O Causo deste Mês vem em DUAS versões: "com sotaque" e "sem sotaque".
Boa leitura.
Eta Cachaça Boa !!! (versão sem sotaque)
Luiz Eduardo Caminha
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Era dia de rabada, feita pelo Jorge Müller, nos terças-feirinos do Bela Vista Country Club, em Blumenau, Santa Catarina, lá no sulzinho do Brasil (Grupo Terça a Todo o Vapor). Dia de rabada é dia de muita gordura e para diminuir os efeitos nocivos do colesterol, há que se quebrá-los com uma boa cachaça, antes e depois da comilança e da beberagem.
Todo mundo sabe, lá no Bela Vista, que o Baldur Hass é campeão na produção de uma cachaça velha, que é guardada a sete chaves e servida como gotas preciosas, em verdadeiras doses homeopáticas, apenas e tão somente aos amigos, em datas muito especiais.
Pois dia de rabada é uma destas datas especiais e o amigo Baldur não esqueceu de trazer um litro da sua pinga mais velha.
E foi sorvendo esta iguaria servida aos deuses do Olimpo e esculpida por este verdadeiro artista das artes culinárias, entre um gole e outro da malvada, que perguntei ao amigo Baldur como ele conseguia fazer uma cachaça tão saborosa.
- Ach! Ach! Du mann!!! “Isto tudo é muito fácil, Caminha”, começou respondendo com aquele sotaque alemão carregado, “já, já eu te explico”.
- “Primeiro tu tem que escolher um pedaço de chão, de mais ou menos três por quatro metros, no quintal da tua casa. O bom é um terreno bem firme. Se for de pitão, melhor ainda”.
- “Depois tu cavas no chão, um buraco de uns dois metros de altura.”
- “Então tu fazes uma escada para ter acesso lá de cima, do chão, até o fundo do buraco”.
- “Daí, tu reveste as paredes do buraco. Pode ser com massa de cimento e areia, se a terra for de pitão, ou tu podes fazer uma parede de pedra. O importante é que o lugar fique bem fresco”.
- Terminado o buraco tu fazes um estrado de dois andares, para sete barris de carvalho. Se tu quiseres 50 litros de cachaça, uma vez, então tu compras sete barris de 50 litros. Se tu quiseres 100 litros, uma vez. Então tu compras sete barris de 100 litros. Eu tenho sete barris de 250 litros. Assim, cada vez, eu tenho 250 litros de cachaça velha”.
- “Agora, tu tapas o buraco. Pode ser um tapume de madeira coberto de telhas de barro, ou então tu podes fazer um rancho por cima, sempre com cobertura de telha de barro”.
- “Pronto!!! Agora tu já tens uma adega!!! Lá em casa, minha adega fica num buraco que eu fiz dentro da minha oficina de guardar ferramentas!!!
- O próximo passo é tu comprar uma cachaça boa, nova, de melado da cana, que seja alambicada em alambiques de cobre. Os alambiques de inox não prestam porque não retêm muito calor e por isso a cachaça não fica bem queimada.
- Eu, por exemplo, só compro cachaça do Van Bylaard, lá do Alto Serafim, no município de Luís Alves. Qualquer dia destes, a gente combina e vai lá, prá tu conhecer como se faz uma boa cachaça. Só pra tu ter idéia, o Van Bylaard só usa a parte do corpo da cachaça, a cabeça, mais forte, e o rabo, mais rala, ele despreza. Outra coisa, ele curte o melado da cana em tinas grandes de madeira e o resfriamento é feito usando a água do ribeirão que é puxada por uma roda d’água. Olha, vale a pena ir lá só pra ver. Mas tem que ser num dia que a gente não tenha compromisso depois.
- Agora toma cuidado! Tem muita gente por aí, lá em Luís Alves inclusive, vendendo cachaça “feita na região”, que na verdade vem das destilarias de São Paulo. Só recebem o rótulo aqui, uma vez!!!
- Bem, depois disto tudo, é só tu encher o primeiro barril, deixar em repouso por dois anos. Aí tu já tens uma cachaça de dois anos.
- Daí, tu transfere esta cachaça para o segundo barril.
-
- Agora tu vai lá e compra de novo outra cachaça para encher, novamente, o primeiro barril que vai estar vazio.
- “Assim você vai fazendo, a cada dois anos e, então no final de mais ou menos uns 14 anos, tu tens pronta uma cachaça velha e de boa qualidade”.
- “Ach!! Tem uma coisa que eu esqueci e que tu precisas saber. É um macete que tu não podes esquecer senão tu ficas sem nenhuma cachaça.”
- “O barril de carvalho perde todo ano, por evaporação, mais ou menos uns 10% da cachaça. Então, é importante que cada ano tu pegas um pouco de cachaça, que tem que ser da mesma procedência e completas cada barril. Eu costumo fazer isto a cada seis meses mais ou menos”.
- É só isso!!! “Fácil, não”?!! Interrogou-me com aquele olhar meio esbugalhado de tremendo gozador.
Bem, sou obrigado a concordar que não é tão fácil assim se fazer uma cachaça velha. Ainda bem que existem pessoas com a paciência do Baldur, para que possamos continuar a degustar preciosidades desta natureza. Ainda mais quando o prato é uma rabada.
Então tá! Fica assim, definitivamente respondida minha dúvida inicial. É desse jeito que se faz uma boa cachaça velha. Quem tiver coragem e paciência, a fórmula está dada.
- Eta cachacinha boa, gente!!!
Eta Cachaça Boa !!! (versão com sotaque)
Luiz Eduardo Caminha
Era dia de rabada, feita pelo Jorge Müller, nos terças-feirinos do Bela Vista Country Club, em Blumenau, Santa Catarina, lá no sulzinho do Brasil (Grupo Terça a Todo o Vapor). Dia de rabada é dia de muita gordura e para diminuir os efeitos nocivos do colesterol, há que se quebrá-los com uma boa cachaça, antes e depois da comilança e da beberagem.
Todo mundo sabe, lá no Bela Vista, que o Baldur Hass é campeão na produção de uma cachaça velha, que é guardada a sete chaves e servida como gotas preciosas, em verdadeiras doses homeopáticas, apenas e tão somente aos amigos, em datas muito especiais.
Pois dia de rabada é uma destas datas especiais e o amigo Baldur não esqueceu de trazer um litro da sua pinga mais velha.
E foi sorvendo esta iguaria servida aos deuses do Olimpo e esculpida por este verdadeiro artista das artes culinárias, entre um gole e outro da malvada, que perguntei ao amigo Baldur como ele conseguia fazer uma cachaça tão saborosa.
- Ach! Ach! Du mann!!! “Isto tudu muito fácil, Caminha”, começou respondendo com aquele sotaque alemão carregado, fazendo um movimento com a mão, de cima para baixo, como se aquilo fosse uma coisa banal “xá, xá eu tishplico”.
- “Primeiro tu tem que escolher um pedaço de chon, de mais ou menos três por quatro metrrros, no quintal da tua casa. O pom é um tereno bem firme. Se for de pitão, melhor ainda”.
- “Depois tu cavas no chon, um burrrraco de uns dois metros de altura.”
- “Então tu fazes uma escada para ter acesso lá de cima, do chon, até o fundo do burrraco”.
- “Daí, tu reveste as parredes do burrrraco. Pode ser com massa de cimento e areia, se a tera for de pitão, ou tu podes fazer uma parede de pedra. O importante é que o lugar fique bem fresco”.
- Terminado o burrrraco tu fazes um estrado de dois andares, para sete parris de carvalho. Se tu quiseres 50 litros de cachaça, uma veiz, então tu compras sete barris de 50 litros. Se tu quiseres 100 litros, uma veiz. Então tu compras sete barris de 100 litros. Eu tenho sete barris de 250 litros. Assim, cada veiz, eu tenho 250 litros de cachaça velha”.
- “Agora, tu tapas o burrrraco. Pode ser um tapume de madeira coberrrto de telhas de paro (barro), ou então tu podes fazer um rancho por cima, sempre com cobertura de telha de paro”.
- “Prrronto!!! Agora tu já tens uma adega!!! Lá em casa, minha adega fica num burrrraco que eu fiz dentro da minha oficina de guardar ferramentas!!!
- O próximo passo é tu comprar uma cachaça boa, nova, de melado da cana, que seja alambicada em alambiques de cobre. Os alambiques de inox non prrrestam porque não retêm muito calor e por isso a cachaça non fica bem queimada.
- Eu, por exemplo, só compro cachaça do Fan Bylaard, lá do Alto Serafim, no município de Luís Alves. Qualquer dia destes, a xente combina e vai lá, prá tu conhecer como se faz uma poa cachaça. Só pra tu ter idéia, o Fan Bylaard só usa a parte do corrrpo da cachaça, a cabeça, mais forrrte, e o rabo, mais rala, ele despreza. Outrrra coisssa, ele curte o melado da cana em tinas grandes de madeira e o resfriamento é feito usando a água do ribeiron que é puxada por uma roda d’água. Olha, fale a pena ir lá só pra ver. Mas tem que ser num dia que a xente não tenha compromisso depois.
- Agora toma cuidado! Tem muita gente por aí, lá em Luís Alves inclusive, fendendo cachaça “feita na region” que, na verdade, vem das destilarias de São Paulo. Só recebem o rótulo aqui, uma veiz!!!
- Bem, depois disto tudo, é só tu encher o primeiro parril, deixar em repouso por dois anos. Aí tu xá tens uma cachaça de dois anos.
- Daí, tu transfere esta cachaça para o segundo parril.
-
- Agora tu fai lá e compra di novu outra cachaça para encher, novamente, o primeiro parril que vai estar vazio.
- “Assim tu vai fazendo, a cada dois anos e, enton no final de mais ou menos uns 14 anos, tu tens pronta uma cachaça velha e de boa qualidade”.
- “Ach!! Tem uma coisa que eu esqueci e que tu precisa saber. É um macete que tu non pode esquecer senon tu ficas sem nenhuma cachaça.”
- “O parril de carvalho perde todu ano, por evaporaçon, mais ou menos uns 10% da cachaça. Então, é importante cada ano tu pegar um pouco de cachaça, que tem que ser da mesma procedência, e completa cada parril. Eu costumo fazer isto a cada seis meses mais ou menos”.
- É só isso!!! “Fácil, não”?!! Interrogou-me com aquele olhar meio esbugalhado de tremendo gozador.
Bem, sou obrigado a concordar que não é tão fácil assim se fazer uma boa cachaça velha. Ainda bem que existem pessoas com a paciência do Baldur, para que possamos continuar a degustar preciosidades desta natureza. Ainda mais quando o prato é uma rabada. Quanto ao sotaque, bem, este vai piorando na medida em que a língua vai enrolando.
Então tá! Fica assim, definitivamente respondida minha dúvida inicial. É desse jeito que se faz uma boa cachaça velha. Quem tiver coragem e paciência, a fórmula está dada.
- Eta cachacinha boa, xende!!! Prosit!!!