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                                   ESCORBUTO

 

 

                                   O pequenino aceiro de detrás de casa é freqüentado por umas poucas galinhas poedeiras, e elas não se espantam quando, dia a dia, antes do horário da janta (pois aqui se janta por volta do meio dia), eu tomo o rumo do caminhozinho para garimpar algumas preciosidades coloridas.

                                   Foi o meu amor quem me disse, antes de partir, da importância de se comer comidas coloridas, e eu lembro sempre da seriedade no seu rosto de barba macia, enquanto me explicava:

                                   - Evita-se o escorbuto. No mar, se não se tem comidas frescas, é necessário tê-las em conserva. Secam-se as ameixas, as cidras, as peras. O repolho é guardado em conserva. E assim cada coisa, e a gente só tem certeza de que a comida está certa e o escorbuto não virá se cada refeição tiver muitas cores.

                                   Como é forte a lembrança do meu amor quando penso tal coisa, quando lembro da maciez dele quando me acolheu junto ao seu peito amplo de marujo, e me disse com toda aquela suavidade: 

                                   - Também deves comer as comidas coloridas. Faz sempre um prato colorido para ti, que então estarás impedindo não só o escorbuto, mas muitos outros males. É da sabedoria do mar.

                                   Se lá longe ele se cuida fazendo pratos coloridos no escorregadio tombadilho do navio, salvando-se do escorbuto para que eu possa viver desta esperança de que ele chegará, a mim, fazer a mesma coisa, é como que uma religião. Quem sabe, lá no meio do ar salgado e das águas geladas ele não esteja a me imaginar ainda jovem, ainda linda, noiva que sou e que o espera, e embora o tempo tenha passado e a realidade hoje seja bem outra, há que conservar vivo e saudável este meu corpo que é o suporte desta chama de esperança que a cada dia, ano após ano, me conta sobre o dia em que ele voltará e tudo será ressignificado pela grandeza do amor.

                                   Então, antes da janta, subo o pequeno aceiro e colho coisas coloridas para o meu prato: folhas de couve-manteiga, que é clarinha, ou da outra couve, que tem um verde-chumbo, e pequeninos tomates vermelhos, e umas poucas malaguetas de cores variadas, e o ramo de salsinha, e a alfavaca que dá tão bom gosto ao peixe, e um limão alaranjado do comprido limoeiro onde dormem empoleiradas as galinhas – limão melhora sempre o paladar dos alimentos, e aquele suminho espremido também tem a sua cor...

                                   E cuido para que no prato haja, além do peixe costumeiro, fresco ou escalado, ao menos algumas conchinhas, ou ostras, ou quatro ou cinco mariscos, quem sabe uma sobra de molho de galinha que ficou do dia em que houve galinha...

                                   E a cada dia, quando faço meu prato ficar colorido, revivo aquele momento e aquele conselho, e é como se o meu amor estivesse sentado à mesma mesa, diante de mim, e eu pudesse levantar-me ali, naquele momento, chegar até ele e, com as mãos, levemente, acariciar a maciez daquela sua barba de marujo; quiçá abrigar-me na proteção do seu peito tão amplo... Então como a minha comida colorida em plena comunhão com aquele meu noivo tão distante, como se o tempo já tivesse passado e ele já tivesse voltado.

                                   - “Meu amor!” – penso – “Que a gente nunca venha a ter escorbuto”.

                                   Saber que estou fazendo alguma coisa em prol de nós, da nossa vida que virá, dá-me uma satisfação que é como uma vertigem, e penso se é certo para uma noiva sentir coisas tão abalantes e viscerais. Então, para que os demais não percebam a minha comunhão com aquele homem que está dentro de mim como um marido, baixo os olhos para o prato e como em silêncio a minha comida colorida.

                                    

                                   Blumenau, 29 de julho de 2008.

 

 

                                                           Urda Alice Klueger

                                                           Escritora



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