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MEU CACHORRO ATAHUALPA 8 - TERNURA
 

(Para Marta e Lara Zermiani, as meninas do Júnior e da Lúcia)

Hoje Atahualpa faz onze meses. Estamos passando este meseversário num lindo lugar, chamado “Pousada Rio da Prata” (www.pousadariodaprata.com.br), no interior do município de Blumenau, onde moramos. Como aqui na nossa cidade é feriado, já estamos neste lugar maravilhoso faz três dias, e o meu cachorro está tão sujo de tanto escavar buracos, rolar na grama, entrar na lagoa de peixes e brincar com a cachorra Margarida, que é moradora daqui, que quase não o reconheço. De tardinha voltaremos para casa, e então eu só sinto não ter uma tina para lhe dar um banho digno de tanta sujeira, pois não sei como conseguirei limpá-lo só com o banho de chuveiro. Olhando para o meu bicho assim tão sujo e cansado de brincar, concluo que Atahualpa é um cachorro feliz!
Por causa de Atahualpa, passei a aprender uma série de coisas sobre cachorros, coisas que eu ainda não sabia. Por exemplo, quanto tempo os cachorrinhos vivem dentro da barriga da mamãe até virem à luz? Liguei para o meu amigo Rafa, que é um biólogo muito sabido, e perguntei a ele tal coisa. Rafa sabe milhares de coisas sobre milhares de animais – mas nunca parara para prestar atenção na gravidez das cachorrinhas. Sugeriu-me que procurasse na Internet.
Fui lá, então, e descobri que os bebês-cachorros vivem cerca de 62 dias dentro da sua mamãe, até nascer. Faz aproximadamente um mês que comecei a me informar sobre o assunto, e então fiquei toda emocionada: naquela altura, no ano passado, Atahualpa já existia dentro da mamãe dele, uma mamãe que a gente não sabe quem é, e, de acordo com a lei dos cachorros, ele sequer se lembra que existiu. Um mês atrás, no ano passado, ele deveria ser um filhotinho de nada, uma nisca de cachorro, um amontoadinho de células que provavelmente nem poderiam ser vistas a olho nu, e talvez que sua mamãe nem tivesse tomado consciência, ainda que existiam aqueles bebês dentro dela, pois havia mais de um, com certeza, pois lá onde estava sendo doado Atahualpa, em dezembro, estava sendo doada, também, uma irmãzinha dele, malhadinha de preto e branco.  
Então fico pensando em doze meses atrás, um mês antes do meu bichinho nascer, como ele seria uma coisinha minúscula, provavelmente como um pequeno ratinho pelado, nadando em líquido amniótico, livre de todos os perigos dentro da sua mamãe.
E hoje ele faz onze meses que nasceu (a mulher da agropecuária onde ele estava sendo doado é quem sabia da sua data de nascimento), e tudo o que ele tem de mais precioso na vida, de certeza, sou eu.
A cada dia descubro isto um pouco mais. Na semana passada, por exemplo, viajei com Atahualpa até a cidade de São Bento do Sul/SC, que fica a 120 quilômetros daqui e a quase 900 metros de altitude – portanto, um bocado mais perto do céu. Eu ia a trabalho, e ele ia se hospedar e brincar com cinco outros cachorros na casa da tia Rosilene Tauscheck. Preparei tudo direitinho, coloquei-o no seu cinto de segurança, preparei ampla cama no banco do carona, amarrei-o de forma que ele ficasse confortável e não pudesse vir para o meu colo, e lhe expliquei dezenas de vezes:
- Atahualpa, é necessário fazer tal coisa. Se a polícia rodoviária vê um cachorrinho querendo se enfiar no colo do motorista, ela multa o motorista e faz mingau com o bichinho. Tu vais poder ver toda a paisagem fora da janela, vou deixar a janela aberta para que possas ver melhor!
Tudo em vão. Atahualpa, que gosta muito de ver e cheirar paisagens de mato, não deu a mínima atenção para o que se passava fora da janela do carro. Ficou uns 60 quilômetros chorando agoniadamente por não conseguir enfiar a cabeça no meu colo (quando pequenino, ele andava no meu colo. Agora, com seus dez quilos, mal consegue enfiar a cabeça ou o focinho nele), e depois dormiu de exaustão, sem dar nem uma olhadinha para a soberba paisagem de subida da Serra do Mar, coisa que, tenho certeza, lhe agradaria muito e faria seu nariz preto e úmido ficar se movendo como se fosse um periscópio, devido aos tantos cheiros que descobriria na floresta. Diante de tamanhas evidências, tenho que assumir que sou o grande amor do meu cachorrinho. É verdade ou não é, Atahualpa?

Blumenau, 02 de Setembro de 2008.

Urda Alice Klueger
Escritora


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