HISTÓRIA DA CERVEJA EM BLUMENAU
Por Luiz Eduardo Caminha
| Cerveja e Cachaça (Bier und Schnaps) têm uma estreita ligação com Blumenau desde os tempos de Colônia. Em 1856, contando a colônia com apenas 6 anos, aqui viviam 498 pessoas distribuídas em 94 casas. Entre as atividades econômicas apareciam 3 alambiques de produção de cachaça e uma fábrica de Cerveja. Em 1857, Karl Meyer e Augusto Spierling, em sociedade, inauguraram a primeira Casa Comercial organizada e bem sortida de Blumenau. Ali vendiam carne-seca, manteiga, sal, açúcar, farinha de milho e de mandioca, café , milho, feijão, fumo, entre outros produtos. Ah! Lógico! Cerveja e Cachaça! |
Foto da Conta do Dr. Blumenau - Fechamento em 31/12/1878. Nesta conta evidencia-se o consumo doméstico de Cerveja, um hábito do Dr. Blumenau e dos primeiros imigrantes. |
Em 1859, com a população de 943 habitantes Blumenau produzia 17.400 medidas de Cachaça. Tanta que a bebida aparecia entre os produtos que eram “exportados” da Colônia para outros lugares. Neste mesmo ano a Cervejaria existente produzia cerveja que era toda consumida pela população local.
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Schützenfest - Depois do Desfile, acontecia a Cerimônia de Abertura. Daí prá frente, 3 dias de concursos de tiro, confraternizações, bailes e muita, mas muita Cerveja e Schnaps! |
Em 02 de Setembro de 1859 era fundada a “Schützengesellschaftverein Blumenau” (hoje Tabajara Tênis Clube), o primeiro Schützenverein de Blumenau. Eram em número de 100 os seus sócios e, em seu interior, consumia-se a Cerveja, a Cachaça, além de vinhos provenientes da Europa, notadamente o Vinho do Porto. Nesta época, a cerveja era produzida de forma rudimentar e artesanal até que em 1860 pelas mãos de Heinrich Hosang, quando Blumenau tinha apenas 960 habitantes , surgiu a Primeira Cervejaria de porte industrial.
Em 1875 surgiu a Richbieter Brauerei produzindo cerveja clara (Bavária) e escura (Schwartzbier). Na Itoupava Seca funcionava a Cervejaria de Otto Jennrich, ponto de reuniões alegres e muita cantoria durante noites e mais noites bem regadas por garrafas de Polar, Estrela e Kulmbach.
Em 10 de janeiro de 1883 encerrava-se a vida da Colônia Imperial de Blumenau, com instalação oficial do Município de Blumenau.
Desta época, é importante observar o levantamento estatístico da Colônia que contava com 16.380 pessoas, dos quais 11.108 alemães e seus descendentes, 1.895 tiroleses, 1.023 italianos, 393 austríacos, 118 suíços, 276 de outros países. Os luso-brasileiros somavam 1.567, cerca de 9% do total de habitantes.
Alguns outros dados são importantes referenciais deste censo. Havia, por aqui, 10 padarias, o que já demonstrava a vocação inequívoca para os pães, doces e tortas, 32 casas comerciais, 12 hotéis e casas de pasto (restaurantes), 36 botequins, 8 cervejarias e 4 fábricas de vinho e vinagre.
Vale dizer: local era o que não faltava para uma Cerveja ou uma cachacinha.
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Foto do Cine Busch e Hotel Holetz (esquina da Alameda Rio Branco com a Rua XV de Novembro - aonde hoje está o Grande Hotel). No bar avarandado do Hotel Holetz (nos fundos, com vista para o Centro Histórico) havia um Stammtisch que se encontrava todos os finais de tarde para jogar conversa fora e, lógico, beber Cerveja! Quando o Hotel Holetz foi destruído para dar lugar ao Grande Hotel, aquele Stammtisch mudou-se para a Confeitaria Socher. Por ocasião da inauguração do Restaurante Aquarius, no térreo do já inaugurado Grande Hotel, o grupo voltou ao seu local de origem. Faziam parte deste Stammtisch, entre outros, Augustinho Schramm, Flávio Rosa, Arno Buerger, José Gonçalves, Nicolau dos Santos, Vasselai, Heinz Hartmann, Dr. Carvalhinho e Altair Pimpão. Destes adeptos surgiu a idéia de se fundar um Clube de Campo - O Bela Vista Country Club. |
Cine Busch e Hotel Holetz "Praça da Prefeitura Antiga (atual Hercílio Luz) e Ponte - Vista dos fundos do Hotel Holetz" |
Aliás, o hábito de tomar cerveja já era tão arraigado nestas terras que este mesmo levantamento econômico, da recente extinta Colônia, mostrava na sua pauta de exportação: milho, feijão, arroz, farinha de mandioca, aguardente, vinhos de frutas, açúcar, farinha de araruta, tabaco, manteiga, carne de porco e banha, mel de abelhas, cera, ovos e aves, madeiras em tábuas e pranchões e couro.
Com 8 fábricas de cerveja, população de apenas 16.380 habitantes (uma cervejaria para cada 2 mil habitantes) o precioso líquido era todo, mas todinho, consumido aqui. Não sobrava uma gota, um frasquinho sequer, um mínimo vestígio que servisse para engrossar a pauta de produtos exportáveis da Colônia Blumenau.
A história das Cervejarias de Blumenau acabou pela década de 1960/70, com a impossibilidade de concorrer com as grandes marcas nacionais. Em 1985 a Cervejaria Continental, subsidiária da Brahma, bem que tentou produzir cerveja na Praça Hercílio Luz, no recém inaugurado Biergarten. A experiência foi frustrante, até que cansado em ter que responder aos amigos de São Paulo que a cerveja consumida aqui em Blumenau era a mesma que eles consumiam em sua cidade, ou seja, as grandes marcas nacionais, o jovem Juliano Mendes botou na cabeça que era preciso uma cerveja própria, produzida em Blumenau. Desta fixação, nasceu a Eisenbahn.
Eisenbahn – a primeira micro-cervejaria de Blumenau
Era Dezembro de 2.001, dia 23, quando tomei o primeiro contato com a família Mendes em sua casa de Praia em Bombinhas (Jarbas e Eliane, os pais, e os jovens filhos Juliano e Bruno). Em cima da mesa daquela varanda, com uma fantástica vista para a baía de Bombinhas, três garrafas “pet”, de cor âmbar escuro. Nelas, três rótulos que significavam os primeiros estudos do nome da cerveja que eles viriam a produzir. Um deles, com predomínio do Azul da Prússia destacava o nome Alles Blau. Gostei do rótulo, mas não do nome. Era muito chavão. Um outro, puxando para o Vermelho Escarlate, dava o nome de Fritz Müller à futura cerveja. Uma homenagem ao naturalista, discípulo de Charles Darwin, que imigrou para a Colônia Blumenau em 1852. O terceiro apresentava uma locomotiva. Puxava para o amarelo queimado. Eisenbahn (trem de ferro para uns e Estação de trens para outros). Era um nome diferente, mas muito simpático. De uma sonoridade autenticamente germânica. Daqueles nomes comerciais que, ao primeiro contato, já aguçam a curiosidade do consumidor.
O nome foi mesmo Eisenbahn, que serviu para identificar este verdadeiro fenômeno de empatia comercial jamais visto nos últimos anos em Blumenau. “Eisenbahn, a autêntica cerveja de Blumenau”.
Agendamos, mais tarde, uma visita ao local que estavam construindo aonde seria a Cervejaria. O “galpão” estava situado na rua Bahia, defronte à antiga “Casa das Chaves” da Estação Salto Weisbach, da ex-Estrada de Ferro Santa Catarina.
A partir de Janeiro de 2002, com a fábrica ainda em construção estabelecemos uma parceria comercial envolvendo a futura Eisenbahn e o Programa Stammtisch. Foram ainda algumas visitas à Fábrica.
Lembro bem que o Jarbas queria espalhar, pela área de produção, quadros aonde se colocariam as camisetas dos stammtische que viessem a visitar a fábrica. Sugeri que fizesse um quadro, na parede lateral da Estação Eisenbahn (o bar da Cervejaria) aonde se poderia expor o brasão dos grupos. Também meti o "bedelho" no número de assentos. Eram 26. Como tínhamos intenção de gravar o Programa no próprio local, sugeri que ampliassem para algo em torno de 35 a 40 lugares. Minha satisfação foi maior ainda, quando vi minhas simples sugestões serem atendidas. Demonstrava o sincretismo que estávamos dando início.
Também fui eu quem falou ao Jarbas, ao Juliano e ao Bruno que a Chopmotorrad, dos impagáveis Ingo Penz e Vasco Lauchner estavam sem patrocínio. Não deu outra. A competente ação da família Mendes logo trouxe a Chopmottorrad para a família Eisenbahn e se tornaram um dos carros chefes, além de nosso Programa, na divulgação daquela Cerveja.
Depois da inauguração, com a maravilhosa turma dos Amigos da Chopmotorrad transformando as Quintas Feiras num dos points mais freqüentados de Blumenau, ficara impossível levar mais um stammtisch para o local e acabamos indo gravar no Biergarten que àquela época fora revigorado pela própria Cervejaria Eisenbahn.
Em Fevereiro de 2.002, começamos a mostrar o futuro nos Programas. Nesta época, eu ainda continuava sozinho no Programa Stammtisch. Não tínhamos, ainda, comerciais para rodar e nem uma previsão do início das atividades da fábrica. Restringíamos então os comerciais a depoimentos nossos sobre a futura Cervejaria. Mas, o Jarbas tinha conseguido uma proeza. Todas as semanas, procedente do Laboratório contratado para produzir o gosto especial das Cervejas Eisenbahn, no Rio de Janeiro, lá estava o barril de 10 litros da futura Pilsen Eisenbahn, que vinha por via aérea, direto para o consumo nos Estúdios da TV Galega. Como 10 litros era uma quantidade grande para ser consumida durante o programa, o jeito era consumir o restante após as transmissões. Nas quintas-feiras, o espaço destinado a guardar as tapadeiras dos Programas da TV Galega tinha se transformado num stammtisch. E assim continuou por muito tempo.
Até que a Cervejaria começasse a produzir, o estúdio da TV Galega, nas Quintas-feiras, era o único local, aonde um grupo de privilegiados convivas podiam saborear aquela cerveja elaborada de acordo com a Lei Alemã da Pureza, a Reinheitsgebot de 1516. Aliás, único não traduz uma verdade inconteste. Nossos novos parceiros foram além. Juntamente com o barrilete de 10 litros, um outro de 30 litros chegava por avião, todas as semanas, para ser levado ao stammtisch que seria filmado pelo programa.
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Foto da Cervejaria Otto Jennrich, uma das primeiras da região. Bairro Altona - hoje Itoupava Seca - futura Rua São Paulo. (Arquivo Histórico José Ferreira da Silva)
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A apresentação no 5º. Encontro de Stammtisch
Passamos o mês de Fevereiro anunciando uma novidade. Nossos novos parceiros queriam entrar com estilo no mercado. Nada mais adequado que usar um outro palco dos Stammtische para que isto acontecesse. Assim, agendamos para o dia 02 de Março, data da 5a. Strassenfest mit Stammtischtreffen, na Praça Dr. Blumenau, a 1a. degustação da Eisenbahn. Aquela edição vinha surpreendendo nossas expectativas. Da 4a. para aquela edição o número de Stammtische havia passado de 72 para 95 grupos.
Para nós significava comprovar a audiência do Programa. Sucesso total!!! Vindos do Rio de Janeiro, ainda produzido no laboratório experimental da Südbrack, mais de 1.000 litros de chope Pinsen e 500 litros de Dunkel, a cerveja escura da Eisenbahn, foram consumidos pelos integrantes dos stammtische. Na festa, o Mestre Cervejeiro André Nothaft, contratado especialmente para formular as Cervejas Eisenbahn, se fez presente para falar sobre esta novíssima cerveja brasileira.
Foi também durante este Encontro que, dentre os degustadores, nossos novos parceiros conheceram o Sr. Gerhard Beutling, Mestre Cervejeiro alemão, formado pela Escola Weihenstephan, fundada em 1.040 e que guarda a marca de ser a mais antiga Cervejaria do Mundo. Gerhard foi contratado quase que em plena Praça de Degustação, ou seja Praça Dr. Blumenau. Até hoje, Gerard é o Mestre Cervejeiro das Cervejas Eisenbahn, agora com 11 tipos e sabores no mercado.
Transcorriam os últimos dias do mês de Junho de 2.002 quando a Cervejaria Südbrack iniciou a sua produção em Blumenau e no dia 12 de Julho tivemos a honra de estar presentes à “sangria” do 1° barril de Chope Eisenbahn aqui produzido. Um momento histórico! Depois de muitos anos, a terra da cerveja, da Oktoberfest, voltava a produzir uma cerveja genuinamente blumenauense. E o Juliano Mendes, não teve mais que se desculpar com seus amigos pelo fato de Blumenau consumir apenas as marcas nacionais. A resposta, agora, era outra, única, genuína, autêntica: “Habemus bier!!!” Habemus Eisenbahn”.
Hoje, na região existem mais 4 Micro-Cervejarias: uma segunda em Blumenau e as outras três em Timbó, Indaial e Brusque.
Fontes:
1 - SILVA, José Ferreira da, História de Blumenau, Fundação Casa Dr. Blumenau, 2a. ed., 1988, Blumenau.
2 - Arquivos de Luiz Eduardo Caminha
3 – Arquivos do Programa Stammtisch.