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SÍLVIO COELHO DOS
SANTOS
* 1938
+ 26.10.2008
Eu era
muito mais jovem que hoje quando travei conhecimento com o
grande mestre Sílvio Coelho dos Santos – foi lá na altura em
que começava a me preparar para construir um romance que
depois se chamou “Cruzeiros do Sul”, e eu precisava aprender
um bocado sobre os antigos habitantes desta terra onde vivo,
o povo que hoje chamamos de Xokleng. Estava assim bem
perdida, sem saber por onde começar, quando me aconselharam
a procurar o professor Sálvio Alexandre Muller, da
Universidade local, que me recebeu com deferências que eu
não imaginava:
- O que tu
precisas conhecer é a pesquisa do Sílvio Coelho dos Santos!
Da sua
biblioteca particular, Sálvio emprestou-me “Índios e brancos
no sul do Brasil”, exemplar tão manuseado que muitas folhas
já estavam soltas, e quanto me lembro, como neste momento,
que também o Sálvio já partiu, neste mesmo ano de 2008! É
como se pedacinhos da gente fossem ficando ao longo da
estrada, como se fôssemos sendo apedrejados pela vida!
Foi
empunhando “Índios e brancos no sul do Brasil” que comecei a
aprender sobre o Sílvio, a admirá-lo cada vez mais, quiçá
mesmo a ter dele uma certa inveja, pois eu também queria ter
podido viver a vida que ele viveu, experimentar as
experiências que ele experimentou. Vim a conhecê-lo mais
adiante; tornei-me sua confreira na Academia Catarinense de
Letras; vi-o fazer fascinantes pronunciamentos e dar
impressionantes conferências em tribunas universitárias;
acabei ganhando dele o meu exemplar de “Índios e brancos no
sul do Brasil”; a partir de algum momento tornamo-nos
amigos; citei-o em diversos textos meus; trocávamos
mensagens eletrônicas, e neste ano ele andou costurando para
que eu fosse lançar meu livro “Sambaqui” lá na sede da ACL.
No último
final de semana fiquei a mandar-lhe mensagens, sem nem me
passar pelo pensamento que, já suavemente impulsionado por
dedicados anjos (diz-me o coração que entre eles estava o
cacique Kam-Rem)
que provavelmente provinham lá das gentes Xokleng, Sílvio já
acenava em despedida, tomando o rumo de outras paragens,
quem sabe uma etérea floresta subtropical com uma porção de
pessoas precisando de ajuda!
Fica
difícil, para mim, pensar que o Sílvio se foi para sempre.
Tento lembrá-lo como o ser humano extraordinário que era,
lembrar das histórias que ouvi aqui e ali da boca dele,
costurá-las numa biografia na forma como elas vêem à minha
lembrança, trazer à tona o menino, o estudante, o homem, o
cientista... Então acho que é bom começar da forma certa,
pois certos seres só podem estar na nossa memória da forma
mágica que lhes é devida, e então,
era uma vez...
Era uma vez um menino de Florianópolis
que queria ser antropólogo, no tempo em que para se estudar
Antropologia havia que ir-se ao Rio de Janeiro. Segundo
Sílvio me contou, sua família não tinha as condições
financeiras suficientes para tal, mas o que se fazer contra
a força do Sonho? Ele teimou e teimou, e acabou no Rio de
Janeiro, a estudar Antropologia, vivendo de forma humilde
para poder se manter naquela cidade distante. Viajava para o
sul nas férias, como as aves migram em certas estações, e
embrenhava-se por estradas ainda não asfaltadas (estava-se
na década de 1960) até a Reserva Indígena “Duque de Caxias”,
que então se situava no município de Ibirama/SC, e lá vivia
com o povo Xokleng, férias após férias, ano após ano, tudo
vendo, tudo aprendendo, tudo observando, tudo anotando. Há
que se considerar que o Sílvio foi um felizardo: passou a
conviver com aquele povo apenas cinqüenta anos depois do seu
aldeamento, quando ainda estavam vivos muitos hábitos,
costumes e tradições que talvez mais tarde tenham se
extinguido. É esta a parte da vida dele que invejo: o que eu
não daria para ter tido o mesmo privilégio! Tornar-se-ia,
assim, ele, o maior estudioso e o maior especialista a
respeito do povo Xokleng. Viria a estudar outros povos
antigos, mais tarde, mas os Xokleng seriam sempre como que
seus amigos maiores, e um dia o ouvi falar:
- Minha
casa, em Florianópolis, funciona mais ou menos como uma
embaixada Xokleng na capital... – pois seus amigos lá
apareciam a cada vez que tinham que ir resolver alguma coisa
com o governador, ou com a FUNAI,
ou qualquer outra autoridade. Pelo que entendi, nossos
irmãos Xokleng tanto se hospedavam lá quanto contavam com a
ajuda do influente antropólogo para as suas causas.
E aí me vem
outro tipo de lembrança: Sílvio contando da sua estada no
Rio, dos difíceis tempos de estudante:
- Nenhuma
moça da universidade namoraria com um estudante de
Antropologia. Todas elas só namoravam os rapazes da
Medicina, ou da Engenharia, ou do Direito...
Penso agora
naquelas moças todas que não quiseram namorar com o Sílvio e
nos seus namorados da Medicina, da Engenharia e do Direito.
O que terá acontecido com aquela gente toda? Formaram-se,
decerto; casaram-se, provavelmente; voltaram para as suas
cidades e sumiram da história. Quem sabe deles? Não faço
idéia. Do Sílvio, no entanto, muita gente soube por todo o
mundo, e era ele que ia aos congressos internacionais, e era
ele quem era chamado para as grandes conferências, e era ele
quem escrevia livros brilhantes, e era ele alguém que eu
gostaria de ter sido. E ele foi assim magnífico porque soube
ser fiel aos seus sonhos, aos seus anseios, ao amor que
nutria pela sua profissão e pela sua gente - que isto sirva
de exemplo para cada um de nós; que isto sirva de exemplo
para todos os outros que virão depois.
Então, era uma vez um menino de
Florianópolis que segurou com a maior força dos seus pulsos
os sonhos que tinha, e não se permitiu viver sem vivê-los, e
então se tornou magnífico. Era uma vez um menino do sul do
Brasil que aplicou as férias da sua juventude dentro de uma
reserva indígena e abriu sua casa para que os irmãos
originários tivessem uma embaixada na capital, e então se
tornou inesquecível. Era uma vez um menino chamado Sílvio
Coelho dos Santos que nos deixou para sempre, mas que se foi
levado por Kam-Rem e tantos outros caciques que antes dele
viraram anjo para os mais belos lugares de uma floresta
encantada. Mais tarde irei encontrá-lo por lá, Sílvio, pois
falta para minha vida viver um pouco como você viveu.
A gente se encontra, companheiro!
umenau,
28 de outubro de 2008.
Urda Alice
Klueger
Escritora
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