaqui, onde estamos por breves férias,
há um Sambaqui situado numa ponta de terra e rochas que
adentra ao mar – já estive lá olhando tudo detalhadamente, e
penso que não é um Sambaqui muito antigo (talvez com um
pouco mais de 2.000 anos) nem que tenha sido ocupado por
muito tempo (quem sabe por uns 100 ou 300 anos). Digo tais
coisas baseada na camada de conchas que ficou quando aquela
gente antiga que morava aqui se mudou – há um ponto do
Sambaqui que está desmoronando dentro do mar, e lá é
possível observar-se bem a camada de conchas que os antigos
moradores acumularam, quando moraram naquele lugar, e
fazer-se algumas contas.
Pois bem, então há um Sambaqui no que seria uma pequena
península, e há um pequeno istmo que une aquela península à
praia que se chama Sambaqui – e ali naquele pequeno istmo há
uma ocupação humana recente, coisa de poucas décadas, onde
mora uma família, há diversas construções e até um bar, em
plena terra pública, terra da Marinha, se bem que em outros
pontos da praia haja muitas outras ocupações humanas
recentes nas terras da Marinha.
Eu e meu cachorro Atahualpa estamos aqui neste paraíso faz
uma semana, e o meu cachorrão, decididamente adulto, agora
com um ano e nove meses, tem tido experiências mil aqui por
esta praia e ruas adjacentes, na companhia da cachorra
Canela, que é a cachorra desta pousada chamada “Pouso da
Poesia” onde vim aportar o meu cansaço. Esta é uma praia
tranqüila e serena, e eu deixo Atahualpa e Canela se
divertirem pelas ruas, pequenos costões, praias de mar
manso... e no Sambaqui, para onde estávamos indo umas duas
vezes por dia – até ontem, pois agora o Sambaqui nos está
mais ou menos vedado.
É que aquela gente que andou ocupando o istmo de terra
pública que leva ao Sambaqui cria diversas aves, bem ali na
terra pública: há gansos, marrecos, galinhas normais e
galinhas garnizés, fora os cachorros e gatos que abundam por
toda a redondeza. É uma abundância de animais para um
cachorrinho como Atahualpa, que só encontra um ou outro
cachorrinho “de apartamento” nos seus passeios diários, ou
que fica a espiá-los da nossa varanda de acrílico
transparente, quando eles passam na rua.
Estimulado por Canela, Atahualpa já conhece uma barbaridade
de animais que estão nos nossos trajetos diários, inclusive
um que deve ter sido proibido pelo veterinário de coçar as
orelhas, pois está a usar um grande cone de plástico ao
redor do pescoço, e que causa o maior susto ao meu bichinho,
quando aparece. Também estimulado por Canela, ele tem se
aventurado pelas praias de mar manso, correndo e fazendo
buracos na areia, mas sempre com o maior medo de qualquer
ondinha a quebrar, coisa estranha que só lhe apareceu no
último outono, esta coisa de mar. Anda a mil, portanto, este
meu cachorrinho que virou um cachorrão, mas eu não imaginava
que ele partiria para uma aventura inesperada, como o fez
ontem.
Pois é, ontem alguma coisa aconteceu lá na genética do meu
bichinho, e de repente ele se lembrou de antigos
antepassados caçadores. Se antigos antepassados tinham
caçado, o que o impedia de caçar também? E quem é que estava
bem por perto dele na hora em que a genética o chamou à
razão e o mandou agir? Nada mais nada menos que a família de
garnizés que vivem nas terras públicas da Marinha, bem onde
passávamos no momento, vindos de mais uma visita ao
Sambaqui!
Alertado pela Natureza, Atahualpa não titubeou: avançou para
a família garnizé, e o galo garnizé tentou enfrenta-lo para
defender as suas galinhas, e a tragédia estava feita.
Atahualpa virou um monstro pré-diluviano, a querer por toda
a lei pegar aquele galinho de nada, que fugia e corria pelos
muitos meandros daquela ocupação humana, e corria eu atrás
dele, e corria o dono dos garnizés também, enquanto a
cachorra Canela observava a tudo, impávida. Foram voltas e
voltas de perseguição sem dó, Atahualpa a centímetros das
penas do rabo daquele galinho, quando o bichinho achou a
salvação: voou e mergulhou no mar, mais adiante, local onde
a água é bem funda, perto de um costão que sustenta o istmo.
Sabem o que fez aquele medroso cachorro chamado Atahualpa,
que tem o maior pavor das ondinhas de nada que rebentam nas
praias mansas daqui? Fez o que eu nunca imaginara: voou
também, e pulou no mar lá perto do galinho, e eu gritava e o
dono do galo gritava, enquanto Atahualpa e o galinho davam
jeito de nadar de volta para terra, aonde chegaram molhados,
estafados, pelo menos o meu cachorro com o rabo no meio das
pernas.
Resultado: o dono do garnizé jurou matar Atahualpa, se ele
se aproximar do galo de novo, e o meu cachorro está passando
os dois últimos dias de férias usando coleira e guia para
sair na rua e garantir a vida.
Estou impressionada: quem diria que o meu bichinho, que
sempre se portara como um guarda, de repente se
transformaria num caçador? Ah! Esta Mãe-Natureza, quando
resolve bater na mesa e dar ordens, é uma coisa fantástica!
Pouso da Poesia, 03 de Julho de 2009.
Urda Alice Klueger
Escritora.
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